sexta-feira, junho 16, 2006

Penso que meus blogs andam confundindo suas identidades[o preces ribeirinhas encorpa o memórias baldias, que por sua vez, é enchimento qual o eu,espantalho, que resiste ao peso acinzentado do amores fúnebres] Aqui, no vomitando imagens, marco o encontro de todos, o que pode levar ao abandono de tudo, ou ao silêncio que me alimenta os músculos. Não sei muito bem o que dizer. Tenho um turbilhão de sentimentos esmurando meus olhos:
[AS PALAVRAS ULTRAPASSAM O LIMITE DA PELE, A FOME VEM E ATINGE MEUS OSSOS; A DESCRENÇA PARASITA O MEU DESATINO]
Nesses instantes que me fazem distante da primavera, eu mergulho em mim mesmo e descubro que raros sentimentos importam. Pessoas também. Raras pessoas a mim importam. Destas, algumas já não podem mais escutar minhas preces e cheirar meu sorriso de chuva.
Sim, eu sou um homem solitário. Acho que você sempre soube. Não?
Sim, eu tenho medo do isolamento - as paredes do meu quarto não escondem segredos - simplesmente, os ignoram. E assim o fazem com sonhos e girassóis. E você, onde está você que não vem amanhecê-los?Onde você está? Você pode me escutar? Você pode sentir o que eu sinto? Você desceria ao inferno comigo?[a candura do céu cabe sob medida àqueles que sonham sem dor]
Eu sou um homem feito de palha! Eu preciso ser um homem feito de palha!
Tenho as madrugadas comigo mas não sei escrevê-las [eu esboço memórias e destinos para acalentar a miséria do instante] MEUS INSTANTES SÃO MISERÁVEIS longe de ti.
Invadem-me a privacidade e jogam falácias na minha cara. Pai, perdão?
Invadem-me a alma e enraizam sombras nos meus dias de sol. Pai, perdão!
Invadem-me a sanidade e dizem aos ventos que eu já não oro mais. Mãe, escuta?
Invadem-me o amor e dizem que eu sou o mal que te assola. Mãe, escuta!
Meus precipícios chegam ao fim e eu não tenho lugar algum para alcançar.
Meus sonhos, os guardei de volta. Agora, longe de mim, longe de ti, longe das manhãs bretonianas, enterrados num lugar que jamais outro alguém irá alcançar[meu império ruidoso; minha rota de fuga; meu destino escrito em giz]
Hoje, sei os que me importam. Os que amo. Aos que aqui não mais estão, são minhas as memórias a avivá-los. Aos que ainda posso tocar, meu calor entrego. E a você, o que coube?
O melhor que há em mim. O pior que me escapa. A imprecisão das minhas virtudes e a absoluta convicção dos meus erros, todos.
VOCÊ QUE ME FAZ CRER QUE A VIDA VALE A PENA. Você me faz crer nessa coisa esquisita que chamamos amor. E é amor isso tudo. Escutaram? Amor!
Não, eles não escutam. Não, eles não permitem. Não, eles só julgam e rotulam e explicam e receitam[há fórmulas de felicidade, mas pra cada fórmula feliz há um prazo de validade]
Ah, como poderiam saber de nós, se nos atam as palavras, se nos podam os gestos e nos mumificam os horizontes?
Hoje, ruminando outra madrugada insone, eu sei que o mundo inteiro é pouco pra me calar. Mas é aterrador saber que sem ti não há o que falar...

segunda-feira, junho 12, 2006


escreve um adeus que seja um adeus-círculo
um adeus-azul
um adeus-poesia

escreve um adeus sem dor e sem distância
um adeus que nos faça ausentes da perda
livres da amargura e do pesar

[esse pesar desalmado que toma posse da gente
quando não temos mais o entricheiramento do quarto para nos abrigar]

escreve um adeus-mentira
um adeus-silêncio
um adeus que nos dê colo
feito álbum de fotografias posto sobre a mesa da sala vazia

escreve um adeus que não saiba durar
escreve um adeus com letras de giz
um adeus invertebrado e inconsistente
um adeus-mentira que seja possível de apagar

domingo, junho 04, 2006


o sol poente
sujou as mãos do menino
que enfurecido
pintou andorinhas e estrelas cadentes
mergulhou-as no mar

assolado pela profundidade do azul
descobriu não possuir mais nada dentro do peito
– os sonhos tinham esvaziado feito balão perdido
numa praça em pleno domingo –

[a precisão fiel da dor chegara]

silenciou
e atento lambeu o luar
que nem bem despertara
– nas margens vorazes do tempo
desdisse os selos do destino –

um após o outro
guardou os vestígios
do que outrora fora solidão
[transformando orações em sons amargurados]

isolado e lúcido
das memórias roubou segredos
respirou fundo
descreu do amanhã
e nunca mais deixou de voar

segunda-feira, maio 22, 2006



PERDÃO
[O ESPANTALHO SANGRA]

pai, perdão
sou um homem silente
que ainda reza todas as noites
e crê em anjos- da- guarda

pai, perdão
permita que eu creia
permita que eu fale
permita que eu de ti me aproxime

pai, perdão
um dia todos erramos
um dia todos tropeçamos
um dia todos fracassamos

pai, perdão
mesmo que o erro tenha sido mentir
mesmo que o erro tenha sido temer
mesmo que o erro tenha sido sonhar

perdoa, pai

[ainda hoje nos imaginei a conversar
e você era mais alto do que eu pensava;
você falava as palavras que eu falaria, verdades;
você olhava fixo aos meus olhos, silêncio;
você alcançava as minhas estrelas cadentes, permissão;
você apontava minhas MENTIRAS e as jogava no meu ROSTO;
você desossava as minhas FRAQUEZAS e as lançava ao VENTO;
você investigava minhas VIRTUDES e de todas DESACREDITAVA;
você me APEQUENAVA e mesmo assim eu NÃO desistia]


pai, perdão
porque no meu coração-espantalho
onde jazia numa sala esquecida na memória
hoje sorriem auroras bretonianas
germinadas pela menina que eu amo


pai, perdão
dá-me tua benção
dá-me tua permissão
é só o que peço

confia em mim, pai
porque eu jamais a deixarei só
porque eu jamais a farei sofrer
porque eu jamais direi adeus

acredita em nós dois, pai
e todas as nossas primaveras
e todas as nossas manhãs
serão de girassóis.

pai, perdão.

