quinta-feira, novembro 10, 2005


minha mãe morreu quando eu tinha treze anos. na verdade, não sei se aos treze ou aos doze ou quatorze. não recordo o ano. o mês, abril. dia dezenove de abril. de fato, ela começou a morrer aos meus onze anos ou dez. foi uma morte lenta, arrastada, sofrida, com dores de cabeça intermináveis – até hoje me apavora a simples idéia de sentir dor-de-cabeça. eu era criança e tentava entender tudo aquilo de exames, de médicos, de fé inabalável seguida por uma descrença furiosa. entender o olhar triste embora cheio de amor com o qual a minha mãe olhava a mim e ao meu irmão dois anos mais novo que eu. entender o tempo que parecia rápido demais e levava tudo embora cedo, cedo demais. entender aquele olhar de despedida sem querer dizer adeus. um olhar que dizia jamais, jamais deixarei vocês sozinhos no mundo. jamais deixarei. o olhar da minha mãe.

lembro dentro da minha alma quando numa tarde ela disse a nós dois, no quintal de casa, debaixo do jambeiro florido, que não queria nos dar trabalho e que sofria por estar causando aquilo tudo. nenhuma palavra saiu da minha boca. meu coração sentiu toda a dor do mundo num só golpe. descrença furiosa. fé inabalável. nesta tarde eu inventei um cantinho em mim pra ficar imune. porém, acima de tudo, havia a presença radiante da minha mãe. as canções de ninar. os abraços. os sorrisos. havia amor. havia banhos de chuva e os ralhos que ela nos dava. aprender a tabuada e os afluentes do rio amazonas. aprender concordância verbal e acentuação. eu amava aprender sobre ciências. sobre insetos. meu irmão odiava estudar. preferia brincar, correr, suar, e jogar futebol, no gol. guardo fotos desse tempo. fotos guardam memórias e lugares. mas não cabemos nelas.

não sei qual o dia, mas eu voltava do cinema com o meu irmão e uns amiguinhos do bairro e estávamos todos sorrindo e o céu estava azul e tinha nuvens que brincavam de serem carneiros e tinha o cachorro da esquina que sempre latia e corria atrás da gente quando passávamos de bicicleta. naquela tarde foi diferente. quando chegamos na nossa rua, de longe, pude ver um movimento estranho na frente de casa. eu sabia. eu soube de imediato e caminhei muitos passos infinitos que eu jurei que nunca iriam terminar pra que tudo permanecesse como num sonho. bem antes dos passos alcançarem o infinito, minha tia e minha avó me abraçaram e disseram que minha mãe estava morrendo – em coma, acho que era isso. teria eu dito uma última palavra, dado um último beijo, sentido um último abraço? descrença combalida. fé destroçada. ódio de tudo. e silêncio no coração.

as lembrança que tenho são confusas. parentes orando, parentes dizendo “douglas, fala com a tua mãe, ela pode te ouvir”. “fala com ela, diz que tu a amas”. mas a minha mãe estava lá, deitada, imóvel, no quarto dela que era tão nosso e tão cheio de vida. “fala com ela, ela pode te ouvir”. eu falava, mas as palavras sequer saiam da garganta e eu chorava e as lágrimas sequer escolhiam onde cair e eu via meu pai a ela agarrado em desespero e meu irmão e minha avó e meu avô e minhas duas tias e meu tio e meu primo e via orações serem entoadas e via a tarde ficando poente e a cadeira de embalo estava vazia e eu sentei e quis de volta o meu canto onde nada poderia me tocar. descrença e fé. “fala com ela”. e minha mãe morta. “fala com ela”. e minha mãe sendo colocada no caixão. “fala com ela”. e o túmulo sendo fechado. “fala com ela”. e eu nem pude dizer adeus.

antes do enterro lembro ainda que estava em casa sentado na cadeira de embalo olhando a minha mãe ali, deitada, quando vi o que era a morte. eu pude escutar um suspiro que seria o último. tudo terminou num instante. num único instante. a vida continuava. eu estava respirando e as pessoas tinham movimento e a porta da sala estava aberta e eu apareci no meio da rua e disse pros coleguinhas que minha mãe tinha morrido e fiz questão de não deixar nenhuma lágrima ou emoção aparecer. eu precisava fazer de conta que aquele cantinho onde nada me atinge realmente existia e que logo mais eu seria adulto e a dor passaria. eu precisava ter fé. descrença furiosa. fé inabalável. eu precisava ser forte e encontrar a estrela cadente que um dia me prometeu que a vida seria feliz, que meus desejos seriam verdade, que a morte ficaria adormecida pra nunca mais acordar.
a dor não soube passar, mas muito passou sem retornar. já não habito a mesma casa, já não brinco com meu irmão, não há pão quentinho no lanche da tarde nem o beijo na testa que nos dizia boa-noite. já não acordo cedo pra ir ao colégio e no meu aniversário não há mais o bolo de chocolate com cobertura de chocolate cuja decoração incluía desenhos feitos com os quatro dentes do garfo de cozinha. meu pai está triste, nunca mais foi feliz de verdade. meu irmão está casado e sério. sou adulto e sóbrio. minto verdades. coleciono palavras. invento memórias. rumino perdas e ainda tenho comigo os girassóis da minha infância. só que nada, nada mesmo ocupa esse vazio que ficou, essa saudade de tudo, essa dilacerante vontade de sentir mais uma vez, só uma vez mais o toque, o carinho, o amor, a ternura, a voz, a presença, o sorriso, o sorriso de chuva que sorria a minha mãe.

segunda-feira, novembro 07, 2005




CANÇÃO PRO MEU IRMÃO

- observa o tempo, está a fazer silêncio. algumas palavras sempre escapam, trazendo saudade e uma sensação de incompletude.

- não, nós ainda somos meninos e nossa mãe nos chama pra dentro de casa. Ainda somos felizes e as manhãs têm sol, têm brincadeiras e banana amassada com leite condensado.


- mas, e o tempo? você não percebe? o silêncio nos envelheceu demais, é mentira ainda sermos assim, infância.

- vê meus olhos? vê as cores que minha pele faz vivas? aqui existem girassóis e cantigas de ninar. isso nos mantém vivos e livres da poeira, você não acredita?

- como? aqui faz silêncio, eu já disse. estamos sós neste mundo, cada qual com uma história, cada qual com seus fantasmas. não há telas a serem pintadas. não há abraços a serem dados. não há adeus. não há olá.
nada! nada!

- estamos sós neste mundo?

- sim, completamente sós.

- o tempo.
o silêncio.
as palavras.
a saudade.
a incompletude.

- e a nossa mãe não pode mais nos chamar pra dentro de casa.

sexta-feira, novembro 04, 2005


amanhã,
serei um sopro solto sob o sol
pedaço de mim mesmo misturado ao acaso
um olhar vadio
um terreno baldio
um sentimento calado

amanhã,
serei as asas da graúna dos contos infantis
cortina envelhecida nas falhas da memória
um resto de homem
um pouco de fome
um hematoma, e só

amanhã,
são meus os dias inglórios
as despedidas que não tive
os remorsos que não pude
as manhãs que invento
sóbrio de ti

segunda-feira, outubro 31, 2005



Do meu deus que me espera, nada posso ter. Do batismo que não lembro, meu nome me carrega quando esqueço de mim. Poucas linhas estão vagas, as palavras cansaram da gente – dor, esperança, perdas, ambições, tudo isso cansa, e as palavras cansaram. Que descansem então onde eu não possa alcançá-las. São cores mudas no meu jardim de flores mortas. Pássaros cegos no meu paraíso insone. Anjos doentes sob a luz do martírio [meu inferno será teu eco, meu poema oco de ti]

Dos meus dias entrincheirados trarei as estrelas dos teus poentes. Minha solidão é o ponto que me mantém lúcido, o lugar exato da redenção. Minhas madrugadas contém horas ímpares, horas vagas por onde procuro em vão a tua companhia. Entreguei a ti os meus desígnios. Abri buracos no céu pra que tu pudesses respirar. Menti orações. Adormeci segredos manchados de fé e testemunho. Meus caminhos tortos. Minha vida mundana [e agora, o que fazer se não estás mais aqui?]

