segunda-feira, abril 02, 2007

da série retraço


por causa dos homens protejo o chão desse plantio onde a fé descobre carcomida estar. colho os sonhos que brotaram do esquecimento, alimentando-os como se meus fossem – tenho nas entranhas matéria desconhecida pelo sol. ó deus! escapo às noites, mas não aos seus pirilampos de sombras. povoa-me o temor. guardo vigília, vossa fé deixou-me só.

por causa dos homens curvados sobre ninguém, estórias de visagem já não se escutam mais. outrora, suas crianças sombreavam-se dos meus ombros brincando de inventar cores – ainda as guardo na memória, estranhas cores sem nome. ó deus! nem assim acolheu-me a felicidade, somente corvos a bicarem meus olhos. tenho medo, vosso desdém conhece-me os fantasmas

a eles, homens, eu devo escárnio e culpa. devolvi-lhes a ilusão da bem-aventurança. assim pude fazer-me eterno – minhas raízes sobrevivem ao cio da terra e à sede que arranca do céu tempestades. escondo dos infestos o destino. são minhas as almas trazidas pelo orvalho. aos meus pés repousam anciões desmemoriados. quando partirem, aqui estarei. eu, espantalho.

3 comentários:

Valéria disse...

este texto revolveu minhas entranhas...
postei você lá...olha.
um beijo

marianna t. disse...

Sobrevoam o campo de centeio os corvos que outrora pintaram a morte em outros céus. São eles que arrancam do chão a esperança seca que cresce feito praga sob teus pés. São eles que devoram teus restos, teus trapos. Foram eles que bicaram teus olhos, amputando brilho e sorrisos e pregando em tua face esses botões negros e foscos, para fingir que podias enxergar. Mas desde que as cores do horizonte fugiram de ti como pássaros assustados, não consegues – são lágrimas teus olhos, escorrendo mornas sobre tua face de pano. Assim, permaneces relutante à fé que se arrasta, e não consegue te alcançar. Assim permaneces, a resguardar auroras e pores de sol e a guardar no peito mentiras que se proliferam sob teus retraços e te fazem sobreviver. Assim permaneces vivo, eterno na medida em que o tempo não passa para lá de onde o sol se esconde todo dia. E te deixa esquecido na paisagem do trigal.

Rubens da Cunha disse...

tive lá no teu 'deus e outros escombros'e não consegui comentar. seria deus me impedindo a voz :))
gosto demasiado daqueles poemas religiosos. gosto daqui também.
vc já leu jorge de lima? a fase religiosa dele, penso que poderia haver sérias identificações :))
abraços
Rubens