segunda-feira, maio 14, 2007


acolhendo-se,
espera outro instante
sobre o qual debruçar
desta vez, sem falhas
e no acumular de gestos,
a vida em soluços
irromperá lucidez

silenciar seria recomeço

ei-lo,
vide suas mãos
escassas paragens ao léu
como dantes, inventadas
e no perfilar de sonhos
a melancolia em profusão
sagrará insensatez

escapar seria destino

terça-feira, maio 08, 2007


a paisagem
equaciona
mínimas andanças

e pássaros
tristemente
emudecidos

esperançamos
(todos)
o nascer do sol

terça-feira, maio 01, 2007

da série silêncios


SILÊNCIO DOIS

Algumas vezes, antes de beijar a mim e ao meu irmão na testa e dizer “boa-noite, durmam com Deus”, mamãe era visitada por outros silêncios. Silêncios que não lhe pertenciam, mas que chegavam mesmo assim. Curtos, como se indevidos. Vorazes, como se malvados. Tinham o rosto pálido e olhos isentos de cor, dedos magros e alongados.ao aproximarem-se de nós, abriam a própria boca para mostrar que por dentro de si não havia nada – fugia-lhes até mesmo o vazio. Eu podia sentir uma agonia desesperadora a invadir a alma da nossa mãe, que lutava querendo a todo custo levá-los embora dali e desta maneira, nos proteger. Mas eles ficavam, sabiam-na doente e que em breve não mais resistiria. Assim, munidos pela coragem perversa dos que espalham sofreguidão aos quatro ventos, percorriam lentamente os cômodos da casa, passando-nos os sonhos em revista, sorrindo seus dentes estragados a anteverem o sabor da tristeza. Outros eram aqueles silêncios, a nos roubarem a mamãe, dia após dia, por dois longos anos, comprimindo a esperança e trancando as sobras da vida em gavetas despovoadas de sol, de felicidade e de amanhãs.

domingo, abril 22, 2007


ao carlos besen.

quando descobri sementeira ao lado do peito,
eram mãos o arado do medo
brotando chuva miúda
no ceifar da ausência.

enluarado porque em silêncio,
donde solidão crescia
fui um vulto no palhegal
enraizei-me erva-daninha.

terça-feira, abril 17, 2007


passou
você pode descansar
já não há mais dor alguma
o sofrimento procura outros cantos
inexiste lugar para ele em ti...

passou
era só um medo tolo
não havia nada no lado de lá
apenas um chão feito de nuvens
para flutuares feito criança...

dorme agora, amigo
a vida escapuliu das tuas mãos
e deixou um vazio abarrotado de saudade
que memória alguma acalentará

(porque o teu sorriso
as estórias que gostavas de ouvir
e os teus abraços de cantiga-menino
a nós não aquecem mais...)

ao amigo Constantino. sonhe em paz.

quinta-feira, abril 12, 2007

recortei
do céu que você mandou
um pedaço de sol
lancei-o aos pássaros
– aturdidos
voaram,

tempestade.

segunda-feira, abril 02, 2007

da série retraço


por causa dos homens protejo o chão desse plantio onde a fé descobre carcomida estar. colho os sonhos que brotaram do esquecimento, alimentando-os como se meus fossem – tenho nas entranhas matéria desconhecida pelo sol. ó deus! escapo às noites, mas não aos seus pirilampos de sombras. povoa-me o temor. guardo vigília, vossa fé deixou-me só.

por causa dos homens curvados sobre ninguém, estórias de visagem já não se escutam mais. outrora, suas crianças sombreavam-se dos meus ombros brincando de inventar cores – ainda as guardo na memória, estranhas cores sem nome. ó deus! nem assim acolheu-me a felicidade, somente corvos a bicarem meus olhos. tenho medo, vosso desdém conhece-me os fantasmas

a eles, homens, eu devo escárnio e culpa. devolvi-lhes a ilusão da bem-aventurança. assim pude fazer-me eterno – minhas raízes sobrevivem ao cio da terra e à sede que arranca do céu tempestades. escondo dos infestos o destino. são minhas as almas trazidas pelo orvalho. aos meus pés repousam anciões desmemoriados. quando partirem, aqui estarei. eu, espantalho.