Alcancei o vento e fiz do musgo tempestade.
Sou um homem de palha.
Eu sei fingir sorrir.
Eu sei fingir chorar.

domingo, outubro 30, 2005


- A morte pesa. Mais que a vida, a morte pesa.
- Qual o peso da morte?
- O peso das tardes sem chuva, o peso dos olhos turvos, o peso duma criança trancada em casa, o peso de folhas mortas espalhadas pelo quintal.
- Menos que a dor, a morte pesa.
- Qual o peso da dor?
- O peso das esperanças amputadas, o peso dos abraços interrompidos, o peso dum parque de diversões fechado, o peso de cores estagnadas no pôr-do-sol.
- Leve, a vida é leve. Leve como bolinhas de sabão, leve como dentes-de-leão, leve como minha pequena irmã sorrindo – a leveza dos teus olhos castanhos, desse meu amor insano com fome de te amar.

sábado, outubro 29, 2005


Calor infernal, ar-condicionado quebrado e apenas um ridículo ventilador soprando ar quente no meu rosto. Sim, o mesmo quarto, meus vinis espalhados por todos os cantos e muita, muita poeira nos rodapés. Olhando pro relógio, marco as horas que perco – é uma sensação de extrema inutilidade num mundo abraçado ao útil. Podia escrever alguma imagem e esperar por comentários ardentes e emocionados. Podia ler um livro ou bater cabeça com o bom e sempre rock ‘n’ roll. Porra, eu podia até mesmo sentir a dor que sinto, mas que deixo escondida num canto qualquer que trago no fingimento ocre dos meus ossos. Não! Eu não preciso de muito. Eu não preciso ir tão longe se não tenho lugar algum pra alcançar. Basta-me a espera por nada, a permanência deste estado insignificante e isento para, ao final, ser ruminado pelas multidões de rostos anônimos que residem em mim.

quinta-feira, outubro 27, 2005


Nesse relógio que marca sempre a mesma hora, nesse álbum que abre sempre na mesma imagem, nesse quarto que murmura sempre o mesmo segredo, nessa dor que incomoda sempre no mesmo lugar, nesse pedaço de medo que assombra sempre o mesmo sonho, eu insisto - você ainda está aqui, você ainda importa, você ainda acende a luz do meu amanhecer feito de silêncio. És a perda e o vazio que me ocupa, a fronteira que me falta e a promessa que não fiz, o meu último instante de humildade e a minha queda acometida de deus [a demência, a demência tomou posse de mim]

terça-feira, outubro 25, 2005

O lado mudo da solidão é lúcido, um espaço rígido, pedregulho distante das ondas do mar. O lado mudo da solidão percorre caminhos áridos, é um réptil nos ignorando sob o sol, uma vírgula perdida no corpo do texto, uma prece estraçalhada dentro do peito. Pesado e paciente, registra nossos mínimos movimentos, dia após dia, hora após hora, por todos os meses do ano, por todos os dias que sobrevivemos, somente pra jogar tudo no nosso rosto, no momento certo, no momento agudo e estanque da dor, quando as pálpebras vestem-se de emoções e fecha-se a porta da alma, essa frágil alma encoberta por cinzas [esperamos em vão por alguém, somos pequenas luzes sem sombras, pequenas chamas sem ar, pequenas lembranças sem álbum de fotos] O lado mudo da solidão tem músculos e esqueleto, tem nervos e articulações, veste-se de sobras e rouba-nos as cores vivas das estações. Intransponível, devora nossos anjos quando estes pelas madrugadas arriscam nos acolher, anjos sujos de nanquim, anjos insones e febris, nossos anjos de olhos pálidos – há anjos por toda parte. Irascível, crava seus dedos de nunca na palma do nosso destino e lança os dados, embaralha as cartas, desencaixa as peças, mistura as letras, brinca de ser deus ao brincar de se importar conosco. O lado mudo da solidão é gélido, um sopro de ontem, buraco aberto no centro das pupilas. O lado mudo da solidão nos faz dormir, nos cobre com lençóis macios cheirando a memórias – feito mãe, nos olha por dentro e sabe exatamente onde tocar.

domingo, outubro 23, 2005


E se aquilo que procuro não existir? [lapso de memória, vazio e fim] E se existir, mas me fugir antes d’eu poder descobrir? [uma imagem molhada de chuva] E se meus olhos estiverem sós, por onde estarão os teus quando nossos sonhos acordarem? [caixinha de música trancada no quarto] E se amanhã tudo estiver partido, nossos sóis e nossas preces, você ainda saberá de mim, menina que desenha cores no lado de dentro da escuridão?

sexta-feira, outubro 21, 2005


Os que amamos partem quando menos esperamos, sem deixar um aceno, um último adeus, uma imagem sólida pra nos estancar a solitude do peito – somos pegos de surpresa e ficamos entregues ao que não entendemos. Os que amamos recortam nossa vida em doze minúsculos pedaços descoloridos, um pra cada mês dos anos que restam – ciclo infestado por ervas-daninhas e entardeceres anestesiados. Nossas preces não são ouvidas e rumores habitam nossos porões. A cada passo que damos nos aproximamos mais daquilo que tememos [a verdadeira agonia está na permanência da vida tatuada na morte, em tudo que fica desocupado demais pra saber-se perene – naquele único sopro de nós mesmos resguardando a lucidez]

quarta-feira, outubro 19, 2005


Sobrevivem poucas cores no meu estado febril. Sou um osso virado do avesso [mudo e pesado, eu desafio a gravidade] Outubro de dois mil e cinco e continuo tecendo os fios deste enredo oco. A emergência da rota de fuga somatiza os fracassos [cadáveres conservados no lado de dentro da alma] Sinapses multiplicadas a esmo geram aceleração atabalhoada e pequenas passagens por onde me escapam as sentenças – frases desconexas impõem paisagens sedimentadas aos nossos corpos que se acomodam nas molduras luxuosas desta exposição milimetricamente planejada. Na sala de estar deste império asséptico, há vermes escondidos onde havia enchimento [o coração das manhãs de domingo costuma estar ocupado demais com a felicidade] Eu planto fagulhas nos dias de chuva. Eu destelho esperança nas madrugadas de calor. Pelas tardes que adormecem o frio dos segredos, minha lucidez espalha outonos ruidosos. Tenho meus planos. Tenho minhas coordenadas. Sei a posição exata dos meus pés neste exato momento. Menina que amanhece girassóis, o amor não mudou com as estações – eu te abraçaria uma cantiga de ninar, mas já não sei de mim o lado oposto da dor.

segunda-feira, outubro 17, 2005



Setembro desperta uma lenta espera que tritura o amor antes mesmo da felicidade alcançar o esôfago. Por dentro das vértebras já de todo fragilizadas pelo tempo circulam verdades fiéis à terra e encharcadas pelo azul amordaçado do mar. Setembro nos tranca em nós mesmos e desenha em nossas mãos uma única linha sustentada pelo silêncio – portal dum entardecer nublado a nos aproximar daquilo que o tempo leva das nossas vidas. A primavera corrompida pela crença. A primavera rascunhada na pele. A primavera caindo em desgraça. A primavera sepultando sonhos – com seus dedos de relva e nos olhando do alto, quebra ao meio nossas memórias como se fossem palitos de fósforo, roubando a luz destas entristecidas tardes poentes.