terça-feira, maio 16, 2006


acredita nas mãos que oram
– deus está aqui –
a fé é menor que o medo da morte
– o menino permanece sentado na cadeira de balanço –
os choros agora estão mais altos
– pressente que alguém tocará nos seus ombros e dirá que tudo terminou –
havia um cheiro de dor ganhando vida nas paredes do quarto
– no seu faz-de-conta esse dia não chegaria jamais –
o lar agora estava incompleto
– todas as brincadeiras entristeceram –
os sonhos não deveriam ter fim
– o futuro agoniza intercalado aos lamentos –
pequenos somos diante da perda
– a permanência nos afoga em certezas –
traga um adeus que seja frágil
– ainda sou teu filhinho nas minhas memórias –

domingo, abril 30, 2006


eu preciso de um tempo
eu preciso aprender a fingir
que a vida é exatamente isso tudo
que eles dizem que é
eu preciso mentir
e enganar o que sinto
eu preciso do silêncio das ruas desertas
eu preciso da mudez dos corações desamados
eu preciso dos sorrisos fáceis
e da falsa felicicidade das manhãs sem girassóis
eu preciso encontrar um caminho bem longe daqui
eu preciso enterrar minhas memórias
e descrer na felicidade
porque é assim que funciona
porque é assim que ouvi dizer
porque é assim que está ecrito
num livro que me recuso a ler
e que todas as madrugadas que contigo viverei
e que todos os caminhos que contigo andarei
e que todos os sonhos que contigo singrarei
fiquem longe de mim
fiquem longe daqui
porque eu não suporto tanta perda
porque eu desaprendi a chorar
porque eu desaprendi a esconder o que sinto
porque eu te amo
porque eu te amo
porque eu decreto aqui
que o espantalho
agora tem músculos que nada pulsam
e olhos que nada vêem
e mãos que nada tocam
e um sorriso estranho
que a tudo espanta
menos o vazio
e a tristeza imensa
desse amor
que disseram morrer
e que comigo levarei
nem que seja sozinho
na desfronteira da vida
no lugar exato
onde habita a dor.
*
aos que aqui aparecem
aos que aqui vomitam
calarei por um tempo
é preciso
eu preciso.
vez por outra estarei no amores fúnebres
ou no eu, espantalho...

domingo, abril 23, 2006



REED

anjos
&
febre
os tempos difíceis acabarão
nossas preces serão ouvidas
teus ombros acolherão meus medos

[algumas vezes sinto-me feliz
quando mergulho nos teus olhos pálidos]

anjos
&
frio
os tempos de sorrir sucumbirão
as promessas afogar-se-ão na fé
meus lamentos sobreviverão aos teus

[algumas vezes sinto-me tristonho
quando adormeço nos teus olhos pálidos]

domingo, abril 16, 2006


ESBOÇO EM GIZ

era deus, calado
ausente na fundura dos lamentos
nos livros espalhados pelo quarto
na porta entreabrindo iluminuras
[era eu, menino
nas sobras de março
tardias e desfiguradas
por este abril minucioso
que agora começa
a me mastigar]

domingo, abril 09, 2006







- Por que você jogou todos os nossos brinquedos fora? Você sempre soube que eles guardam memórias. Agora, como iremos lembrar?

-
O que deveríamos lembrar? A chuva nunca mais será a mesma, você não percebe? A morte tocou as paredes do quarto e nada mais importa. Está tudo enterrado, com a nossa mãe.

-
Mas você sabia, as memórias velam os sorrisos. A infância sem sorrisos nos envelhece. Quem seremos nós?

-
O silêncio está aqui. A dor passará. Minhas mãos escreverão girassóis, você precisa acreditar.

-
Creio nas manhãs quando são azuis.

-
As manhãs azuis estão seladas.

-
Creio na benção de deus e nos meus anjos-de-guarda.

- É o silêncio que está aqui.

- Você canta uma cantiga e me faz dormir?

- E depois, quem me ninará?

sexta-feira, março 31, 2006


Lamparina sobre a mesa
uma das crianças está calada
observando
os movimentos
e o silêncio
que fica pra trás
quando a noite avança
na ânsia de mais uma aurora
por chegar.

No fundo das gavetas
na tessitura do quarto
as noites antigas
ainda dançam
sobrevivem aos tique-taques
e às penosas mudanças
que chegam com as estações
o frio
a secura
o calor
a umidade
a permanecer ali
enquanto a lamparina
sustenta promessas
e preces
diante da criança
calada
e triste
com um resto
de horizonte
nas mãos.

domingo, março 26, 2006



PRECE
sob a lua, solta
mariposas
e bichos da mata
assombram
o espantalho
que no menino
criou raízes

domingo, março 19, 2006


Felicidade.
Você pode tê-la?
Senti-la?
Digeri-la?
Ruminá-la?
Trata-se de especulação, somente.
Estou no meio da tarde e é domingo e você nunca esteve aqui
[meus livros e discos sentem falta das tuas imaginárias impressões]
Estou projetando algum sentido neste vazio desocupado de ti
[minha redenção alcança o ponto mínimo nas madrugadas, distantes]

Felicidade.
Você pode sabê-la?
Reconhecê-la?
Habitá-la?
Percorrê-la?
Trata-se de um homem só, silente.
Estou a traçar planos de escape e álibis e verdades desossadas, é isso.
[cheguei um pouco tarde, a chuva já tinha passado e Belém respirava sem mim]
Estou a simular o teu sorriso esparramando vida nos meus olhos, tristes
[minha insensatez prolifera sonhos quando a dor me rouba as tuas cores]

Felicidade.
Você pode suportá-la?
Sustentá-la
Alimentá-la?
Sobrevivê-la?
Trata-se de um caso único, eu.
Acolchoando as paredes eu isolo o mundo lá fora e deixo tudo menor do que o é.
[sobras de sentimentos percorrem as linhas do meu destino na contramão]
Adormecendo os girassóis não precisarei das tuas manhãs clareando meus dias.
[sou um espantalho fincado no centro desta ciranda esquecida no tempo]

quarta-feira, março 15, 2006


Todos os dias, silêncio.
A porta do quarto
As páginas dos livros
Os pares de tênis
A lâmpada fluorescente
As estantes de madeira nobre
O rodapé empoeirado
Tudo em silêncio.
*
E havia a calma
Pesando sobre nossos ombros
A calma feita da ausência
A calma feita dos desejos
Dobrados
E guardados
Ao avesso.
*
Maldita calma-mendiga
Maldita calma-fragmento
Maldita calma-murmúrio
Maldita calma-descrença
Maldita!
*
Todos os dias, silêncio.
O sufoco crescente
O vazio perturbador
A insignificância dos gestos
A frieza do hábito
Daquilo que antes era amor
Agora de todo enterrado.
*
Havia mil
desculpas
Espalhadas pelos cômodos da casa
Havia álibis risíveis
Acumulados feito gordura
Entupindo a felicidade
De quem amanhecia com as auroras
Havia mentiras fossilizadas
Atando um nó na garganta
De quem até ontem sonhara

[os gritos estancaram nas rachaduras do medo
os gritos afogaram as primaveras que viriam
os gritos amortalharam a esperança
os gritos nos deixaram completamente sós
presos ao que jamais deveria
conosco ter sobrevivido]

domingo, março 12, 2006



Vento,
Escuto teus deuses no meu peito
E mesmo assim estou só.

