quarta-feira, setembro 06, 2006



Tinha setenta e nove anos e já não suportava a dor que lhe acompanhava nos últimos trinta e seis meses. No início, deram-lhe algumas semanas de vida – antes fosse, muitas vezes pensou. Não se imaginara terminando desta forma, debilitado e dependente – remédios, parentes, enfermeiras, leitos e, agora, essas agulhas, soros,tubos e o azul...o azul do céu que tanto lhe faz companhia quando a noite chega e as estrelas cadentes não passam, não mais.Da última vez que pôde correr, guarda poucas lembranças(a idade o trai; já não sabe se foi na meninice ou num sonho sob efeito das medicações. De fato, podia ter sido ontem, mas ele não estará lá para saber.) Não rezava mais e mesmo assim esperava por deus ou ao menos anjos quando a hora chegasse. Haveria de ser em plena madrugada, sem ninguém perceber. E só uma, só uma pessoa haveria de fechar-lhe os olhos. Para sempre. Às duas e quarenta e sete fez-se a sua vontade.




já nas entranhas da morte
o que respirava possuía
mais cores sombreadas do que
a tranqüilidade do sofrimento
INTERROMPIDO

seus últimos instantes não trouxeram
sua vida contada velozmente
apenas imagens desaceleradas
agrupadas em blocos rígidos de cores
INEXISTENTES

(não pôde ver sua infância brincada de novo
não sentiu a chuva por entre seus dedos
não reviveu as manhãs de girassóis
nem as noites silentes de espantalho
e não houve deus ou anjos ao seu lado
só as mãos da mulher amada
a fechar-lhe pela última vez
os olhos que soubera castanhos)

9 comentários:

claudia disse...

fiquei triste. lembrar que existe um fim é sempre doloroso...

Anônimo disse...

[
Ela chorou. Pela última vez suas lágrimas caíram sobre o colo daquele que por toda vida a consolara. E agora, ele se fora. Ela chorou. Soluçou. Murmurou gemidos doídos à madrugada escura. Procurava compaixão. Sentia na pele todas as lembranças que podia ter daquele amor que agora a abandonava assim, aos poucos, com a dor de vê-lo ir sem nada poder fazer. Era a vida, que, assim, simplesmente, acabara. Ela entendia. Mas chorou. E o fez desesperada, porque a vida se acabara, mas se esquecera de lhe levar.
]




De encher os olhos!

[jb] disse...

é um instante perturbador quando não se sabe se a morte é um desejo ou uma angústia.

[jb]

Marilena disse...

fiquei triste com essa imagem de um fim.
tudo o que vc escreve é tão bom e sempre tão comovente.
gosto demais.

Bruna Rasmussen disse...

e com tantos blogs, tantos textos, tantos sentimentos fica difícil escolher um para comentar.
aquilo que escreves, em todos os teus blogs, é de tamanha intensidade que me comovo a cada linha.

adorei conhecê-los! blogs fantásticos!
beijos

Vássia Silveira disse...

os olhos que soubera castanhos e que agora, passado tanto tempo, faziam-se cinzas na lembrança da mulher que um dia viu-se refletida neles.

diovvani disse...

Eh amigo, um dia ... O mistério abraçará, todos os nossos medos.
Comovente!

Abraço das Minas Gerais.

Mayroca disse...

Lembrei de García Marques. ;)

tb disse...

voltei!
O corpo morre, ams a lembrança fica, mesm oque dolorosa... u mmomento de rara beleza inda que triste.
Beijos