sábado, outubro 15, 2005


Hoje, papai entrou no meu quarto somente para mostrar uma foto antiga. Nela, reconheci a mim mesmo bem menino. Já não lembro do cheiro que tinha aquela época – a chuva mudou desde que cresci, vendemos a casa da minha infância e onde moro agora sequer tem quintal. Toquei a foto. Olhei o rosto do meu pai e dei um sorriso apático, coberto de medo e distância – tolo homem cicatrizado eu sou. Hoje, ao entrar no meu quarto trazendo uma foto antiga, meu pai me fez lembrar que algumas imagens ficaram, pois precisamos de acalentos dentro do vazio da nossa existência – acordar cedo pra ir ao colégio, brincar de bola no meio da rua, salivar só de ver a manteiga derretendo ao ser passada no pão bem quentinho que meu avô acabara de trazer da padaria pra que pudéssemos lanchar, ter que escovar os dentes depois do almoço, beijar minha mãe na testa antes de ir dormir. Hoje, ao não saber expressar ao meu pai tudo o que realmente senti ao ver a foto antiga que ele me mostrava, descobri que algumas imagens sumiram sem dizer adeus – imagens que ampliam o desespero de perdermos os que amamos a cada dia que passa, de perdermos a nós mesmos abraçados ao tempo que restou. Somos esqueletos expostos num circo de amarguras e insensatez [o insuportável estado de felicidade nos espatifando contra a imparcialidade incômoda do sol poente]

quarta-feira, outubro 12, 2005


Vamos pegar nossos trapos e sair sem rumo, como se ainda fosse possível pôr os pés no chão e sonhar [essa coisa de sonhar juntos costuma expor a carne e deixar a alma órfã e faminta]
Sim, eu sei, permaneço trancado no quarto e as paredes continuam sendo meu referencial de horizonte. Mas, se você aceitar minha loucura, trago um sol pálido e um punhado de estrelas pra enfeitar os teus cabelos, juro.
O pra sempre nem é tão distante assim, está vendo? Quando sinto frio, cubro-me de mim mesmo. Quando faz calor prefiro inventar precipícios. Minhas mãos têm linhas curtas – você saberá como tê-las.
Sair sem rumo, vamos? Há chuva mais adiante e na chuva costumamos crescer – nossas roupas vestem partículas de amanhã [feito jardim cheio de girassóis]
Há um tom avermelhado na inquietude. Um gosto azul no que falta. Um sopro acinzentado no medo de sair do lugar [o medo que me invade sem você e que me prende aqui] Já a indiferença é branca do branco do gesso – isso é estranho, não?
No inverno, ainda digo teu nome. Na primavera, escrevo planos. Anulo-os no verão. Outono é tempo de sangrar as perdas – sou um fantasma sem estações.
Na cidade que me pertence, as ruas têm os teus olhos, as velhas casas de azulejos portugueses têm os teus olhos, as crianças brincando na praça têm os teus olhos – até mesmo os barcos que se despedem traçando um arco mudo no rio têm os teus olhos.
Na cidade que me escapa, estou sozinho e não sei escrever canções.
Vem, vamos pegar nossos trapos e seguir sem rumo. Deve ser bom chegar juntinhos a nenhum lugar se conosco temos uma colcha de retalhos que trouxemos da infância e alguns travesseiros que roubamos das nuvens.
Vem, ainda temos algumas vidas pra contar. Vem que eu te mostro como fazer um oceano de conchinhas [da última vez eu te mostrei como fazer meu coração relampejar, mas você foi embora e levou a ventania]
Há lugares que lembro, lugares vazios quando estão sem ti. Há pessoas que se foram pra não mais voltar, pessoas a impedir que a minha vida murche quando não estás aqui. Em tudo isso, há você. Na tua ausência, há você. Na tua lonjura, há você. Na tua quietude, há você. Então, vem. Meus instintos precisam de ti. Minha fome tem fome de ti. Meus segredos sussurram por ti. Meus demônios arranham-me as virtudes por ti.
Vem, mulher que dança anjos amotinados. Vem, mulher das costas de pássaros noturnos. Vem, mulher que brinca de destino no piscar dos pirilampos. Vem! A ti e só a ti, entrego a minha essência e os meus fluidos; meus ossos e os meus desenhos de menino sujo de tinta [esquilo] A ti, meu único e louco amor.

segunda-feira, outubro 10, 2005


Um nódulo de angústia pontuado pelo tic-tac dum relógio que não conseguimos ver – amor e restos humanos [somos patéticos ao procurarmos por um alguém que nos preencha o vazio] Lúcidos ou não, seguir vivos nos importa, e a simples visão do fracasso nos entope de preces – o fervor dos que rastejam de pé [somos insetos aprisionados em volta de deus] A dor incontida escarra esperança nas calçadas abarrotadas de gente apressada – a redenção asquerosa dos que acreditam até o fim [a carne rasgada cicatriza só para ser eviscerada mais adiante]

sexta-feira, outubro 07, 2005


Um quarto no fim do corredor,
uma réstia de saudade no corpo da memória

Minha mãe e um sonho
Minha mãe e a dor
Minha mãe e a perda
Minha mãe, morta.

Um quarto no fim do corredor,
uma única chance que não houve

Minha mãe em algum dia
Minha mãe em algum instante
Minha mãe em algum lugar
Minha mãe, viva

Um quarto no fim do corredor
Um quarto com cheiro de eterno
Um quarto guardando imagens
Um quarto sobrevivendo intocado
Um quarto apartado do medo
E acolhido ternamente
Pelos girassóis
Que me renascem na alma

quarta-feira, outubro 05, 2005


Amanhece teus sonhos, faz silêncio e guarda contigo todos os teus amanhãs – saberás quando tê-los. Escreve em letras escarlates o teu céu com nuvens de algodão. Segue teus passos errantes feitos de orvalho e sombras – teus caminhos são só teus como são os cavalos-marinhos desse oceano que tuas mãos de pássaros semeando vida abraçam em fúria bretoniana. Vem! A ti pertencem as primaveras. É teu todo porvir dos sorrisos de nanquim inscritos na fragilidade de ser feliz. Eternamente feliz.

terça-feira, outubro 04, 2005


a acácia no centro do jardim, a fôrma de bolo preste a ser lambida com os dedos, a lua acordando os pirilampos, meu pai assobiando ao chegar do trabalho, meu irmão e eu brincando de forte-apache, minha mãe sorrindo ao nos contar estórias, o chão do quintal colorido pelas flores do jambeiro, a falta de luz de quase toda noite trazendo pra gente os bichinhos feitos de sombras e mãos – nada está aqui, tudo parece imenso no vazio das cores desfeitas [o tempo que não devia, mas passou depressa e nos levou o infinito]

domingo, outubro 02, 2005


setembro, as cores murmurando flores [amarelas quando crescem por dentro das manhãs. brancas se as nuvens passeiam nos olhos. vermelhas com o suor das brincadeiras de rua. cinzas, quando você partiu. azuis, no meu peito vago - flores azuis do azul da solidão]

quinta-feira, setembro 29, 2005



Pela boca, setembro escapando de mim – as cores da primavera recolhem sobras do destino como se fossem velhas carpideiras sem lágrimas pra chorar. Há dor em demasia aqui, e as paredes do meu quarto já não conseguem isolar o que sinto do que inventei para sobreviver anulado [a infância descalcificada em meus ossos olha direto nos olhos da dormência e some] Meus instantes silentes são pequenos deslizes de humanidade dentro deste coração esvaziado por trinta e oito anos da mais absoluta frieza[as tormentas que obstruí, as alegrias que abortei, todas, cobram seu preço agora]

terça-feira, setembro 27, 2005


Há na vida da gente um lugar empoeirado, quase de todo esquecido, quase tingido de medo – um lugar azul da cor do azul que habita a solidão. Lugar lá dentro, bem dentro do silêncio e da crueza incompreendida de toda dor que dói desalmada, que dói encorpada, que dói como dor nenhuma quisera doer – essa cadência insustentável do que chamamos amor. Lugar nenhum, lugar secreto, lugar quieto, lugar deserto com um quê de inocência – onde assombração nos faz dormir assustados dum susto carinhoso que só avó sabe contar. Um canto de nada, preso entre as vísceras e a alma, entre os olhos e as pálpebras – um canto suave onde estrelas cadentes encontram os pedidos e devolvem o brilho que nós um dia de tão tristonhos que somos esquecemos de fazer ninar. Um canto mateiro onde rios desaguamos e mãe d’água entoa o que encanta pirilampos e faz noite enluarada com gosto de vento e de balanço de rede mansinha chegar. Um pedacinho de mundo onde criança fazemos desse adulto que inventaram nos ossos da gente alguém diferente capaz de mudar com um gesto pequeno, mas bem pequenino, essa vida capenga, doída e fingida pr’um mundo gigante, maior do que dantes – secreta magia de noite e de dia escrita em canção, vivida em poesia. Lugar invisível aflorado na pele, trançado no tempo – na eternidade do que já foi, na permanência do que está, na sensação do que virá – conjugação imprecisa do que nos alimenta os sonhos, do que nos purifica a lucidez, do que nos devolve a loucura, do que nos entrega aos domingos, aos doces domingos e seus bancos de praça, balões coloridos, pipoca quentinha e cachorros latindo de tanto brincar. Há na vida da gente um lugar sem nome, que não tem endereço ou vocação pra terminar, fazendo da gente gestação de centelhas, jardineiros secretos do jardim de girassóis que celebram auroras no amarelo dos dias que só um pintor soube pintar - lugar que nos faz de novo meninos, de novo euforia, de novo sorrisos com gosto de lar. Há na vida da gente um lugar sem fronteiras, lugar sem entrada, muito menos saída. Há nessa vida da gente um lugar encantado que nos faz sonhadores, loucos, loucos anjos sem céu algum pra guardar.