domingo, março 25, 2007

da série silêncios


SILÊNCIO UM
não entendia muito bem os silêncios da minha mãe. nos fins de tarde, havia sempre um momento de solidão, um olhar que saltava ao horizonte, um movimento contido das suas mãos a escovar-lhe os cabelos enquanto, sentada, parecia mergulhar mais e mais em si mesma a cada fio roubado pela escova. imaginava o que diziam os silêncios da minha mãe. não havia lamentos, mesmo com toda a dor trazida pela sua doença – as doenças são nossas, são pertences desde sempre habituados conosco; nós as possuímos em suas quietudes e a elas sobrevivemos, até chegar o dia em que, fartas de tanto comodismo, resolvem nos expulsar, como quem enxota ruidosamente um agora inútil hospedeiro, satisfeitas por alcançarem o sentido da existência. perto da morte, não havia tristeza nem esperança nos silêncios da minha mãe.

domingo, março 18, 2007


algumas tardes
apagam todas as cores
pertencentes às minhas lembranças
e ficam estranguladas
naquilo que chamo
saudade

(pesando sobre o meu peito
sem declinarem ao tempo
indiferentes ao anoitecer
maldizem a eternidade)

domingo, março 11, 2007


aqui
eu gosto de ficar

perdoe-me

é minha a solidão

segunda-feira, março 05, 2007

quando o povoado se recolhia às suas casas e se punha a dormir vencido pela quietude do céu estrelado, o velho pescador acocorava-se à beira do rio e escutava as vozes dos espíritos vindas daquelas águas escuras. ninguém mais era capaz de ouvi-las já que a fé tinham perdido e nas antigas preces ribeirinhas só ele cria, a elas agarrando-se com fervor – homem das mãos alumiadas. pelos amigos era chamado de louco; diziam que a mãe-d’água havia lhe roubado a lucidez. dos seis filhos e onze netos restou-lhe passar despercebido, numa invisibilidade só rompida por um ou outro caçoar. dois meses em vigília e o cansaço não lhe abatia, enluarado que estava. madrugada após madrugada, atarefava-se em contar quantos espíritos aquela fundura habitavam. não conseguia, inúmeros que eram. mas deles conhecia os nomes, porque era como se anunciavam, todos ao mesmo tempo, num ressoar de sussurros, ora feito por vozes velhas e cansadas, ora por vozes ainda crianças, de ciranda a brincar. eram vozes perdidas, em desespero. vozes esquecidas, em lamúrias. para cada voz, uma cor – que à beira do rio, qual olhos noturnos brilhavam. para cada voz, um nome. eram nomes comuns, de gente comum. joão. raimundo. pedro. maria. luiza. antonia. nomes de pessoas encantadas murmurando coisas das margens de lá (como ele desejava livrar-se deste corpo pesado e saber as coisas que flutuam nas margens de lá) neste amontoado de cores e vozes e preces e nomes, esquecia de si mesmo e confuso ficava. qual a sua idade, velho homem? onde adormecem as tuas cicatrizes? quantas amarguras selam o teu destino? e o teu nome, por deus, qual o teu nome? como esquecer do próprio nome? ah, quando enluarado ele esquecia! e espírito algum, por mais que a cada um deles implorasse, podia dizer como ele se chamava. lucas. porque sabiam. da fundura do rio os espíritos sabiam que a sua hora ainda estava por chegar.

terça-feira, fevereiro 27, 2007


sorrateiras luzes
pelos cantos da casa
pelas frestas dos cochichos
pelos olhares fugidios
a saber-nos as juras
os segredos de irmãos
trancados na carne

terça-feira, fevereiro 20, 2007


pro arthur bispo do rosário


passarei meus homens em revista
lado a lado
incansavelmente
até libertar esta horda
daqui de dentro de mim

sábado, fevereiro 10, 2007


pra marianna,
que me apresentou
amaranta
do garcia márquez



a velha mulher
farta da eternidade que não passava
decidiu morrer envolta em fagulhas
outrora esquecidas numa primavera distante
calmamente
acordou os vivos do seu vilarejo
dizendo que levaria encantadas na alma
as estrelas daquele céu que sempre os guiou
dali em diante não mais visto por ninguém
– estranha cantiga pra alimentar visagens –

