quinta-feira, setembro 01, 2005


Crescíamos com o sol, com a lua. Crescíamos com as estrelas cadentes que juntávamos. Nossas manhãs semeavam samambaias e ninhos de passarinhos – tínhamos cores que desaguavam como rios nas margens dos papéis sem pauta [a chuva desenhada na alma] Por todas as tardes éramos muitos, éramos juntos, éramos sons – de sorrisos e brincadeiras, de frutas roubadas nos quintais vizinhos e vidraças quebradas por chutes mal calculados. Tínhamos nos olhos a quietude secreta da noite e seus bichinhos feitos de sombra – teatro sem texto, o mundo riscado em giz. Fugíamos das horas que sempre avançavam, como se soubéssemos um dia o peso do tempo vir nos desacelerar, acamar, docilizar, fazer acreditar na vida de gente grande [aquilo de pessoas opacas com cheiro de medo e indisfarçável sensatez] – mesmo assim, não havia tristeza, era como se tudo fosse uma infinita corrida buscando pirilampos no horizonte distante, um carrossel que jamais iria parar. Dói muito saber que tudo ficou estacionado num lugar que não podemos mais alcançar. Vento que sopra memórias pra longe. Assombro que sepulta os girassóis que virão.

9 comentários:

Fernando Palma disse...

Eu nunfca resisto a um saudosismo de infência.
Eu tento o tempo inteiro não me entregar ao "medo e indisfarsável sensatez". Mesmo sabendo que é inevitável. Um abraço!
Ps: Não era amiga, era apenas sua leitora. Me enganei.

Carlos Besen disse...

"Por todas as tardes éramos muitos, éramos juntos, éramos sons". Ótimo para anoitecer: muitos, juntos, sons. Corpo a corpo somos coro. Um só corpo é cor, o pretume da tua melancolia.

Um grande abraço.

Lucinha Horta disse...
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Lucinha Horta disse...

Já te disse que esse texto vai virar desenho do DiLUA? Seus comentários são pura poesia e eu adoro.

Claudio Eugenio Luz disse...

Meus Deus!, o tempo passa por cima da gente feito um trator. "Fugíamos das horas que sempre avançavam, como se soubéssemos um dia o peso do tempo vir nos desacelerar, acamar, docilizar, fazer acreditar na vida de gente grande" - bela passagem, parabéns

hábraços

Anônimo disse...

... entra a noite, mas o dia ñ esquece: latente, insiste em preencher espaços, e murmura, repetindo-se: - existiu beleza naquelas tardes, sim existiu...

douglas D. disse...

anônimo...

Fernando Rozano disse...

"- tínhamos cores que desaguavam como rios...". hoje, o preto e branco invadem nossos espaços. excelente e sensível texto. abs.

Anônimo disse...

...lembranças são verdades mortas...

beijo.