sexta-feira, setembro 23, 2005

A madrugada chega sob a forma patética d’um bufão perdido no tempo – a proximidade do sono é indício de mais um amanhecer que aparenta não saber raiar [existe um sopro inalcançável de solidão nisso tudo, eu sinto] Novamente o sabor da escrita inacabada mastiga o esqueleto da esperança – as cores das palavras estão borradas como se fossem cicatrizes num corpo mendigo a dormir na calçada sob a indiferença calcificada d’outra primavera entulhada por flores póstumas e domingos sem circo. Colo página sobre página, retiro os quadros da sala, desocupo as paredes do quarto, espalho livros pelo chão, empilho as promessas que um dia jurei, catalogo as mentiras que me faltam acreditar, escuto mais uma canção do neil young e derrotado já não consigo esquecer que teus olhos não estiveram aqui.

quarta-feira, setembro 14, 2005


continuo escutando a exatidão das coisas que não foram. exatidão cianótica, feita de golpes secos sobre meus ossos[traumatismos da minh’alma] sei que não tive como lhe dizer adeus e nem mesmo lembro do último instante da sua presença – quando cheguei em casa, ainda criança, o quarto tinha o peso do silêncio a velar memórias. a vida se dá em instantes. a morte é-nos servida em pedaços. a vida encontra-se na morte. a morte digere a vida. a vida remonta sobras. a morte desfaz caminhos. a vida suspira. a morte, jamais.

domingo, setembro 11, 2005

A solidão fica escondida nas conchinhas que vez por outra encontramos numa praia qualquer [remoendo por dentro, junto ao som do mar e ao cheiro do vento, nunca desistindo de nós] Fica nas manhãs que encontram meus olhos a procurar os teus – um desencontro composto de peças já encaixadas, rigidamente acomodadas junto ao sol. A solidão escapa-nos quando o silêncio cresce comprimindo as vértebras, deixando-nos abandonados feito zelador d’um carrossel que não gira, faroleiro numa madrugada sem tempestade, um velho espelho partido com imagem alguma pra respirar.

quinta-feira, setembro 08, 2005


Abafado por dentro, tenho tempo, tenho ódio, tenho pecados, tenho escoriações pela alma e letras escolhidas a esmo. Há dedos arranhando o silêncio – as vértebras são gravetos partidos no quintal [terra preta, jambos espalhados pelo chão e lagartas verdes comendo as folhas da cidreira] Onde estão meus amigos?[cresceram feito câncer, amaram feito loucos, secaram feito rios, adormeceram antes das estrelas cadentes passarem] Onde está o rosto desse teu deus que minha fé cambaleante não consegue acreditar? Onde moram as preces das velhas beatas e o choro das carpideiras? Onde escondo meus medos de menino querendo o colo da mãe, sem ter mãe pra me fazer ninar?

domingo, setembro 04, 2005


O tempo ficou preso na foto. Já não há mais por onde circular. É-me impossível tocá-lo, sabê-lo, trazê-lo junto à chuva que escreveu poesia na grama, nos coretos, nos pássaros, na minha alma que nem havia nascido. Os sorrisos, as brincadeiras, as roupas dos passeios dominicais pela praça, as bonecas que ganhavam centelhas nas mãos daquelas meninas – pequenas irmãs que no olhar trouxeram sementes de sonhos [os girassóis que verdejariam meus dias, minha vida parida em azul – minhas letras desafogando o horizonte]

quinta-feira, setembro 01, 2005


Crescíamos com o sol, com a lua. Crescíamos com as estrelas cadentes que juntávamos. Nossas manhãs semeavam samambaias e ninhos de passarinhos – tínhamos cores que desaguavam como rios nas margens dos papéis sem pauta [a chuva desenhada na alma] Por todas as tardes éramos muitos, éramos juntos, éramos sons – de sorrisos e brincadeiras, de frutas roubadas nos quintais vizinhos e vidraças quebradas por chutes mal calculados. Tínhamos nos olhos a quietude secreta da noite e seus bichinhos feitos de sombra – teatro sem texto, o mundo riscado em giz. Fugíamos das horas que sempre avançavam, como se soubéssemos um dia o peso do tempo vir nos desacelerar, acamar, docilizar, fazer acreditar na vida de gente grande [aquilo de pessoas opacas com cheiro de medo e indisfarçável sensatez] – mesmo assim, não havia tristeza, era como se tudo fosse uma infinita corrida buscando pirilampos no horizonte distante, um carrossel que jamais iria parar. Dói muito saber que tudo ficou estacionado num lugar que não podemos mais alcançar. Vento que sopra memórias pra longe. Assombro que sepulta os girassóis que virão.

terça-feira, agosto 30, 2005


A luz que me escapa nos olhos dos outros, transforma o velho porão em poesia com gosto de manhã crescendo na rapidez das brincadeiras de rua [corações acelerados, olhos arregalados, corpos suados de suor de moleque, sorrisos sorrindo cores e abraçando o mundo todo – o nosso mundo, o mundo que a gente criou] No meu silêncio obtuso de homem assolado por imagens e sons, o pouco tempo que me resta eu invento – bolas de sabão eternizando o sol da minha infância.

quinta-feira, agosto 25, 2005


A cor das nuvens misturando sons e formas dentro dos olhos do menino. Crescia o sorriso a cada gota de chuva que descia pelos telhados das velhas casas portuguesas [ao tocarem o chão, marcando a terra, logo viravam rios – lembranças de quando costumava mudar o curso da chuva, havia sempre um jeito de desaguar no mar] Nas tardes, árvores e ninhos de pássaros acolhiam todos os medos [virar gente grande e triste, esquecer as brincadeiras no fundo do quintal] Era aí que o calor de mãe se fazia mais intenso e, outra vez, mergulhado em fantasia, o menino sorria. Ouve o murmúrio das folhas caídas. Ouve a candura das cigarras poentes. Pequenos toques feitos de nunca mais. Quanto tempo, quanto tempo faz? Houve um dia, o menino. Memórias escritas em azul. Sob a pele, os nervos desnudando a solidão.

terça-feira, agosto 23, 2005


Escolho as palavras, as frestas a serem invadidas pelo sol [desperto poesia na mudez dos amanheceres azuis] Precipito meus desatinos, acometo-me de solidão, tristeza e sede [entrego às lembranças um breve traço de nanquim]

sábado, agosto 20, 2005


Este silêncio é feito de vozes angustiadas e débeis e já não sabe mais a hora de calar. Cinza, rasteja pelo chão pensando ser deus. Azul, devolve cegamente amanhãs de rancor e carrosséis abandonados. Púrpura, retalha a força de seguir além. Branco, inventa um lugar seguro no seio do medo. Vermelho, desjejua meus segredos - interrompe por um segundo o ciclo da dor.

sexta-feira, agosto 19, 2005


É preciso ter o peso da partida escrito nos ossos. A leveza das telhas quando chuva desenha infância. É preciso adormecer os sonhos quando a noite se faz escura demais e o dia parece bolas de sabão sem menino pra soprar. É preciso destelhar os medos, abrir o velho baú de brinquedos, cantar cirandas, pintar poesias, é preciso respirar – tudo pode ser verdejante, mesmo que ensimesmado.

quinta-feira, agosto 18, 2005


Aumentando, os abismos trazem horizontes. O sol. A lua. Estrelas amontoadas e terrenos baldios [tudo centrado no medo de estacionar, ficar perdido nas margens do nada] Meus delírios amanhecem antes do canto dos galos. Minha infância resiste na fluidez das retinas. No espaço entre as palavras que pinto, perco-me em mim mesmo. Quando a lucidez descer escada abaixo, quem estará de pé diante da porta? Quem dirá boa-noite aos filhos que terei? Desobstruirei as imagens tecidas em poesia. Dos meus ossos ressurgirei o destino. Teus olhos castanhos de chuva me pertencerão.