Vento,
Assobias meu destino nas janelas
Mas eu não sei escutar.

Vento,
Leva minhas dores embora
Que eu juro nunca mais sonhar.

Vento,
És quem escapa pelas ruas estreitas da minha cidade
És quem adormece nas velhas mangueiras da minha cidade
És quem sobrevive aos olhos esquecidos da minha cidade

Vento,
Acolhe na tua grandeza embravecida
O meu império de um só
E crava no teu silêncio sem peso
As manchas da minha alma errante

Vento,
Ouve meus cantos
Aninha minhas preces
Que eu te ensino a ser criança
Que eu te ensino a cirandar

quinta-feira, março 09, 2006


Era pirilampo
não era visagem
que do céu recortava
pedaços miúdos
de alegria

[toda vez que a dor chegava
toda vez que a vida cansava
pirilampo era sonho
um sonho bom que crescia]

*

Era Mãe-d’água
chamando tempestade
que dos bichos da mata
encharcava a alma
de magia

[com os encantos da noite
no coração do menino
cantou –se cantiga
sonhou-se poesia]

*

Era pedra de rio
secando o pranto
do homem que chegava
diante do menino
que pra sempre partia

[adormeciam estrelas
na lonjura do peito
sumiam estrelas
na fundura do dia]

sábado, março 04, 2006

sexta-feira, fevereiro 24, 2006



FRAGMENTOS DE BREVIDADE E SILÊNCIO
FRAGMENTO UM
A RETIDÃO DA SAUDADE SILENTE
Soltei um grito abafado
incapaz de interromper a velocidade
das cores que cresciam por dentro
espalhando incoerência nua
sobre a minha pele
- o peso das derrotas; o torpor do esquecimento -

Quando você te levou daqui
anjos desabrigados
e manjedouras abandonadas
passaram a velar o vazio da ausência
alargando os limites corroídos da dor
- essa dor que não ecoa; essa dor limpa demais -

*

FRAGMENTO DOIS
UM RABISCO EM NANQUIM ACORDA AS ESTAÇÕES
Na primavera do cansaço
todas as janelas e portas
encerravam o ato enfadonho
de estar contido em mim mesmo
e esquecer as fronteiras do adeus
– minha própria queda; meu abismo sendo alimentado –

No inverno da dormência
eram frestas e rachaduras
a murmurar brincadeiras entristecidas
emolduradas pelo medo
de estar caduco de mim mesmo
- minhas feridas cauterizadas; meus lampejos fossilizados -

*
FRAGMENTO TRÊS
RUPTURA ESCALONADA
- BREVIÁRIO DO POETA INSONE -
Eu
jurei diante de deus.
jurei com fé
jurei de joelhos
jurei em vão

Eu
escrevi teu nome
com meu próprio sangue
escrevi teu nome
soletrando meu destino.

Eu
provei da felicidade
invadi-me da paixão
acovardei-me do amor
e sepultei-me do amanhã.

*
FRAGMENTO QUATRO
EPÍLOGO EM DOIS TEMPOS
TEMPO QUE CHEGA
Sou insone
Logo mais vem a noite
E ao meu triste olhar
Caberá das auroras
Amputar girassóis

Sou insone
E voltaram as cores
As mesmas cores
Que não sabiam sorrir
Que não sabiam da chuva
E que cresciam por dentro.

*
TEMPO QUE FOGE
O amor
quando visto por dentro
é tão somente
uma tolice fantasiosa
uma conjunção pegajosa
uma estória banal e mal contada
uma promessa infundada
um único suspiro
que nos encanta
e nos faz crer
pra depois
partir.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006



Tanto houve mãe, naquilo que nos restou.
Somos pedaços de sombras perenes
[desertas, frias e mudas]
Tanto houve mãe, naquilo que se passou.
As páginas do livro foram lidas ao contrário
[amargura, dor e cansaço]
Tanto houve mãe, naquilo que em mim não calou.
Saudade-sorriso no coração do menino
[quieto, sozinho e poeta]

domingo, fevereiro 12, 2006



CANÇÃO EM TRÊS LAMENTOS

LAMENTO PRIMEIRO
- AQUILO QUE VEM COM AS MANHÃS -

Um grito engolido
pausadamente
faz da tua carne
escritura-sepulcro
[anúncio das manhãs trajadas de cinzas]

Abertas dentro dos olhos
há janelas sem alma
sem vista e
sem ar
[lampejo de insone azul-deserto]

Aos ossos coube
o peso de seguir vivo
na feitura
do homem-rascunho.
[escapa à alma a ternura diminuta do roxo-poente]

Aos músculos coube
sustentar a lucidez
no limiar
do homem-farrapo
[fica na alma a quietude incômoda do branco-abandono]


*


LAMENTO SEGUNDO
- AQUILO QUE PARTE COM A CHUVA -

Um sorriso sedimentado e
um punhado
de moedas
são-te fronteiriças
[o humor do teu deus é raquítico,
recusa a fartura do riso e da dor]

A esperança mastigou teus medos e
na tua face
escarrou
anjos desbotados.

A esperança maquina felicidade e
secreta
imaculados
fluidos pegajosos.


*

LAMENTO TERCEIRO
- AQUILO QUE NOS PERPETUA -

Espantalho,
ainda ontem
te vi sentado sobre a grama
enquanto chuviscava
- teus dedos em vão tentavam te devolver às auroras -

Mas murcharam os girassóis e
já não há mais música
embalando o eu-menino
preso ao tempo
que não te leva embora
deste carrossel,
entristecido
a
girar.

Espantalho,
já é noite lá fora
escuta os bichos da mata
e os abraços do rio
que nina o sonho ribeirinho
[é hora de adormecer e recobrar os teus cânticos e a tua fé]

Espantalho,
descansa teus girassóis
tuas cantigas e teus ruídos
pois o frio-poesia saberá te despertar
quando a dor tiver passado e
a angústia alcançado
as trilhas do fim.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006



O grito engolido pausadamente em frente ao espelho – a delimitação do espaço; o remoer do enredo; a estética do vazio. A carne, embrutecida por anos e anos de mudez e retidão, já não é capaz de responder às tuas súplicas e tu bem sabes que orar é ineficaz nestas horas.

