terça-feira, outubro 25, 2005

O lado mudo da solidão é lúcido, um espaço rígido, pedregulho distante das ondas do mar. O lado mudo da solidão percorre caminhos áridos, é um réptil nos ignorando sob o sol, uma vírgula perdida no corpo do texto, uma prece estraçalhada dentro do peito. Pesado e paciente, registra nossos mínimos movimentos, dia após dia, hora após hora, por todos os meses do ano, por todos os dias que sobrevivemos, somente pra jogar tudo no nosso rosto, no momento certo, no momento agudo e estanque da dor, quando as pálpebras vestem-se de emoções e fecha-se a porta da alma, essa frágil alma encoberta por cinzas [esperamos em vão por alguém, somos pequenas luzes sem sombras, pequenas chamas sem ar, pequenas lembranças sem álbum de fotos] O lado mudo da solidão tem músculos e esqueleto, tem nervos e articulações, veste-se de sobras e rouba-nos as cores vivas das estações. Intransponível, devora nossos anjos quando estes pelas madrugadas arriscam nos acolher, anjos sujos de nanquim, anjos insones e febris, nossos anjos de olhos pálidos – há anjos por toda parte. Irascível, crava seus dedos de nunca na palma do nosso destino e lança os dados, embaralha as cartas, desencaixa as peças, mistura as letras, brinca de ser deus ao brincar de se importar conosco. O lado mudo da solidão é gélido, um sopro de ontem, buraco aberto no centro das pupilas. O lado mudo da solidão nos faz dormir, nos cobre com lençóis macios cheirando a memórias – feito mãe, nos olha por dentro e sabe exatamente onde tocar.

7 comentários:

Carlos Besen disse...

O lado mudo da solidão é escuro justamente quando nos esclarece.

Valéria disse...

pelamordedeus que texto é este!?!! de dilacerar... caramba!

Anônimo disse...

O que mais me surpreende é que você está cada vez melhor... você fala de coisas que me tocam tão profundamente e de um jeito único. De uma maneira que nunca vou conseguir expor. E essa descrição de você mesmo, esse rasgar de alma...é algo assim... esplêndido. Como gostaria de fazer parte do mundo que descreve tão bem, do seu mundo...pois parece muito comigo! Beijo
Lis-DF

hfm disse...

Gostei muito de te ler, particularmente:

"O lado mudo da solidão tem músculos e esqueleto, tem nervos e articulações, veste-se de sobras e rouba-nos as cores vivas das estações."

Fernando Rozano disse...

Douglas, grande texto, belas passagens, como "...nos cobre com lençóis macios cheirando a memórias...". abs.

leila disse...

Constrói abismos e é fácil ser de beiradas de precipício.
Beijo.

Betty Branco Martins disse...

Olá Douglas

Construído com arte - sentidos - sensibilidade de um mundo - de dentro para fora.

Um texto que dá muito que pensar!

Beijinhos