quarta-feira, agosto 17, 2005


Ramifica o azul, expande como se fossem veias [a saúde deste corpo está suspensa, homem combalido asfixiando memórias] No eixo da indigência esmiuçada a presença divina escarra anjos, prontamente aceitos – a salvação. Existe esperança quando a dor é vista do lado de lá.

sexta-feira, agosto 12, 2005


Existe um desespero próprio às palavras enervadas na alma quando vestidas de azul. A distância pinça imagens que nossas retinas teimam em recordar [é a eternidade incompleta dos caminhos espessos] Aí, como aqui, somos crianças cercadas de brinquedos, de cirandas e de sonhos – sorrindo nossos dentes de lua, inventávamos tardes de sol e de chuva que um dia acabaram por envelhecer, tristes e vazias feito conchinhas roubadas do mar.

quinta-feira, agosto 11, 2005


Felicidade se esparrama fora de mim [nas velhinhas conversando defronte das casas, nas saúvas enfileiradas carregando folhas verdes, nos brinquedos de miriti nas mãos dos meninos ribeirinhos, na chuva das quatro horas de Belém do Pará] Felicidade enraizada no rumor de aves na tarde que finda. No livro escrito por letras azuis. Nos paralelepípedos que sobrevivem ao tempo. Felicidade sustentada por um único instante da memória que persiste – delicado suspiro que insisto em prolongar.

quarta-feira, agosto 10, 2005


Mesmo de longe eu saberia das palavras escritas pelos teus dedos de olhos que enxergam as cores escondidas sob a tarde fria dum frio que na minha cidade jamais chegará. Escreves imagens que não sei. Celebras amores que não vivi. Sorris uma alegria que me é estranha – o azul do meu chapéu está marcado no teu céu com cara de passeio dominical. A mim alimentam tuas sobras, aquilo que sobrevive aos teus delírios num frenético balé de mãos cicatrizando estrelas-do-mar. Desfeito o nódulo, expurgado o medo, aberto o peito aos girassóis, lembra: Quando a madrugada vier cobrar o preço, serei eu a estar lá.

terça-feira, agosto 09, 2005


Maldita felicidade que me invadiu, roubando a solidão que me alimentava – as cores do vazio estão ocupadas, as dores das madrugadas estão saradas, o peso do abandono está esquecido [frágil estado de permanência – poucas linhas respirando amanhãs]

sábado, agosto 06, 2005


Somos instantes, pequenos momentos esticados entre o amanhecer e mergulhos azuis dentro do rio. Crianças. Espantalhos. Sonhos incompletos debatendo-se nos precipícios dos sentidos – loucas almas solitárias no meio de tantas mais. Somos frágeis, temerários pintores de palavras desprovidos de calma e sensatez. Desertos. Fantasmas. Rastro interrompido vomitando fé e devoção no próprio umbigo – risíveis arremedos agarrados a si próprios com medo do sono e do frio.

terça-feira, agosto 02, 2005


As palavras surgem, caem uma a uma como gotas sobre o telhado, desenhando a circunstância de um certo tempo, o sossego de um certo lugar. Mediadoras de sílabas, sons, sofrimento e sobras, salvam minha sanidade e devolvem-me o sabor do sol – meus músculos vencem a resistência e, pela fresta de um sonho desgarrado, anuncio que o próximo poema está morto [faltou-me descrer no que vi; tudo que não se vê transparece magia] Uma canção do Neil Young, o grito-carne da alma do Artaud, girassóis devorando espantalhos, esperma, vícios, dignidade e devassidão. Estou diante do que escrevo e as imagens continuam arremessando frases naquilo que vejo. Na linha de fuga dos pássaros noturnos, sou meu próprio deus com medo de ser infinito. Agarrado ao epitáfio do homem- de- palha , mergulhado no vazio que cresce por dentro, eu evoco meus demônios mas eles já não podem escutar.

segunda-feira, agosto 01, 2005


Aponta ao céu [tuas mãos selecionam imagens, anjo faminto por vozes e preces] Aprisiona o tempo na finitude dos homens, tolos homens que acreditam em sombras. Na tua boca a tarde avermelhada desaparece lentamente, deixando a lua aos pássaros que em ti fazem ninho[tens o pesar das palavras mortas repousadas nas cavidades dos teus olhos sem cor] A dor fecha-se no azul, é preciso partir antes das auroras. A contusão lembra-te da queda. Quando a chuva tocar tuas asas, abraça meus temores, deixa-me quieto e nutre a minha cegueira – as estrelas por dentro são escuras, escuras demais.

sábado, julho 30, 2005


Dói. Destrói. Amputa. Desesperança o horizonte. Estrangula a canção antes que a alma possa saber. O inferno, a derrota, a inquietude de ser um bosta entre todos os demais. Esmigalha o coração feito hóstia nas mãos de um padre manchado de culpa. Revira o que possui feito maltrapilho fudido e morto de abandono a fartar-se de lixo [míseros vestígios desse amor cianótico] Há uma rua estreita em algum lugar da memória – o cheiro da chuva colorirá a dor que fica. Há um terno de estrelas morrendo no ontem por vir – serão cadentes, é preciso alimentar os sonhos até lá. Apaga teus olhos dos meus. Retira teus pulsos das minhas veias. Desfaz as linhas que nas minhas mãos você semeou. Somos cicatrizes umedecias. As palavras que me tomam não andam nas tuas ruas – as tempestades que me lavam feito anjo cego nunca te alcançarão. Já é tarde demais, nosso passado tornou-se maior que o futuro. Quando respiramos, num único suspiro foge-nos o ar.

quinta-feira, julho 28, 2005


Debruça-te sobre as palavras, sente. As paredes estão cegas, um espaço restrito à agonia e ao pesar. Esmiúça o olhar dos outros, seus sonhos estão recolhidos – são restos do que um dia amanhecera azul. No canto da sala, soluços e orações balbuciadas sabe-se lá se com fé ou medo do que não sabem[exatamente o quê nos espera do lado de lá?] Escuta. Existem ruídos vindo dos ossos, as articulações acusam a idade – só as almas estão sólidas, incompreendidas que são. Há flores com cheiro de vazio. Há um peso insustentável turvando as lembranças. Imóvel para todo o sempre, sela com um beijo tudo aquilo que vai ficar – vê-la pela última vez na irredutibilidade das retinas é saber que não nos pertence a eternidade. [Só os anjos sabem mentir] Guarda contigo esse último instante e deixa-te encravado nas entranhas da terra - mais lúcido que as auroras de amanhã, mais descrente que um espantalho arrancado da plantação. .

quarta-feira, julho 27, 2005


As fotos não revelam o que ficou- é a fuga das cores numa dança solitária. O olho sequer percebe quando as sombras mudam a forma - os limites que engolem a luz. Invadidos, os sentidos recortam uma porta no meio da parede – e, como num desenho animado, tudo passa a ser o que virá.

terça-feira, julho 26, 2005

Morre! Que em mim não pode haver esperança. Cala! Que em mim amanhecem ouvidos de chuva e eu não sei como desaguar. Onde quer que eu me reconheça, apaga tuas marcas de mim – eu não tenho mais gavetas pra esvaziar memórias [a incoerência dos girassóis como companhia]

quinta-feira, julho 21, 2005


Vida, a interrupção do azul – anguloso deslize inundando as veias [um rasgo na colcha- de- retalhos que de noite sinaliza teu canto seguro] Medo arranhando os olhos. Murmúrios insistindo na esperança. Um velho quadro, numa velha parede e a pertinência de estar isolado dentro da própria carne, nua carne – fosse deus e celebrava beleza e gozo. Fosse deus e anunciava fracasso e dor. O silêncio, invade-me o silêncio com seus dedos de incômodo peso. A quietude é quase um sonho – em pedaços, escapa-me lentamente.

quarta-feira, julho 20, 2005


As louças recém lavadas. As quinquilharias que compramos sem saber onde colocar. Os quadros e as canções que nos delineavam em nossa ausência – tudo quieto, sem um movimento qualquer. Os sapatos nos olham pedindo tropeços, atropelos, bares, fumaça e álcool [mas, estacionamos] Nossos ossos rangem como camas velhas e desusadas. A apatia escava nossa essência devorando-nos a medula. Escapamos da vida quando abraçamos a tranqüilidade – dias certos, horas precisas, sentimentos empacotados feito maçãs importadas vestidas num azul tosco e barato. Quando chove, nos abrigamos no quarto. Ontem, brincaríamos de eternidade.