[lembras da tua mãe e das intermináveis dores de cabeça que a assolaram até a morte;
lembras dos sorrisos que ficaram pra trás,
distantes do toque da memória;
lembras que a vida se prometia eterna
quando as estrelas cadentes brincavam de sonhar
nas tuas noites de menino]


Teus olhos vagueiam sem olhar ao que fica e ao que vai – é a vitória do nada.
Tens mãos ressequidas e desprovidas de horizonte – é o júbilo da expiação.



Está tudo aqui, nesta madrugada encharcada e úmida – teus soldados de chumbo; tua colcha de retalhos; teu chapéu azul. Existe a tela d'um monitor crivando o que escapar à dor, tua frágil e irrisória sensação de alívio. O gosto amargo da alma desossada é aquilo que a solidão te reserva quando a esperança vomita lucidez nos teus orifícios. A lucidez a te invadir. A lucidez acreditando em ti.

[lembras dos rostos repentinamente vazios que passaram a te habitar a
ossada;
lembras do aviãozinho de papel que ganhou o azul do céu,
pra inalcançável não mais voltar
lembras que a primavera tinha o rosto de deus
quando o sol em segredo te disse
que toda dor iria passar]


Existem rumores de que você sonhará cata-ventos – é a ressurreição do espantalho.
Existem cochichos de que você trará os girassóis de volta – é a sagração da infância.



Homem feito de sobras,
as paredes do campanário
devoram o medo
e mortificam os passos errantes
da purificação

- é preciso limá-las
as paredes
lenta
e
pacientemente
para enfim
ser possível
alcançar
o lado de lá -

domingo, janeiro 29, 2006


janeiro tem um peso – o despertar das auroras desejosas de
felicidade,
emparedadas confusamente dentro do coração.

janeiro tem um fardo – a distância rareando o nosso amor de
chuva,
aninhada secretamente no azul ruidoso do amanhã.

o preço

o peso

o fardo


[ janeiro a tudo
deslinda
e depois costura
quando menos esperamos
com precisão
impecável
janeiro a tudo
permite
e depois cobra
na hora exata
quando é impossível escapar ]

segunda-feira, janeiro 23, 2006


é segunda-feira e custa a amanhecer em belém – meus fantasmas prolongam o ciclo das estrelas [arrastam âncoras feitas de amargas lembranças e fazem da lua um semi-círculo decadente e tristonho]

dói-me a alma num lugar que não consigo alcançar – de nada adiantam cortes cirúrgicos ou as orações ensinadas pela minha mãe [por aqui, vagam falsas impressões besuntadas de culpa e redenção]
espantalho, surpreendo-me com a crueza indisfarçável do teu abandono e colo nas retinas os momentos nos quais fui feliz [metade do que descubro sangra poesia, enquanto emudece em sofreguidão aquilo que em mim não sabe dos anjos, o olhar]

quinta-feira, janeiro 19, 2006


as memórias,

em prece

vasculhando-nos a mudez estanque

dos ossos

- ontem, éramos meninos brincando na rua;

hoje, esquecemos a cor da chuva –

[fugiram-nos os segredos do sol poente]

sexta-feira, janeiro 13, 2006

pro carlos besen,
num alvorecer
esta é a forma original, nasceu assim em mim e assim foi vomitada, mas eu não sabia como postar. a valéria achou a solução. obrigado!

quinta-feira, janeiro 12, 2006


pro carlos besen,
num alvorecer
as andorinhas

são todas

m e r g u l h o

o céu não lhes basta

querem primaverar

os meus

s o n h o s
de menino

segunda-feira, janeiro 09, 2006





LONGE DO CÁRCERE, DAS ASAS UM SONHO.

ao celso, com carinho.


a duração do último sopro nos mastiga a alma, a sanidade, os músculos, a solidão e os ossos, sem a menor pressa [nossos sonhos não têm ponteiros, limita-os a dor]
fazedores de palavras, nadamos nus na brancura da lua esquecida de si no olho desse rio de águas barrentas [há versos que escapam da inveja de deus e só a nós pertencem, de todo azuis]

o triunfo do silêncio que roubamos da corte do velho rei escarlate -
a sagração dos espantalhos!

quarta-feira, janeiro 04, 2006



CANTIGA DAS VOZES BRANCAS
- NICOLAS, O QUE NÃO SABE FALAR -





não há mais bosque

na minha rua

nem mesmo anjo
há

solidão

domingo, janeiro 01, 2006



eu abri todas as gavetas. eu sangrei todos os fantasmas. eu expus todos os medos. meus demônios, os acariciei com respeito. as palavras, expulsei por completo daqui – não as quero e delas não preciso mais. trouxe meu deus cinzento e trouxe as imagens que estavam amotinadas nas minhas retinas insones. trouxe a mobília e os talheres e as quinquilharias que desocupavam o vazio. trouxe as virtudes que fracassaram e trouxe os planos que pintei em nanquim quando me permiti crer em sonhos. eu trouxe tudo de volta só pra amaldiçoar este ano que termina como ano algum terminou. maldito seja você, ano de dois mil e cinco. maldito seja por todos os anos que me pertencerão.

sim, eu amaldiçôo pra todo o sempre esse ano tingido por cores mortas, esse ano escrito em páginas brancas e frias, esse ano que arrancou de mim pessoas que tanto amo, esse ano que brincou com os ponteiros do relógio da minha cozinha e fez tudo mais arrastado. maldito seja! ano de horas encharcadas pela dor. maldito seja! ano cindido em doze pedaços iguais dum mesmo e amargurado lamento. esses olhos magros que por aqui estiveram, essas verdades descalcificadas, essas vozes, essas paredes, essas felicitações embrulhadas pra presente, essas pessoas que crescem corroídas pela inutilidade como insetos diante da luz – caduquem vocês na paz deserta do paraíso que lhes foi concedido.

no ano novo que agora se esparrama diante de mim, eu terei a felicidade que nunca pertenceu a dezembro. eu terei a chuva dos fins de tarde, o sol, a lua e as estrelas-cadentes e também as águas do rio da minha cidade que brota no meio da selva. eu terei os anjos descalços que esqueceram as mentiras e resolveram brincar. eu terei os sorrisos que me foram amputados. eu terei a fé que me foi mastigada e depois cuspida pro alto. terei as cantigas de ninar outra vez no meu peito e o carinho da minha mãe nos meus dias de solidão. terei os ruídos que medroso escondi no baú. as contusões da minha alma e os teus olhos castanhos, menina dos meus sonhos azuis, eu os terei enfim.
poetas de coisa nenhuma, poetas de vestes amarrotadas e sujas, vocês que me alimentaram na fome e na demência deste ano por mim amaldiçoado e que hoje ficou pra trás, vocês que me salvaram das madrugadas onde nada mais fazia sentido a não ser doses volumosas duma esperança débil, rancorosa e capenga - poetas de mãos e têmporas fortes, de hoje em diante eu vos saúdo e os desafio a dizerem ao mundo que eu sobrevivi impune a esta farsa mundana que eu mesmo inventei, que eu sobrevivi aos pedaços, que eu sobrevivi mesmo que atabalhoado – mas sobrevivi sem culpa e sem pedir perdão. eu sobrevivi a tudo. a tudo eu sobrevivi. e comigo, a alvorada de girassóis que eu busquei em breton.

