sábado, outubro 15, 2005


Hoje, papai entrou no meu quarto somente para mostrar uma foto antiga. Nela, reconheci a mim mesmo bem menino. Já não lembro do cheiro que tinha aquela época – a chuva mudou desde que cresci, vendemos a casa da minha infância e onde moro agora sequer tem quintal. Toquei a foto. Olhei o rosto do meu pai e dei um sorriso apático, coberto de medo e distância – tolo homem cicatrizado eu sou. Hoje, ao entrar no meu quarto trazendo uma foto antiga, meu pai me fez lembrar que algumas imagens ficaram, pois precisamos de acalentos dentro do vazio da nossa existência – acordar cedo pra ir ao colégio, brincar de bola no meio da rua, salivar só de ver a manteiga derretendo ao ser passada no pão bem quentinho que meu avô acabara de trazer da padaria pra que pudéssemos lanchar, ter que escovar os dentes depois do almoço, beijar minha mãe na testa antes de ir dormir. Hoje, ao não saber expressar ao meu pai tudo o que realmente senti ao ver a foto antiga que ele me mostrava, descobri que algumas imagens sumiram sem dizer adeus – imagens que ampliam o desespero de perdermos os que amamos a cada dia que passa, de perdermos a nós mesmos abraçados ao tempo que restou. Somos esqueletos expostos num circo de amarguras e insensatez [o insuportável estado de felicidade nos espatifando contra a imparcialidade incômoda do sol poente]

3 comentários:

Fernando Palma disse...

"a chuva mudou desde que cresci"
Muito bom."
"imparcialidade incômoda do sol poente"
Muito bom!
Abraço.

Amélia disse...

Continuo a gostar de vir lê-lo, amigo.Bom domingo, Boa semana!

Celso disse...

não dá pra dizer qual parte eu gostei mais. oe texto é todo contaminado por uma saudade dolorosa e sangrante, ulcerada, mesmo, ardendo n'alma.

Saudações do Cárcere