segunda-feira, julho 18, 2005

Diante do marasmo, antevejo meus dias idos - o calor dissipando-se pelas frestas que de meus livros empoeirados ressurgem [anoto um endereço qualquer. Serei destinatário de mim mesmo nesta indelicada celebração às avessas] Meus sapatos estão sujos de receio e finitude. Da minha boca escapam orações carcomidas pelo desprezo – malditas! nelas um dia acreditei. [O céu permite devaneios e quedas] O silêncio da lua ressoa nas vértebras. A ausência de ti escalona a solitude. Uma a uma e desordenadamente, estrelas cadentes, mariposas, visagens e cantigas perdem a gravidade...ficam expostas feito mendigos imundos de futuro e cães morrendo de frio.

sexta-feira, julho 15, 2005


Liquefaço-me [se a fluidez do rio me é impossível, sigo na minha reticência de homem só] Eu trago nas margens os horizontes que em ti escondias. O lodo dos meus pequenos devaneios, a cartilagem da lucidez. Atravesso meus dias conversando baixinho com o resto de luz que a tua partida congelou como se fosse aurora sufocada entre os girassóis. Eu não saberia devorar o abismo dos teus olhos. Eu não suportaria a leveza da tua indiferença. Na contramão do destino, fosse eu poeta e escreveria um fim que não empalidecesse jamais. Escaparia de te perder pra mudez do frio. O mínimo espaçamento entre desistir e seguir derrotado. Diante das imagens soltas que não consigo colar, que faço eu do teu ressoar vazio no centro de doces memórias?

domingo, julho 10, 2005


Quis escrever poesia, e vieram imagens. Quis alcançar sons, e resvalou delírios. Sentiu a presença de quem nunca havia esquecido, mesmo estando tão distante[como se nada mais importasse que não estar ali, sentindo] As fotos revelaram um misto de infância e futuro bretoniano – as cores projetavam-se sobre suas pupilas, desenhando bizarrices e leveza[tão leve que o céu era pouco] Encantado, foi num sorriso que descobriu – A menina linda engoliu o sol!!

sábado, julho 09, 2005

Superficialidade sob a forma de palavras recorrentes, num ir e vir previsível [Auroras e girassóis. Dor e lamentos. Quartos vazios e desesperança. Azul e solidão] Se traço meu horizonte encorpando rascunhos é porque me falta a precisão dos desalmados. A mim não coube a lucidez dos portos desabitados, nem a esplendorosa fragilidade do canto das cigarras. Quando as estrelas rasgam a noite em dois, lembro das sombras que desenhavam bichinhos na parede da minha infância – eu não sei mais como ser assim, simples. Estou diante do medo que me paralisa [esqueci as preces antes mesmo de aprende-las] Na sarjeta dos meus vícios, escrevo teu nome pra batizar minha alma insone e embriagada – num compasso esquizóide reinvento as profecias dum anjo louco qualquer.
Preciso de imagens que me sejam novas. Nada de silêncio ou madrugadas, quartos vazios, dor, demência e correção. Já não me nutre o azul das manhãs de domingo, tampouco o medo da vida estampado nos jornais. O amor comeu minha identidade. Vomitou minhas esperanças. Travou minhas palavras. O amor roubou a solidão de mim mesmo. Fez-me poesia sem margem. O amor inundou minhas entranhas e partiu antes que fosse possível desamar.

sábado, julho 02, 2005

Desperdício sob a forma de palavras recorrentes, num ir e vir previsível [Auroras e girassóis. Dor e lamentos. Quartos vazios e desesperança. Azul e solidão] Se traço meu horizonte encorpando rascunhos, é porque me falta a precisão dos desalmados. A mim não coube a lucidez dos portos desabitados, nem a esplendorosa fragilidade do canto das cigarras. Quando as estrelas rasgam a noite em dois, lembro das sombras que desenhavam bichinhos na parede da minha infância – eu não sei mais como ser assim, simples. Estou diante do medo que me paralisa [esqueci as preces antes mesmo de aprende-las] Na sarjeta dos meus vícios, escrevo teu nome pra batizar minha alma insone e embriagada – num compasso esquizóide reinvento as profecias dum anjo louco qualquer.

quarta-feira, junho 29, 2005

Estranhos sentimentos delimitam tuas palavras escritas em sangue– carcaça fincada na superfície da indolência. Um passo desritmado e você já não mais ocupa o centro do universo – são os olhares do medo escrevendo destinos banguelas. Há rispidez nas rimas. Há amor excedendo a conta. Há páginas amarelecidas implorando presença. Há sons. Há meios. Há um quadro pendurado na parede do meu quarto, esbanjando lucidez. Há desistência na fuga. Há senilidade na paixão. Há veias entupidas, músculos destonificados, roupas desabitadas e o cheiro de tudo guardado na memória. Dói fundo a perda do que não mais posso sentir. Há luz demais neste fim de tarde agonizando vertigens.

quarta-feira, maio 18, 2005

Creio nas manhãs quando meu corpo adoece – o toque do orvalho sobre a pele ganha em cores e sombreamento [desfaz a plenitude da razão sempre que relâmpagos brotam dos teus dedos anunciando chuva] Creio nas manhãs quando acordo sozinho – os travesseiros espalhados pela cama espaçosa demais hiperdimensionam a solidão [delimitam a agonia de estar impotente diante de imagens desgastadas pelo tempo] Creio nas manhãs quando o mais sensato é desistir de tudo e aprender a sorrir.

sexta-feira, maio 13, 2005

Acreditei na textura do nanquim – no sol, nos jardins, na dor diluída entre as cores pintadas nas telas do meu sonho. Por todas as manhãs fui devorado – minha carne guardando memórias, minhas vértebras estalando segredos. Chuva. Chuva levada embora pelas margens estreitas do rio.

quarta-feira, maio 11, 2005

Os sonhos que sonhas, os conheço – das minhas mãos subtraio as linhas do tempo. Os sons que te despertam, eu os tenho – meus olhos guardam horizontes e papoulas, são fragmentos ainda não manchados. Os passos da tua decadência, por todos já tropecei - as madrugadas são finitas [precisamos devorá-las] ficar juntos mais uma vez, antes que cheguem as luzes, trazendo consigo os girassóis.

terça-feira, maio 10, 2005

Sozinhos estamos, mas o maldito silêncio conosco – a resistência dos corpos declina, o peso das palavras comprime o peito, a exigüidade do tempo desespera os amantes, e essa chuva que não chega...essa chuva que não chega...essa chuva... [A mortalha é azul – outro azul, não o da solidão]
Só queria a calma de uma tarde fria, vazia – sem dor, sem medo, sem sufoco, sem as marcas da perda afloradas na alma. [Cacos de sonhos. Esperança solúvel. Um par de corpos perdidos em memórias.]

quarta-feira, maio 04, 2005

Frio. Minhas entranhas vão sendo invadidas por dedos magricelos e envelhecidos. Das paredes, caem retratos esquecidos, atados ao tempo por intervalos anêmicos – os ossos guardam segredos, a alma estabelece limites, a dor estanca horizontes, o azul ecoa a perda [tudo que não está presente e se recusa a partir]. No ciclo marcado pelo soluçar com cheiro de quarto vazio, estão as memórias enfileiradas e postas sobre a mesa de jantar – não há talheres nesse banquete feito para um homem só, nem sobras ou esperança capazes de nutrir o amanhecer que decai envolvido por uma calma secular

terça-feira, maio 03, 2005

Devolve-me as lágrimas. Preciso da dor. Do peso. Do azul que silencia a solidão – os olhos estacionados num ponto mínimo qualquer. Dá-me a frieza dos cômodos vazios. O sufoco esmiuçando as feridas da alma – nos músculos, na pele, a meticulosidade do tempo tecendo desespero. [A felicidade é um estado insuportável.]

segunda-feira, abril 18, 2005


Você não tem uma palavra que sele meus sonhos e me faça adormecer quando a madrugada trouxer a solidão? Nunca soube do sol as trilhas que partem pra lugar algum – feito de silêncio e grama com cheiro de infância. Você não virá dizer que conhece a saída pra dor que esfacela as reminiscências do azul feito de restos? Nunca descobriu os segredos que a chuva trazia todas as tardes em Belém do Pará – sentiu que era inútil prosseguir, as feridas estavam cauterizadas e havia sombras onde houvera paixão.