quarta-feira, dezembro 28, 2005


pai,
esses anjos tão lúcidos,
deixa-os aqui.

esses anjos tão limpos,
deixa-os aqui.

esses anjos mudos, esses anjos tenros, esses anjos que velam,
esses anjos que guardam e protegem,
deixa-os aqui.

pai,
deixa-os aqui, os anjos
deixa-os aqui, comigo

pois lá fora as auroras já sonharam
e eu preciso de um pouco de paz.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

DEZEMBRO EM CINCO PEQUENAS VARIAÇÕES

I RENASCER

acordei esquecido, hoje é um daqueles dias do décimo segundo mês nos quais o que menos interessa é a ordem correta dos talheres ou o ar quente que o ventilador devolve no meu rosto inexpressivo de homem inexpressivo e absolutista que não se permite chorar e que goza gozos invertidos na palma da mão direita. basta uma olhadela pra constatar que lá fora as pessoas exibem orgulhosamente o repertório de dezembro – felicitações, paz, saúde, harmonia e sorrisos. muitos sorrisos. sorrisos por todos os lugares até mesmo nas crianças escondidas nas calçadas mortas de fome de medo de indiferença de desamor e de razão [a razão nos mata a todos, mais cedo ou mais tarde]


II BLASFÊMIA

as pessoas são amáveis e gentis umas com as outras quando chega dezembro. quando dezembro chega as pessoas realmente são boas umas com as outras – essa bondade cristã que coloca as mãos em nosso pescoço e diz
seja feliz assim mesmo. essa felicidade imposta. essa bondade tingida de branco que repete a mesma estúpida canção a manter-nos a infância em estado vegetativo - ela não levantará desse leito, vocês não conseguem ver? maldita seja a bondade dessas pessoas boas e asquerosamente bem-nutridas. maldita seja a bondade que persiste na mentira de que tudo é possível de que tudo é tão bonito de que somos todos irmãos e que somos todos filhos de um deus amável onipresente onisciente onipotente deus da benevolência e do perdão – esse deus não acredita em mim esse deus não acredita em ti esse deus não acredita em nós esse deus se diverte enquanto dormimos enquanto nos fudemos de todo enquanto mendigamos por amor enquanto apodrecemos nos leitos das nossas mortes ainda vivas e inválidas.


III ESCÁRNIO

acordei esquecido e pouco importa todos os passos que dei todas as frases que pintei todas as amarguras que digeri e todos os anjos que vomitei [no céu da minha demência os anjos ainda sabem sorrir, meus anjos retirantes que desenham chuva] hoje é mais um daqueles dias intermináveis dum dezembro que sempre sempre sempre é o mesmo dezembro [um dezembro embrulhado pra presente e que faz da gente um sopro um suspiro um risco de giz num quadro negro numa sala de aula que só ensina rancor perdas e fingimento]


IV ALMA

felicidade! desgraça de felicidade natalina feita de isopor e de tinta fresca prestes a ser manchada. dezembro é um mês mentiroso feito da mentira mais açucarada, feito da mentira que borrifa litros e litros duma fraternidade esclerosada mantida viva às custas de esmolas e esperança. dezembro é um mês feito de cinzas – as bocas que devoram dezembro são banguelas, os cus que defecam dezembro são desalmados, os olhos que refletem dezembro são opacos, as mãos que velam dezembro são trêmulas e vivem suadas. dezembro é só mais um mês de trinta e um dias. não há escape da solidão não há acalento nem porcaria alguma. dezembro! dezembro! dezembro! dezembro! maldito seja todo dezembro porque minha mãe não está mais aqui e minha tia e meu avô e minha avó também e meus brinquedos também e as estrelas-cadentes e os vaga-lumes e os abraços que eram de verdade e a neve que era de mentira e a paz que me fazia dormir tudo isso nunca mais, nunca mais, nunca mais estará aqui [eu tenho fotos, fotos dos que amo, algumas fotos, mas fotos são arremedos, fotos são instantes perdidos que ficam na gente só pra aumentar aquilo que nos corrói]

V COMUNHÃO

trinta e um dias inscritos nos músculos. trinta e um dias e mais alguns segundos quem sabe minutos pra que tudo recomece. trinta e um dias – dias que continuarão aqui quando tudo tiver partido, quando eu tiver partido e as cidades continuarem iluminadas e as pessoas, outras pessoas, prosseguirem na crença de serem felizes de fato. dezembro é um mês curto quando amanhece e infinito quando chega a noite. dezembro é um mês que nos suga a alma e escarra a carne. dezembro é um mês torto, um mês enrugado. dezembro é um mês sem cor em meio a tantas cores. dezembro é um mês cirúrgico [o corte preciso a expor toda a dor que precisa ser anestesiada] dezembro é um mês que nos oferece dádivas sem querer nada em troca. dezembro é um mês hipócrita. dezembro é um mês feliz e triste, diferente, bem diferente da felicidade e da tristeza dos demais.

terça-feira, dezembro 20, 2005

deus não é gentil nem bondoso. deus esquece e confunde. deus não fala em voz alta. deus sua nas axilas. deus é incapaz de desnudar seus pecados diante de nós - deus peca feito um bicho qualquer.

deus afaga meus cabelos quando quer atenção. deus esmigalha meus ossos quando se curva às minhas virtudes. deus é irredutível. deus é vulgar e bonachão – deus se faz de surdo sempre que oramos, e sorri.

deus embaralha destinos sobre a cama. deus nos quer de joelhos. deus espera que apodreçamos em febril devoção. deus não foi batizado. deus não foi registrado – deus brinca de ser o nosso redentor.

deus é um rosto desfigurado pelo tempo. deus é uma frase mal dita em meio a tanto barulho. deus é intranqüilo. deus é uma pena prescrita. deus é um lamento reciclado – deus lança a sorte e vicia os dados.

deus é um rascunho. deus é auto-suficiente. deus é arrogante. deus é esnobe. deus é minha falsa medida. deus é abobalhado. deus é detestável e pueril – deus nunca foi pai e não soube ser mãe.

deus é meu testemunho mentiroso. deus é aquilo que me escapa nos sonhos. deus é o que me falta quando a dor chega. deus sobrevive às velas e aos túmulos – deus adultera as marcas azuis da solidão.