domingo, fevereiro 04, 2007


sob a mudez do amanhecer
adormecem anjos caídos:
em suas pequeninas mãos
sombras empoeiradas
vagam destinos
descrentes em nós

sábado, janeiro 27, 2007


desperta teus mortos
devolve-lhes ao medo
trazido pelo revoar
desses pássaros cegos
que te bicam o coração
blog novo
outras imagens
que precisam respirar

domingo, janeiro 21, 2007



à noite
espessas recordações
alcançam
anjos deserdados
acobertando a boca seca
da poesia:
ORVALHO

segunda-feira, janeiro 15, 2007

nessa noite despovoada
que estacionou diante de mim
observo as mãos hábeis da solidão

apertarem e afrouxarem
apertarem e afrouxarem
apertarem e afrouxarem

meu pescoço
na medida exata
para que alguns anjos e

um terno de demônios
sobrevivam lúcidos
ao amanhecer

terça-feira, janeiro 09, 2007


fecho os olhos
à dor
tenho pálpebras
que ensoalham
mínimas paisagens
roubadas do bolso
daquela velha camisa
do meu avô
morto

segunda-feira, janeiro 01, 2007


meus demônios
os que estão aqui
fragmentam a noite
correndo em círculos
ou simplesmente
parando diante de mim

meus demônios
os que estão aqui
ruminam a felicidade
brincando de nada
ou mansamente
apostando em quem viverá


DEUS
há portas que eu não deveria ter atravessado
o caminho de fé que segui deveria ter sido murado
palavras que cometi, cores que respinguei, sonhos que acreditei
as tuas mãos suportando meus medos, eu não deveria tê-las permitido


meus demônios
os que estão aqui
dissecam a esperança
apostando nos homens
ou cinicamente
sorrindo pelas minhas costas

meus demônios
os que estão aqui
abortam a alvorada
cultivando-nos as virtudes
ou sabiamente
protegendo em si os pecados


DEUS
há certezas que eu não deveria ter provado
a retidão que no corpo atestei deveria ter sido cuspida
parcimônias que assegurei, caridades que semeei, sorrisos que ilustrei
os teus anjos protegendo o meu destino, eu não deveria tê-los admitido





(Que venha dois mil e sete.
Aos seus doze meses
sobreviveremos
como quem salta
outro abismo, sem pedir perdão.)

quinta-feira, dezembro 21, 2006




enquanto esperas
pelas tonalidades do entardecer
é deveras confuso perceber
o silêncio absterso do sol
mergulhando aos poucos no rio
(teu derradeiro fio de esperança)
a marianna, do blog
fez a foto.

sexta-feira, dezembro 15, 2006


recusei a fé dos homens
descobri a insensatez dos anjos
vivi meu inferno e não preciso do teu

escarro felicidade em nome da indiferença
permaneço quieto quando nada mais faz sentido
escaparei inteiro aos presságios da razão

minhas memórias têm olhos vazados
minh’alma é morada do corpo
sede de rio desaguando nascedouro do sol

quinta-feira, dezembro 07, 2006


quando dezembro chegar
com as vestes amarrotadas
tendo às mãos um amontoado
de esperanças desfeitas
para anunciar o novo ano
tão decadente e mentiroso
como todos os anos-novos
que por aqui antes nos habitaram
o que direi de mim?
o que direi de ti?

quinta-feira, novembro 30, 2006


exposto,
o ventre da poesia
agonizava luzes.

sábado, novembro 25, 2006

qual prece que deus algum escuta,
minha lucidez preserva
o desespero
dos entardeceres de outono

domingo, novembro 19, 2006


se escrevo
é pelo silêncio
que me devora
amanhãs

domingo, novembro 12, 2006

no céu deserto
pela fé mesquinha dos homens
andorinhas escapam
INCANDESCENTES
mergulhando na dormência do sol

domingo, novembro 05, 2006


pra vássia
rezo
que é pra espantar
o medo
a morte
que na gente foi inventada:
insone,
vejo anjos onde não existe
futuro.

domingo, outubro 29, 2006


bendito seja
pelas tuas mãos caridosas
pelos teus filhos abençoados
pela fé que de ti emana
pelas promessas que alimentas
pela benevolência daqueles que te cercam


benedictus qui venit
sanctus, sanctus, sanctus
dominus deus



tua luz esteve a guiar-me?
teu perdão me quis ajoelhado?
era a tua voz martelando meus pesadelos?
quando adoeci você esteve ao meu lado?