sábado, abril 16, 2005

Hoje,a manhã pareceu-me distante e acordei vestindo lucidez – minha pele coberta de traças,as páginas da minh’alma apagadas e sem cor. Antes de saber a verdade abandonada no vazio que explode no centro das estrelas ao tocarem o sol, eclipse abraçou meus temores – dados lançados sobre teu corpo nu, a fome devastadora vomitando serenas paisagens e anjos anêmicos. Hoje, esvaziei as gavetas e recobrei a posse dos meus míseros sentidos - as palavras mofadas pelo esquecimento atroz, as linhas do amanhã incertas e sabedoras da dor. Antes de ser invadido pelas circunstâncias do entardecer borrado de luzes e sombras misturadas aos olhos castanhos e tristes, o silêncio sangrou meus rancores – o palhaço escapou ao domingo, a miséria incrustada na alma órfã de ti a desenhar girassóis no jardim que nunca tive.

quinta-feira, abril 14, 2005

Quis prolongar a tarde – mas o sol resistiu e as lembranças escoaram vala abaixo. Adiante, a lua drakeniana sustentava-se sobre xícaras e palhaços tristonhos – equilíbrio desesperado, falta-lhe ar sempre que uma estrela envelhece. Medulares, as vozes eram vistas mesmo quando o frio alojava-se nas dobras cutâneas [ruminando os sonhos, todos eles, a dor parecia diminuir – esse era o plano escrito em letras intempestivas] O movimento dos olhos indicava lucidez. Os insetos girando em torno da luz, normalidade. A apatia encerrava a moldura – compressas de gaze sobre o amor em abundância. Contados nos dedos, os dias passam mais lentos e as noites são arremedos esquizóides.
Quem saberia ninar os sonhos que no quarto vazio ainda respiram esperança? Quem poderia, no meio das cinzas, arrancar chuva, besouros e sorrisos de ciranda? Das vísceras, a alma desnuda e febril? Por quantas manhãs mais arrastar-se-ão as débeis condolências que circundam este fantoche com olhos opacos e boca cheia de naftalina? Há uma linha de fuga inscrita no epitélio do pesar – carrossel sem crianças, sozinho, a rodar.

terça-feira, abril 12, 2005

Preso na tormenta do azul, o silêncio aprofunda a perda – quarto mofado, as sobras do teu horizonte descamando ao luar. Há um leve amargor engasgado nas palavras desse adeus. Um respingo de felicidade mancha o destino de um só – o azul atormenta quando há silêncio corroendo as paredes do coração [paisagem baldia, amor adoecido, beleza agonizante, mãos envelhecidas agarrando promessas]

segunda-feira, abril 11, 2005

Quatro madrugadas sem conseguir escrever – a dor parece estancada [meus sentidos estão amarelecidos] Busco imagens recorrentes – tenho um baú escondido sob a pele [preciso sobreviver em silêncio e desapercebido] Incinero memórias – a fumaça sobe sem rumo e me faz tossir toda esperança [incomoda saber a vermelhidão das tardes que sobrevivem] Escolho o tempo exato – despedaço as sobras da alma [camufladas, as derrotas apodrecem numa lentidão exemplar]

terça-feira, abril 05, 2005

Respirava vida sempre que as mãos arrancavam das páginas, poesia – assim, a solidão ficava menos doída. Acompanhava com os olhos cada movimento das pessoas lá fora – todas, sempre acompanhadas de objetos [carros, livros, liquidificadores e sonhos] A pele caída sob o queixo, os tufos de pêlos no ouvido, a calvície desesperadora – em certos momentos, desistir soava a coisa mais sensata a ser feita. Foi absorvido pela eletricidade gestada no centro da tempestade, que descobri – sobrevive num mínimo espaço dentro do peito, o menino que desenha esperança e rouba a eternidade da dor.

segunda-feira, abril 04, 2005

A cor do vazio. Precisava de uma resposta imediata – a noite escrevia cartas sem endereço e as estrelas pareciam desavisadas. Azul, pensou – mas azul é por demais incompleto [faltaria algo, alguma coisa com gosto de perda] Seria cinza, não fosse pelas sobras dos amores que nas retinas cristalizaram. Branco! Bem perto seria branco – porém, o vazio precisa de distância pra ser intransponível. Carmesim. Ocre – cores estranhas demais pra serem vazias. Roxo, roxo é a cor do abandono, e abandono nada tem de vazio. Verde, verde é cor que cicatriza – não tenho notícia de vazio cicatrizado. Será preciso saber uma cor muda. Amarga. Inquieta. Etérea. Uma cor capaz de sangrar. Uma cor fudida. Uma cor que arraste a dor de todo instante – que adormeça teus olhos castanhos bem longe de mim.

sexta-feira, abril 01, 2005

A cor do vazio. Precisava de uma resposta imediata – a noite escrevia cartas sem endereço e as estrelas pareciam desavisadas. Azul, pensou – mas azul é por demais incompleto [faltaria algo, alguma coisa com gosto de perda] Seria cinza, não fosse pelas sobras dos amores que nas retinas cristalizaram. Branco! Bem perto seria branco – porém, o vazio precisa de distância pra ser intransponível. Carmesim. Ocre – cores estranhas demais pra serem vazias. Roxo, roxo é a cor do abandono, e abandono nada tem de vazio. Verde, verde é cor que cicatriza – não tenho notícia de vazio cicatrizado. Será preciso saber uma cor muda. Amarga. Inquieta. Etérea. Uma cor capaz de sangrar. Uma cor fudida. Uma cor que arraste a dor de todo instante – que adormeça teus olhos castanhos bem longe de mim.
Irrompe o teu sorriso, um salto improvisado em pleno ar. Sabes as delícias de ser etérea e os deleites da carne feita poesia. És quem dança. És quem sonha. És quem invade meus segredos solitários e esperançosos. Respira o que respiro, eu preciso. Acolhe o que me falta, eu celebro. Rascunha sobre meu corpo um devir feito de nanquim – não peço margens ou fronteiras, quero contigo ir sempre além. Dá-me teu sorriso de manhãs azuladas e de chuvas que trazem a tarde – feito noites onde estrelas cadentes encontram enfim o luar.

quinta-feira, março 31, 2005

O som da chuva despertando saudade, armando pequenas ciladas que afagam as memórias há muito guardadas nas caixas de papelão [é a carne retomando seu lugar, a insanidade num repente absolutista.] Por todas as minúcias desta tarde que finda, seguirei sem medo. Posto a vida e lanço os dados - o acaso certifica minha incongruência medrosa, sou assolado pelos dizeres do vento. Crescem em meu peito raízes famintas – quero seiva e perdição. Este lugar não me pertence – meus deslizes são viscosos, minhas máscaras meticulosas são. Peço calor ao inverno que chega. Preciso de sombras quando sei da imensidão.

terça-feira, março 29, 2005

Percorri a distância entre o quarto e a sala um sem número de vezes, de forma tal que, o tempo entre uma sístole e outra me pareceu diminuir a cada passo – se antes conseguia detalhar cada lembrança aprisionada nas mobílias, agora, encontro-me perdido diante do medo de não diferir aquilo que é vulto do que apenas se sustenta vivo, indócil maltrapilho. Do amor que subsiste em meus nervos, pinço a suavidade das palavras que sabem o segredo das alvoradas bretonianas – o sol rouba seu calor do peito de cada criança que amanhece. Sinto a sanidade inflada nas minhas artérias, achatando o limite da minha insensatez – não escapo à tirania do fracasso [saberei do amargo peso dos sonhos que partem, feito anjos covardes que respiram a candura da noite, mas se retiram antes que tudo possa chegar ao fim]

domingo, março 27, 2005

Ouço, afastado, o sol crescendo nas paredes, ocupando cada fresta, cada espaço antes empalidecido – as regras não permitem fuga [sou um homem qualquer vestido de falsas lembranças, um homem cercado de dor e desesperança] Queria puxar as linhas do meu destino como se fios fossem – livrar minhas mãos de horizontes tão enfadonhos [luares sem pirilampos, calçadas sem crianças a brincar] Mastigo meus delírios num repente de agonia e êxtase – eis o fazedor de imagens desperto quando parecia definhar [meus olhos castanhos,minha boca avermelhada, meus dedos sujos de fé]
E ninguém lembrou do enluarar azulado, que naquela distante cidade cravada no meio da floresta, fez do menino, passado – um eco destinado a não morrer, porém, vazio pra todo o sempre. Nele adormeceram as estrelas cadentes, tornando um sonho qualquer, impossível de sonhar. O que dele hoje sabemos já não mais importa diante dos fatos – as manhãs nasceriam todas, abortadas.