deus apaga estrelas equilibrado sobre pernas-de-pau. deus finge clemência quando quer reverências. deus é cínico e mal-humorado. deus é frágil. deus é mal-alimentado – deus tem medo daquilo que não sabe.

deus esconde a idade. deus disfarça as fraquezas. deus tem mãos trêmulas. deus não sabe dormir em silêncio. deus acorda assustado. deus cheira mal e rói as unhas – deus coleciona moedas enferrujadas.

deus me desconhece. deus me entristece. deus me faz a alma pesada e sorrateira. deus equaciona meus destemperos e corrompe meus vícios. deus obscurece minhas auroras – deus é meu fingimento e meu desamor.

deus sabe onde eu moro. deus me cumprimenta pelas ruas. deus estipula valores e calcula seus lucros. deus obturou todos os dentes. deus não planta girassóis – deus um dia acordou e gostou do que viu.
deus escreve comigo suas linhas tortas. deus guarda mordaças no fundo dos bolsos. deus confunde as cores e pinta aquarelas. deus é destro. deus é covarde e ardiloso – deus sou eu na minha lucidez.

domingo, dezembro 18, 2005


é preciso fixar-lhe o centro, atar-lhe os nervos, dar-lhe um nó na garganta do grito. é preciso mesmo velar os espelhos que tombam ao tempo, numa procissão de corpos encharcados pela apatia do mesmo, sempre o mesmo, dia após dia. é preciso que as portas sejam suficientemente pesadas para não haver escape – nem da claridade do sol, nem da intensidade da lua. é preciso deixar o menino sozinho no seu canto. longe de tudo. longe de deus e dos anjos. longe das sombras que crescem debaixo da pele e das feridas que assolam a alma. é preciso deixar o menino sozinho. longe, bem longe da dor.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

aos trilhos e trens, sobrevivemos nós, atravessando nossas trilhas de estreitezas e alargamentos - trilhas escritas na carne, estreitas; trilhas nodulares da fuga, largas; trilhas descabidas da paixão, estreitas; trilhas lineares da razão, largas [a régua das medidas está guardada numa caixa de sonhos que segue viagem entre os vagões] sim, há lapsos de memória nos lembrando quem somos – do pó que viemos quero a mentira vestida de deus. há sopros de restos de trapos de ontem incrustados nos sorrisos que sorrimos diante do que hoje nos parece lucidez – quero o murmúrio das chuvas em plena praça saudando meus pecados. aos trilhos e destrilhamentos dessas trilhas da vida da gente, celebro eu uma canção atonal de mim mesmo – manchada de sêmen, de sangue, de vinho e de dor.

segunda-feira, dezembro 12, 2005


saiam tirem levem essas vozes daqui! eles estão todos mortos eles estão todos tortos eles não voltam mais eles não descansam em paz eles não pertencem a esse lugar eles ficaram trancados naquela casa naquela sala naqueles corredores naquele tempo que nos fez tão felizes e depois foi embora sem dizer até outro dia. malditos sejam! malditos são! malditos, mil vezes malditos e suas vozes que só a mim dizem como se eu fosse o único passível de saber desses cânticos que jazem no lado de lá da noite [visível e afável, mentiroso e perverso, adoecido e eterno]
por que me cercam de paredes se as paredes não sabem sonhar? por que me banham dessa água se eu já deságuo estrelas e vaga-lumes e papoulas? por que me queimam a carne se eu sou das cinzas o futuro?
eu sou meu deus e sou um deus de merda eu sou um deus disfarçado eu sou um deus invertebrado eu sou um deus angustiado eu sou um deus que esqueceu que era espantalho e ousou sorrir [rasguei páginas em branco e tranquei as portas do meu paraíso – sou meu próprio juiz e sentencio eu mesmo a dor das minhas torturas vorazes]
eu sei dos segredos paridos eu sei dos presságios malditos e sei dos bem-aventurados as mentiras que nos velam os sonhos. eu sempre soube antes mesmo da última ceia ter sido servida antes mesmo do último trago ter sido roubado e do último gole ter sido bebido como quem bebe da própria alma a salvação – para sobreviver era necessário depositar a minha sanidade numa instituição qualquer desde que pintada de branco e sem cheiro de nuvens e vestir minhas tardes chuvosas e mastigar minhas hóstias de medo e me ver livre de tudo me ver livre de tudo me ver livre de tudo e de tudo extrair um fim que coubesse em si mesmo que aparasse todas as arestas e pontuasse todos os mínimos detalhes do que eu seria enfim. e eu aceitei e aceito eu aceito sim tudo o que me for ditado tudo aquilo que for imposto tudo aquilo que me for enfiado goela abaixo. eu me subestimo eu imploro e eu rastejo e eu lambo os teus pés pra me ver livre dessas vozes. eu quero abortar meu batismo eu quero agonizar meus demônios eu quero o cheiro imundo das ruas imundas e das putas sofridas dum cabaré deserto de álcool pecado e gozo.
eu não suporto mais ouvir essas vozes elas não cabem mais em mim elas não têm paradeiro elas não têm ambição elas não permitem um instante sequer de trégua e de amor. eu não consigo mais ouvir esses terços murmurados com devoção pontualmente às dezoito horas eu não consigo auscultar meu coração ser um eco do que as memórias simplesmente ignoram eu não consigo recolher os nacos daquilo que me escapou depois do último pesadelo interrompido pela sensação de que o ar me faltava e o chão era fundo demais pra ser alcançado.
saiam daqui! sumam de mim! por todos os anjos descalços por todos os palhaços sem domingos por todos os instantes que me sobram e por todas as vidas que eu não viverei sem ti eu imploro por paz eu imploro por silêncio eu imploro por um único amanhecer sequer a me devolver aos girassóis esmigalhados na tela dos meus dias de primavera e de brinquedos espalhados anarquicamente pelo chão do quarto que ficou preso num tempo azul que a mim não pertence mais.