gloria in excelsis deo
gloria in excelsis deo
gloria in excelsis deo




a casa está vazia
as roupas foram deixadas para trás
carcomidas as verdades restou o tempo
passageiro febril coberto de vermes
o frio a esperar o teu nome


pleni sunt coeli et terra
gloria tua


pai,
antes que amanheça
tropeço no meu acaso
desajunto meus acertos
confesso meus demônios
e cuspo no teu rosto
selando meu fim




credo in unun deum
patrem omnipotentem

sexta-feira, outubro 27, 2006


a cada dia passado
adiantávamos o fim
ou não éramos
jovens demais
às marcas do tempo
em nossa pele
buscando refúgio e ilusão?

segunda-feira, outubro 23, 2006


deus
suas entranhas escondem
um louco enfezado
arrastando pesados grilhões
trancafiando anjos insones
costurando em nossas bocas
preces encardidas
para todo o sempre
maldito seja
amém

sexta-feira, outubro 20, 2006


* DOR ESQUADRINHADA
(EM TRÊS LÂMINAS)

LÂMINA UM

viver
sem trazer chuva
arco-íris
abelhas
sol e
árvores
tocando o entardecer
a mim parecia impossível
- seria como sonhar em voz alta
não voar com os passarinhos do quintal
acordar sem espreguiçar
ou calar na garganta as cores
ilustradoras do eu-menino -

LÂMINA DOIS

assim era a infância
no meu mundo secreto
riscado em giz de cera
que me era infinito
feito de cirandas
de magias e de mistérios
como estrelas engolindo o mar
e parindo um céu novo a cada dia
(BRETON)

LÂMINA TRÊS
mas chegou o amanhã
e tinha gosto de nada
deixando em nossas mãos
um destino rabugento
vigilante de memórias
empoeiradas e distantes
caladas e baldias
para que a vida seguisse seu rumo
(eles disseram)
para que o homem seguisse sem vida
(eles sabiam)
feito bicho acuado
num canto de quarto
fingindo poesia


*do livro artesanal "infância(rabiscos em tons de silêncio)",
com 22 poesias
escritas pra menina que eu amo, numa única madrugada.

terça-feira, outubro 17, 2006


ausente
neste outubro de mim mesmo
finjo o cinza-eclipse
visto pela última vez
trancafiado numa estrela
daquele céu acolá

quinta-feira, outubro 12, 2006


chega o poeta, de pé
já não se nutre das memórias
e percorre com lucidez
os vestígios de si mesmo
milimetricamente sufocados
(a dor ficou enterrada no tempo)

entregue ao fingir, árido
dispersou sem dó as cantigas
que um dia sua mãe lhe ensinara
trancando-se nas cores vazias
daquela envelhecida caixa de lápis
(a vida ficou de todo alijada)

refeito em disfarces, são
regressou à primavera
alimentado apenas pelos restos
dum hoje que sobrevive em seus ossos
covarde, frio e limpo demais
(o amor soube-se exemplarmente amputado)

sexta-feira, outubro 06, 2006



pra ti,
antes que a vida
nos interrompa...


(porque eu te odeio, mesmo não te amar sendo-me impossível;
porque a certeza tua de que a mim sobreviverás mastiga meus ossos
e cospe a fragilidade de estar vivo direto no meu rosto;
porque continuarás sorrindo quando eu não mais estiver aqui;
porque até o último instante que me restar eu serei teu,
mesmo que você já nem mais saiba da cor dos meus olhos
ou da fúria de deus, que um dia eu roubei pra que nós pudéssemos sonhar
)





nesta insônia que não termina, fujo do amor que fizera amputado
(estou num quarto vazio, debruçado sobre as lembranças que pude alcançar)

a ausência tua cutuca a insegurança de mim faminta
(você disse que jamais seria mulher de um homem só – lasciva)

sóbrio e incansável, examino-me nos traços teus que nos meus olhos ficaram
(encontro um esboço de gente ridiculamente medroso, a choramingar – lasso)

ecoa pelas entranhas a tua voz sussurrando que seríamos intensos e breves
(soca-me o rosto o que é derradeiro: você nunca mentiu; eu é que não quis acreditar)

sexta-feira, setembro 29, 2006


anjos possessos
consagraram o amém
sob um horizonte feito de cinzas
aos meus olhos desabando

