segunda-feira, março 05, 2007

quando o povoado se recolhia às suas casas e se punha a dormir vencido pela quietude do céu estrelado, o velho pescador acocorava-se à beira do rio e escutava as vozes dos espíritos vindas daquelas águas escuras. ninguém mais era capaz de ouvi-las já que a fé tinham perdido e nas antigas preces ribeirinhas só ele cria, a elas agarrando-se com fervor – homem das mãos alumiadas. pelos amigos era chamado de louco; diziam que a mãe-d’água havia lhe roubado a lucidez. dos seis filhos e onze netos restou-lhe passar despercebido, numa invisibilidade só rompida por um ou outro caçoar. dois meses em vigília e o cansaço não lhe abatia, enluarado que estava. madrugada após madrugada, atarefava-se em contar quantos espíritos aquela fundura habitavam. não conseguia, inúmeros que eram. mas deles conhecia os nomes, porque era como se anunciavam, todos ao mesmo tempo, num ressoar de sussurros, ora feito por vozes velhas e cansadas, ora por vozes ainda crianças, de ciranda a brincar. eram vozes perdidas, em desespero. vozes esquecidas, em lamúrias. para cada voz, uma cor – que à beira do rio, qual olhos noturnos brilhavam. para cada voz, um nome. eram nomes comuns, de gente comum. joão. raimundo. pedro. maria. luiza. antonia. nomes de pessoas encantadas murmurando coisas das margens de lá (como ele desejava livrar-se deste corpo pesado e saber as coisas que flutuam nas margens de lá) neste amontoado de cores e vozes e preces e nomes, esquecia de si mesmo e confuso ficava. qual a sua idade, velho homem? onde adormecem as tuas cicatrizes? quantas amarguras selam o teu destino? e o teu nome, por deus, qual o teu nome? como esquecer do próprio nome? ah, quando enluarado ele esquecia! e espírito algum, por mais que a cada um deles implorasse, podia dizer como ele se chamava. lucas. porque sabiam. da fundura do rio os espíritos sabiam que a sua hora ainda estava por chegar.

5 comentários:

Conceição Bernardino disse...

Olá,

Povo

Ò povo que trais sem saber
O corpo que cansada da luta não
Pode ver

Ò néscio que não tiveste
Quem a ti te ensinasse
A andar.

Ò triste que caminhas com os
Pés dos outros,
Sem saber no que estás a pisar!

Poema da autoria de LILIANA BARRETO do LIVRO POISEIS II

Desejo-te uma bela semana, na companhia deste belo poema que encantou os sentidos.

Beijinhos ConceiçãoB
http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com

Fernando Rozano disse...

Douglas, teus textos são um alento para mim. Volto a escrever, e aqui me sinto em casa, bebendo a água da tua sensibilidade. Abraços.

Claudio Eugenio Luz disse...

Vim agora, descobrir seu outro espaço. Venho com sede, venho com fome.

hábraços, meu caro prosador

Lidiane disse...

Menino... que coisa de texto ótimo.
Sabe que me fez lembrar, assim, pelo tema, a terceira margem do rio, do Guimarães?
Bom de ler você, na fundura do silêncio, cheio de almas enluaradas.

tb disse...

tanto em poesia como em prosa sempre a tua mestria.
Lindo pedaço de prosa.
Beijo