quinta-feira, dezembro 08, 2005


a água,

feita da mudez dos deuses

dá vida às pedras

que toca no caminho

antes do sol

antes do sol

segunda-feira, dezembro 05, 2005


dezembro passado escrevi imagens dia após dia, sem parar, não dando trégua ao que me consumia as tripas. havia tristeza e desamor nas minhas células de nada – minha estranha imersão na água que escapa às pedras. hoje, ao acordar, percebi que outro dezembro chegara e eu não passo de um homem lúcido e silencioso, um homem dissipado na ausência das emoções que me são caras, um homem acomodado entre as paredes deste quarto isento de cheiros [ toda assepsia nos esmurra o rosto já perto do amanhecer] um homem beirando a calvície [o tempo me é implacável quando rouba de quem fui a beleza]
hoje, acordei desgastado como um osso que não escapou ao cachorro vira-lata. incômodo, um fiapo de manga preso entre os dentes amarelados. desprezível, pedaço de unha cuspido no chão do quarto. hoje, dezembro espalmou minhas mãos diante de mim e eu pude ver todas as linhas em carne-viva, mendigando por quem não sou, rastejando por quem eu fui, me humilhando por não ter sido. as ressonâncias dos assombros que agora ressurgem atravessam meus escrúpulos sem pedir licença, cavando um abismo que me será refúgio e imensidão [por aqui, nada de novo. nada mesmo]

quinta-feira, dezembro 01, 2005


você não avisou que era o fim. o quarto estava cheio do que nos faltava e ainda era cedo demais pro depois – a madrugada se recusava a aceitar o sol. e você saiu, deixando páginas escritas e palavras soltas pelo chão. você saiu e a mobília ficou, como ficaram também as xícaras esperando o café-da-manhã e as horas sem sentido que me perseguirão a cada volta dos ponteiros daquele relógio antigo que compramos num imaginário relicário europeu. as marcas na pele e as frestas dos desejos e os detalhes obscurecidos da dor. tudo, tudo isso ficou. era preciso um aviso, um bilhetinho, um rabisco qualquer, você deveria saber disso – escrito em azul que é pra não escapar da solidão. você tinha que ter deixado alguma coisa comigo, alguma coisa de sangue, de saliva e de ar. deixado um adeus que não fosse feito de palha desta palha que me ocupa os órgãos e que me estaciona bem no meio da mais árida das estações. era preciso um aceno e um copo de vinho tinto, o último. era preciso drama e paixão, daquela paixão que dilacera e faz da carne hospedeira. qualquer coisa, uma coisa qualquer que não essa indiferença muda que me acaricia os nervos e me dignifica o estado patético de ser lúcido até os ossos, quando eu deveria mesmo era ser um louco a pichar teu nome pelos quatro cantos do meu império rastejante e completamente viciado no vício extremo de ti.

segunda-feira, novembro 28, 2005


estão sempre por perto, essas pessoas de olhos magros. nas ruas desertas, são elas que chegam e levam embora a demência que nos era companheira fiel e faminta. nos dias onde o calor provoca irritação e raiva, são elas as que riem escondidas atrás das portas, covardes e bondosas como todo bom cristão [amaldiçoadas sejam!] sempre esperançosas. sempre prestativas. sempre atenciosas. sempre por perto a sugar até a última gota do nosso desespero. e ficam ali. ficam aqui. ficam por todas partes. esperando pacientemente enquanto desfiam nossos cérebros com dedos de médicos envelhecidos e ausentes. esperando pacientemente, como se fosse a única coisa a fazer, como se soubessem que o amanhã será abatido pelas suas vozes veladas – vozes decompostas em sessenta cânticos, um pra cada volta do ponteiro, num ciclo sem fim a nos regular o humor, o comportamento, os usos, os costumes, as virtudes, as paixões, os lamentos, a dor, a solidão, os vícios[nada lhes escapa] pessoas assim são um teto escuro, dum céu escuro, duma vida engasgada entre os sonhos e as mentiras. seus olhos magros não têm fundo nem horizonte. não têm sangue nem alma nem pele nem brilho nem musculatura nem ódio nem sinal qualquer de emoções. não têm nada e de nada são feitos, estes imensos e incorruptíveis olhos magros que na dobradura do tempo esperam ansiosos por mim.

quinta-feira, novembro 24, 2005


é de dia que minha carne alimenta todos os rostos anônimos que vivem em mim – meus demônios silenciosos, incomodamente silenciosos. e quanto mais a manhã acalora as ruas e suas pessoas revestidas de felicidade, mais de mim rouba o horizonte – entrega-me um futuro escrito em letras mudas e sem mãos; um futuro infestado de cores higiênicas demais, ausentes demais, indiferentes demais, exatas demais, resistentes demais, virtuosas demais,

l
ú
c
i
d
a
s

demais. não, não há nada, nada que se compare aos primeiros raios do sol invadindo o meu quarto e me fazendo lembrar das próximas horas a serem riscadas do meu calendário de um ano só calcificado em doze partes – horas marcadas num relógio feito duma descrença viva a crescer desordenadamente após cada tropeço meu.

é de madrugada que a carne, a maldita carne me inunda de desejos e me faz querer sempre tudo de ti, sempre mais e mais da perversa embriaguez dos teus sentidos, da selvageria nua dos teus instintos, dos pecados delirantes dos teus fluidos; mais das tuas ancas e seios, mais dos teus pêlos e pele, mais dos teus lábios e nuca, tudo assim, exageradamente demais, desmedidamente demais, freneticamente demais,

d
e
s
p
u
d
o
r
a
d
a
m
e
n
t
e

demais. não, nada é tão verdadeiro quanto os meus segredos postos, as minhas cartas marcadas, os meus amanheceres selados pela tua presença dentro de mim – patético e furioso, batizado pela chuva miúda que desce pelos tetos desta cidade deserta, sou um homem convulsivo e viciado em ti. rastejo aos teus pés abaixo de cão.

segunda-feira, novembro 21, 2005


PEQUENA CANÇÃO PRA TI - é tempo de mergulhar nas paixões sem ligar pro que virá – sentir um frio na barriga e o coração sem freios. é tempo de beijos e arrepios e silêncio [aquele silêncio que os olhares só nos sabem falar quando assim, terrivelmente apaixonados] é tempo de sonhos com gosto de sonho azul do azul leve como nuvens de algodão-doce – você lembra desse azul, não lembra? é tempo de estrela-cadente e fada-madrinha, de carinhar de mãe e cantiga- de- ninar cantada suave, bem suave, feito adormecer de criança no berço – toques assim, pequeninos e que desejamos eternos; toques de fazer a gente ser gente, de fazer de novo acreditar [nada pode ser maior que um toque, whitman] sim, é tempo de nós dois e de mais ninguém, porque ninguém mais sabe disso tudo que nos rouba o ar quando não estamos juntos, que nos estrangula as horas quando não estamos perto, que nos tranca por dentro quando não estamos conosco – sim, da nossa paixão sabemos nós e que se dane o resto! então bóra, vem comigo trazendo apenas o sangue dum tango antigo e as risadas invertebradas dum delírio artaud-bretoniano. pega teus sapatos e passeia teus passos nos meus mundos, que eu caminharei os sapatos meus nos passos dos mundos teus [aos novos mundos que serão só nossos, os nossos pés descalços de água da chuva, os nossos pés calçados de noite cadente, os nossos pés pintados com as cores do outono] vamos então! mergulha comigo, sonha comigo, acredita comigo e nada, nada mais importará; nada, nada mais tropeçará nossos anjos cambaleantes ou nossos deuses bailarinos – nem mesmo o tempo que diz estarmos longe demais do nunca, ou o entardecer que diz estarmos cedo demais do pra sempre – menina dos olhos castanhos que me fazem quem sou, amanhece comigo os teus girassóis.