– respirei da primavera
a primeira fagulha
recortando meu destino
diante da relva –


(sonho parido na raiz da aurora)

sábado, setembro 23, 2006


alcanço mais um ano
esfarelo a esperança
impedindo-me de alcançar
o rastro do poente
as sobras de rio
[hoje, sou um rabisco no caderno de desenhos
que nas mãos de menino
outrora fiz nanquim]

sepultadas as cores
poesia transparece medo
diante da morte fielmente postada ao nosso lado
sabedora de que deus nem sempre está
disposto a ocupar-se de nós
[hoje, inicio um ciclo há muito planejado
pra nos escombros do homem
imperar a indiferença]

sexta-feira, setembro 22, 2006

escutas sussurrarem teu nome
mas não há ninguém por perto



louco

quinta-feira, setembro 14, 2006


[Você é capaz de contar as horas que faltam para o próximo amanhecer sem que o peso do olhar divino não assole as tuas certezas de giz? Você consegue dormir em paz sabendo que existem anjos vigiando teus sonhos, prontos a te abraçar quando você menos espera? Quando o escárnio retornar à tua boca e você já não tiver mais forças para vomitar, quem saberá do seu destino? Ajoelha-te em sinal de respeito e silencia o que te traz alegria. Este é o preço reservado àquele que se aventurou a sonhar.]



branco
é dor gotejada
ruído estrangulado
aproximando medo e solidão
do que preservas da esperança
deixando teu corpo mais sensível
às ilusões de preces adoecidas

branco
é pesar anunciado
deus esquelético
escolhendo formas e datas
pra levar antes de ti aqueles que amas
deixando teus olhos marejados
às sobras duma fé carcomida

quarta-feira, setembro 06, 2006



Tinha setenta e nove anos e já não suportava a dor que lhe acompanhava nos últimos trinta e seis meses. No início, deram-lhe algumas semanas de vida – antes fosse, muitas vezes pensou. Não se imaginara terminando desta forma, debilitado e dependente – remédios, parentes, enfermeiras, leitos e, agora, essas agulhas, soros,tubos e o azul...o azul do céu que tanto lhe faz companhia quando a noite chega e as estrelas cadentes não passam, não mais.Da última vez que pôde correr, guarda poucas lembranças(a idade o trai; já não sabe se foi na meninice ou num sonho sob efeito das medicações. De fato, podia ter sido ontem, mas ele não estará lá para saber.) Não rezava mais e mesmo assim esperava por deus ou ao menos anjos quando a hora chegasse. Haveria de ser em plena madrugada, sem ninguém perceber. E só uma, só uma pessoa haveria de fechar-lhe os olhos. Para sempre. Às duas e quarenta e sete fez-se a sua vontade.




já nas entranhas da morte
o que respirava possuía
mais cores sombreadas do que
a tranqüilidade do sofrimento
INTERROMPIDO

seus últimos instantes não trouxeram
sua vida contada velozmente
apenas imagens desaceleradas
agrupadas em blocos rígidos de cores
INEXISTENTES

(não pôde ver sua infância brincada de novo
não sentiu a chuva por entre seus dedos
não reviveu as manhãs de girassóis
nem as noites silentes de espantalho
e não houve deus ou anjos ao seu lado
só as mãos da mulher amada
a fechar-lhe pela última vez
os olhos que soubera castanhos)

sexta-feira, setembro 01, 2006


[Suas mãos sabiam o arrastar do tempo. Reconhecia o desespero, a melancolia e a desesperança pela cor inominada escavada nos ossos dos agonizantes. Não lembra quando tudo começou, mas aceitava como seu destino. Quando criança, chamaram-lhe estranho. Adulto, inventaram-lhe louco. Nas ruas, encontrou o abrigo da indiferença. E moedas, para cumprir a sua sina.]
acolhedor de almas
o velho mendigo
no seu ritual silencioso
repetido dia após dia
sem que ninguém
saiba o porquê
lança a moeda
e espera a resposta



