Sexta-feira, Julho 17, 2009


meus mortos
eu não os entendo...

por que ficam
naquilo que sonho
quando sequer suas vozes
ou um traço qualquer de memória
acalenta-me sempre que deles
sinto o pesar?


meus mortos
eu não os tenho...

porque ficam
entremeados a quem serei
quando percorrem meus caminhos
revisitando meu destino
entregando-me ao ocaso
e à míngua do luar

Quarta-feira, Julho 08, 2009


ao lucas M.



aquarelo histórias em segredo
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
[para que ao envelhecer]
meus filhos possam contá-las

os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
[e eu já não temo mais]
o dia em que morrerei

poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
[para que ao morrer]
meus filhos possam sonhá-las

a crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
[e assim partiremos mundo afora]
nos barquinhos de papel feitos por meu pai

Domingo, Junho 28, 2009


outra noite
aborto ao máximo a chegada do sono
digitando palavras a esmo
[ou simplesmente]
sentando em frente ao monitor

- as costas doem
os olhos pesam...

sem que nada desocupe
a certeza de ser o amor uma coisa vazia
e que teu sorriso aqui e acolá
é desmemória infectada pela dor
.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

fragmento


o céu

já não alcança a encosta do mar

murmurou o ancião dos ombros caídos

ao afastar-se da multidão assombrada

daquela cidade nascida no meio do nada

(veio tempestade

prenúncio de centenas de línguas partidas pelo ódio

e inundadas pela fome das palavras-ruídos

que aos homens desfeitos sob a imagem de anjos

imprimiu a marca irrevogável do medo)

Terça-feira, Junho 02, 2009

um deserto
pouco a pouco
devorando tua ausência
.
onde
nada mais parece existir
.
só o silêncio
.
[o silêncio]

Sexta-feira, Maio 08, 2009

fragmentos de um livro por vir

antes do mar, a chuva
e de cada gota que caía
crianças vestidas de sol

Sexta-feira, Maio 01, 2009

fragmentos de um livro por vir



TOMO I

(AURORA)


a carne
fez o verbo
– signo tempestuoso –
saliva e carvão


.

.

e vieram sombras
[e por dentro das sombras]
restos de luz
tecidos aos pares
impossíveis de sustentar


.

.

dobradura, o tempo
rabiscou eternidade
donde fugiram pirilampos


assim fez-se a primeira aurora
prenhe de céu
tecelã distraída do mar