quinta-feira, março 24, 2005

Dança. Que teu corpo alcança o infinito – olhos estendidos sobre nuvens e chuva [a ágil demência das tardes que lambem o luar] Nas tessituras do destino, estamos nós eqüidistantes – feito sons que não ecoam diante do imperativo [o leve torpor dos deuses de si esquecidos] Dança. Que teus sonhos transbordam o que ainda vai ser dito – seios desnudos alimentando de rios, o mar [as mãos tateando linhas afloradas pelo descaso do tempo] Nas margens do amor, estamos nós amotinados – feito cores que não descobrem o que há no fim do arco-íris [os precipícios da carne inescrupulosamente amanhecidos] Dança. Que tuas piruetas inventam outro palco ensandecido – ancas vorazes arrancando do medo, amor [vida que sorri imagens que não cansam de encantar]

quarta-feira, março 16, 2005

Desfaço-me na metrópole cercada de rios. Tenho meus dias contados, num crescente abandono de fé e quedas – meus vôos me levam ao abismo, onde o ar expele cores abafadas e não há lugar para salvação. Minhas poesias são arremedos pretensamente bem articulados [palavras vestidas com uma dor disfarçada – Falsa! Enganosa! Dor feita de mim. Uma dor desnutrida. Dor que demora a sangrar] Estou perto demais da distância que escorre pelas memórias, perto demais [o cheiro dos corpos em êxtase agora é implacável tortura] Amaldiçôo pra todo o sempre o luar que pôs em mim os teus olhos – maldito luar que num repente veio te apagar, deixando um vazio cirúrgico que não me permite amputar as tuas marcas.

terça-feira, março 15, 2005

Quis alcançar o minúsculo– memórias esquecidas debaixo da pele. Aproximei as margens, pus o foco nas entrelinhas, teci um fino fio sobre meus medos – cenas de um dia que por mim passou indiferente [eu, por ele, passei arrastado] Os pesadelos que não viram sonhos. Os sonhos que não cansam de definhar– precisam de pílulas estranhas a injetar-lhes cor. O tempo feito de gotas torturantes. As horas contadas na forma de leitos sem odor. Madrugadas encerradas em si mesmas. A solidão crescendo nas vísceras. As partículas. O ínfimo. Aquilo que não podemos arrancar.

segunda-feira, março 07, 2005

Todas as manhãs que sejam azuis, rejeito – azul cor de nuvens. Felicidade é um estado de estagnação que costuma invadir artérias, trazendo sorrisos que nunca serão eternos – essa mísera ilusão chamada eu e tu. A pele cicatriza depois da alma quando o corte é profundo- eis o passo que falta pra desfazer-me poesia.

sábado, março 05, 2005

Rastejo a lucidez da sexta-feira [infectada alma, alma escorrendo parede abaixo] Colados ao coração, selos sem destinatário – meus dedos digitam outras linhas na palma das mãos [acredito que assim, escape] Docemente, desfazia-se das dormências do desuso – faltou-me pouco para alcançar o gosto do sol. Durmo com estrelas amargando-me a boca.
Mortalha solta na madrugada – as palavras escapam da tua cena. A matéria doente fere teus ouvidos – ruidosa é toda dor, mesmo a que emudece. Teus ossos aos meus inscritos, feito nó que não se desata – vestígios da loucura, eram nossos os sorrisos de chuva. Não morras mais dentro de mim – dá-me teus sonhos pra sonhá-los nanquim.
Ávido por distância – a distância que deixa tudo aparente. A sangria de corpos aquietados – cores espalhadas deixando o quarto atabalhoado de tanto descrer. [o futuro encerrado, quando visto por dentro, parece oco.] Existe uma pureza ríspida nas roupas quando abrigam memórias fúnebres – o cheiro da perda esmiúça a alma e te inclina sobre a morte [uma trilha que aos poucos se apaga, consumida pelo fulgor das chuvas que brotavam pedras na infância.] Fronteiras. Limites. Escrevo imagens que me assolam. Não fujo da complacência desta dor que insiste – março é um mês intranqüilo. Outros meses virão.

quinta-feira, março 03, 2005

Ninguém lembrou das memórias brancas, cilíndricas, afásicas, assolando o coração. Posso descrever cada minúcia dos dias destelhados, dos olhos feitos de névoa – a cidade nunca soube o que era inverno, mas os olhos fingiam. É a acolhida da ebriedade trazendo mentiras e indecisão. Um resto de homem em péssimo estado – nem poeta, nem louco, nem insone [ocorre-me o sol poente – são escassas as minhas auroras.]

sábado, fevereiro 26, 2005

Existe um pesar que me habita. Não tem nome, mas tem cheiro. O teu cheiro. Que pode ser cheiro de reticências ou de chuva – prefiro reticências à chuva quando estou sozinho,mas isto não é apenas uma questão de gosto. Cheiro de página dentro da gaveta. Cheiro de sol lentamente encoberto pela noite. Vida em partículas cristalinas – limpa, limpa demais.
Não existe felicidade possível. Você apenas simula e acredita – e as manhãs parecem azuladas. Finge não sentir o medo do mármore cobrindo os olhos. Quando a noite fica cinza, põe-se a cantar - mas as cantigas de roda ficaram pra trás. Procuras nas entranhas por um sinal de deus, um sinal que te fizesse sentir a presença divina. Nada surge e na medula um eco oco te devolve ao início de tudo – não existe felicidade possível. Repita! Repita! Não existe felicidade possível...não.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Um dia, disse estar exausto. As alvoradas sempre lhe pareciam desertas – nem sons, nem fuligem...nada. Velhas estradas, nada além das mesmas estradas, eis o que lhe resta [enraizar-se na distância já percorrida enfraquece os músculos, rouba o ar e pulveriza os sentidos] Homem construído pela dor e pelo descaso, traz nas mãos um sol que não soube brilhar – só quando sorria[já era nunca quando a última estrela cadente passou – o céu estava calado demais pra saber dos seus horizontes febris]
Dos teus sonhos não lembras, mas sabes serem as mesmas paisagens- num misto de agonia e esperança, as portas estão lacradas. Chove na madrugada e o teu corpo ainda acusa sinais de cansaço – mais um dia como todos, a total ausência de sentido chamada de fé. São pequenos os ruídos que se amontoam pela mobília – podes escrever palavras ou cores, mas nada te fará escapar ao tormento das auroras por nascer.
As fronteiras alargadas pela decadência – as cores me invadem e somem, sem avisar. O medo reside nas virtudes – os ossos testemunham o frio da perda. É preciso ruir quando adormecem os girassóis – e nada, nem o cinza que brota da alma se faz compreender aos olhos nus. Tudo vai sumindo ao mesmo tempo que ocupa cada centímetro da solidão – não deixando nada do que sou, em paz.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Queria apagar qualquer traço que fosse capaz de trazer lembranças. As palavras se mostraram poucas. As cores, frágeis. Os sons só aumentam a saudade [saudade que faz do entardecer abismo]. Restam imagens feitas de cinzas– preciso vomitá-las para ser poesia.
dos olhos às rachaduras das paredes - foram-se os sonhos - quadros envelhecidos - esperança engasgada - a súbita presença da vida - pequena e calada – fria e rígida - feito amor desenterrado.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Na espera arrastada pelo amanhecer, madrugada parece vazada [há um lado azul na solidão, o que mais pesa. O amarelo, não exala cheiro. Rarefeito, o vermelho acelera o pulso.] Não falo do que me amortalha – existe um gosto de quarto abandonado nas cores secundárias.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

esquecido. os jardins sem papoulas. a lua sem noite. o menino sem sonhos. a solidão de ti

sábado, fevereiro 05, 2005

As letras têm cores, sei. Quando tocam as paredes, deserto. Quando alcançam os móveis empoeirados, horizonte. Lambendo o mar, sussurro. Nas fotos sobre a cama, melancolia. Ao sentirem o coração, sonho. No meio da chuva a brincar, encantamento.