que desta vez não veio



deus


não estava ali


deus


não paga promessas


deus


é o pequeno instante


entre o chão


e a moeda

domingo, agosto 27, 2006


deus
eu sou o silêncio
que lhe falta
as mãos serenas
que lhe acolhem
a margem do rio
que lhe revela

o amor
a ternura
a felicidade
a fé

que lhe derrota
quando a morte
vem nos assombrar

segunda-feira, agosto 21, 2006


você olha por dentro dos meus ouvidos
dos meus olhos e da minha boca
pressiona a minha cabeça
com dedos frios e meticulosos
procurando por culpa e pecado
querendo espremer a minha alma
dissecar-me os sonhos
punir-me os sorrisos
como se eu fosse igual a ti
como se em algum momento
eu tivesse sido algo além
desse espantalho isento de dor
mísero fazedor de palavras
compreendidas em lugar nenhum

não!
basta!
silencie!
desapareça!

tire seus dedos de dentro da minha cabeça
os meus olhos,
deixe-os verdejarem no jardim
junto aos sonhos e sorrisos
livrai enfim
a minha alma
das suas sentenças mentirosas

(o seu julgamento hipócrita e covarde
escarra-os diante do espelho)

porque eu não sou feito de medo e desamor
porque eu não sou feito dessa verdade nojenta
a entupir suas artérias e empanturrar seu estômago
fazendo de você um pedaço de vida ensinado
para esquecer por todo o sempre
debaixo do céu existirem girassóis
e que as cirandas e as cantigas de ninar
sobreviveram sim aos agouros
desse deus por você um dia manchado
ao acreditares que isso era ter fé

terça-feira, agosto 15, 2006


qual sorriso vestirás
quando o palhaço de domingo
trouxer teus amanhãs
estrangulado em luzes
que de sombras, nada mais
pois estivemos aqui
antes ?

quinta-feira, agosto 10, 2006


para mari


havia minhocas germinado vida no coração do menino
,todos diziam que era doença
então trouxeram médicos com olhos de vidro
que diagnosticaram algo com nome esquisito
– médicos dão nomes esquisitos ao que não entendem –
& vieram os remédios com gosto de céu sem nuvens
(doses exatas, a cada hora exata;
todo dia, até quando?)


havia minhocas germinando vida no coração do menino
noite após noite, por meses que nem lembro quantos
mais e mais minhocas no coração do menino
trazendo sonhos carinhados por anjos
– sorrisos precisam de carinho, seja no frio ou no calor –
& vieram as noites vividas entre estrelas cadentes
(cores largas, a cada mínimo instante;
toda noite, pra sempre?)


eram minhocas germinando vida no coração do menino
era amor que crescia esparramado pelo corpo inteiro
nos ossos e na alma, o menino amava
só precisava da menina dos girassóis ao seu lado
– mas isso não podia no mundo onde os adultos viviam –
& vieram paredes pintadas de branco e sem cheiro de chuva
(sorrisos costurados, solidão;
por toda a vida, aonde você está?)

segunda-feira, agosto 07, 2006

palavras
(sentenças desconexas - cores pintadas num quadro sem alma)

emoções
(trilhos exatos - gotas de chuva presas no caderno que joguei no quintal)

sonhos
(risíveis - não há mais brinquedos espalhados no quarto do meio)
amor
(temores - a solidez lentamente ocupando meus ossos )
- eu, silenciado -

segunda-feira, julho 31, 2006

eu
mudo

ಂ

– escute –
ainda estou
aqui

& meu sangue
,pouco
há de ser
frágil
instante
quando souber
-es)
de mim
essa dor
esse amor
essa perda
(-en
fim

sábado, julho 15, 2006


o sol nascente trazia cores dentro de caixas de papelão
e ninguém te escutava;
sobre as páginas em branco eram sonhados lugares que as mãos
esqueceram antes de ti;
foi preciso destrancar a porta e trazer todos de volta às paredes deste
quarto limpo demais;
TODOS
(os teus bichos feitos de sombras
as tuas brincadeiras de menino
a chuva
& os girassóis
tudo esmiuçado
estudado
analisado
explicado
rotulado
olhado por dentro
– mas eles não saberão
que o lado mais esquisito
é o lado de lá
onde a dor
não te alcança
e as madrugadas são
pirilampos
com asas relampejadas)

quarta-feira, julho 12, 2006


Morte. Estava mesmo debruçado sobre as marcas que dela ficam em nós(a imagem que aqui postei domingo passado trazia tais marcas na pele). Morte. Por mais que eu escreva todos os meus fantasmas, eles permanecem. Morte. confesso ter medo[seria um silêncio ininterrupto que não permitiria espaço para mais nada?] Hoje soube da morte do Syd Barrett – um cara que marca a minha vida. Louco é perceber que um dos meus primeiros blogs destripava sons, e que a única postagem dele foi justo sobre o Syd. Vomitei algumas imagens agora e postarei-as aqui. Outras, têm mais a cara dos outros blogs – deverão por lá aparecer. No eu, espantalho, certamente – o espantalho em mim traz coisas do scarecrow do Syd, lá do primeiro disco do Floyd. Há pouco, conversei ao telefone com um amigo meu, o Marco. Na verdade, ele mais berrava insanidades que conversava. E foi assim, insanos, que um dia, bem moleques ainda, descobrimos os mundos trazidos pelas gargalhadas do Madcap. O silêncio chegou. Saibamos escutar.
pro syd



espere mais um pouco
eu ainda tenho pedaços de
sonhos
para te entregar
e o sol parece
gostar de nós
não peço que fiques
pois sei que tens outros
mundos
para pintar de azul
e as tuas mãos já não
escondem
o peso de estar vivo
quando o que mais desejas
é sair de ti e acordar
fora de tudo
com os olhos longe do chão
livre daqui
livre daqui
livre daqui
Isn't it good to be lost in the wood
isn't it bad so quiet there, in the wood

domingo, julho 09, 2006


dezenove de abril
nossa casa ficou vazia
as paredes calaram nossas vozes
o jambeiro perdeu todas as cores
os brinquedos espalhados
pelo quarto do meio
não mais foram brincados
envelheceram por dentro
como se fossem ossos nus
& as joaninhas
& os percevejos
& os calangos do jardim
entristeceram ao pôr do sol
levando a primavera embora
porque a morte lá esteve
para roubar a nossa mãe
acabo de avivar mais um blog. porque há imagens que me invadem sob a forma de rascunhos. e como rascunhos, serão expostas. é só passar por aqui http://rascunhosesilencio.blogspot.com/

segunda-feira, julho 03, 2006


pro celso, do cárcere - tuas palavras despertaram essas imagens
pra menina que amanhece meus girassóis - teu amor me faz feliz
antes
havia o medo de amar
menina dos olhos descalços-de-vento
& tudo era desmedido
como quem não sabe esperar
PELO INSTANTE
[mas há pressa demais no futuro
e aquilo que ficou para trás não sabe caminhar]

antes
eu não sabia teu cheiro
menina da pele branca-de-nuvem
& tudo decrescia
como quem recorta a felicidade
TODOS OS DIAS
[mas já há dor demais nessa vida
e o que escapa ao poente a noite devora]

hoje
fere-me o sol pálido
menina dos pés rabisco-de-aurora-andaluz
& tudo respira arremedos
alimentados pelo mar cansado de fúria
PORQUE NÃO ESTÁS AQUI
[mas sempre foi amor o que me assustava
e solidão aquilo que eu tão bem conhecia]

terça-feira, junho 27, 2006



PRELÚDIO
I
o inverno que nos afasta
devorado será
por todas as primaveras
que virão
nos olhos da dor
gotejar girassóis

II

a menina que eu amo
guarda andorinhas
caracóis
& ventania
O SEGREDO DAS AURORAS

III

ciclo: pés descalços
teus cabelos gosto de pássaro voando

▒▌

meus dedos são cores cantando cigarras
.
.
.

IV

credo: chuva miúda
teus olhos de jabuticaba

⋙
dá-me teus medos
dar-te-ei meu sonhar

terça-feira, junho 20, 2006


o chão de tacos corridos
era memória inventada
como era faz-de-conta
a joaninha germinando primavera
à sombra da acácia
que trouxe a minha mãe de volta
para embalar-me canções de ninar
porque deus às minhas preces
finalmente ouvira
e carregara a morte pro lado de lá