quarta-feira, novembro 16, 2005



CAIXINHA DE MÚSICA PRA MENINA QUE AMANHECE GIRASSÓIS – eu não soube te alcançar. não me permiti te amar até o impossível. acendi as luzes e destranquei a porta depois que te vi sumir no horizonte. amotinei os barcos de papel que fiz das tuas cartas. mas eu nem sempre fui esse homem mal dito, esse espantalho que rejeita espasmos e se afoga em si mesmo – disso você soube disso bem antes d'eu mesmo quando me olhou nos olhos e azulou minhas auroras entristecidas. você desnudou a farsa que fiz de mim e transformou as poesias que cuspi, os pequenos sóis que amputei e as mínimas virtudes que neguei em canções felizes, em dias felizes, em felicidade cor de anil. fui eu, eu é que insisti em vestir tudo de branco, daquele branco de nuvens que o vento esquece de mudar. mas a felicidade é só um frágil instante que esquece que um dia acabará. um dia tudo acaba antes do fim. um dia tudo muda [as palavras calam como quem conta uma história embalado numa cadeira dentro dum quarto vazio] não, eu nem sempre fui esse homem enraizado na dor, esse falso testemunho, esse tumor no seio da fé – disso você nunca saberá, pois há verdades que eu não possuo. não, eu não tenho mais o tempo comigo [vem e amanhece meus girassóis] fracassei. fiquei emparedado em meio aos meus prazeres de crayon [os mundos que invento serão sempre menores que os teus] isso é o meu jeito de dizer que te amo. isso é o meu jeito de dizer adeus.

domingo, novembro 13, 2005


era fuligem, pequenos círculos soltando-se dentro de mim. era frio e um olhar mais atento deixaria escapar a próxima queda. deus não estará presente. deus não saberá daquilo que sinto. deus não escuta quando o silêncio invade a lucidez dos meus dias de espantalho – é primavera amanhecendo e as cores estão mortas, jazem misturadas à palha do que me é enchimento. estou atado ao teu precipício. nem tão louco, nem tão poeta [sou absorvido por um estado de absoluta descrença que jamais alma alguma alcançará]

quinta-feira, novembro 10, 2005


minha mãe morreu quando eu tinha treze anos. na verdade, não sei se aos treze ou aos doze ou quatorze. não recordo o ano. o mês, abril. dia dezenove de abril. de fato, ela começou a morrer aos meus onze anos ou dez. foi uma morte lenta, arrastada, sofrida, com dores de cabeça intermináveis – até hoje me apavora a simples idéia de sentir dor-de-cabeça. eu era criança e tentava entender tudo aquilo de exames, de médicos, de fé inabalável seguida por uma descrença furiosa. entender o olhar triste embora cheio de amor com o qual a minha mãe olhava a mim e ao meu irmão dois anos mais novo que eu. entender o tempo que parecia rápido demais e levava tudo embora cedo, cedo demais. entender aquele olhar de despedida sem querer dizer adeus. um olhar que dizia jamais, jamais deixarei vocês sozinhos no mundo. jamais deixarei. o olhar da minha mãe.

lembro dentro da minha alma quando numa tarde ela disse a nós dois, no quintal de casa, debaixo do jambeiro florido, que não queria nos dar trabalho e que sofria por estar causando aquilo tudo. nenhuma palavra saiu da minha boca. meu coração sentiu toda a dor do mundo num só golpe. descrença furiosa. fé inabalável. nesta tarde eu inventei um cantinho em mim pra ficar imune. porém, acima de tudo, havia a presença radiante da minha mãe. as canções de ninar. os abraços. os sorrisos. havia amor. havia banhos de chuva e os ralhos que ela nos dava. aprender a tabuada e os afluentes do rio amazonas. aprender concordância verbal e acentuação. eu amava aprender sobre ciências. sobre insetos. meu irmão odiava estudar. preferia brincar, correr, suar, e jogar futebol, no gol. guardo fotos desse tempo. fotos guardam memórias e lugares. mas não cabemos nelas.

não sei qual o dia, mas eu voltava do cinema com o meu irmão e uns amiguinhos do bairro e estávamos todos sorrindo e o céu estava azul e tinha nuvens que brincavam de serem carneiros e tinha o cachorro da esquina que sempre latia e corria atrás da gente quando passávamos de bicicleta. naquela tarde foi diferente. quando chegamos na nossa rua, de longe, pude ver um movimento estranho na frente de casa. eu sabia. eu soube de imediato e caminhei muitos passos infinitos que eu jurei que nunca iriam terminar pra que tudo permanecesse como num sonho. bem antes dos passos alcançarem o infinito, minha tia e minha avó me abraçaram e disseram que minha mãe estava morrendo – em coma, acho que era isso. teria eu dito uma última palavra, dado um último beijo, sentido um último abraço? descrença combalida. fé destroçada. ódio de tudo. e silêncio no coração.

as lembrança que tenho são confusas. parentes orando, parentes dizendo “douglas, fala com a tua mãe, ela pode te ouvir”. “fala com ela, diz que tu a amas”. mas a minha mãe estava lá, deitada, imóvel, no quarto dela que era tão nosso e tão cheio de vida. “fala com ela, ela pode te ouvir”. eu falava, mas as palavras sequer saiam da garganta e eu chorava e as lágrimas sequer escolhiam onde cair e eu via meu pai a ela agarrado em desespero e meu irmão e minha avó e meu avô e minhas duas tias e meu tio e meu primo e via orações serem entoadas e via a tarde ficando poente e a cadeira de embalo estava vazia e eu sentei e quis de volta o meu canto onde nada poderia me tocar. descrença e fé. “fala com ela”. e minha mãe morta. “fala com ela”. e minha mãe sendo colocada no caixão. “fala com ela”. e o túmulo sendo fechado. “fala com ela”. e eu nem pude dizer adeus.

antes do enterro lembro ainda que estava em casa sentado na cadeira de embalo olhando a minha mãe ali, deitada, quando vi o que era a morte. eu pude escutar um suspiro que seria o último. tudo terminou num instante. num único instante. a vida continuava. eu estava respirando e as pessoas tinham movimento e a porta da sala estava aberta e eu apareci no meio da rua e disse pros coleguinhas que minha mãe tinha morrido e fiz questão de não deixar nenhuma lágrima ou emoção aparecer. eu precisava fazer de conta que aquele cantinho onde nada me atinge realmente existia e que logo mais eu seria adulto e a dor passaria. eu precisava ter fé. descrença furiosa. fé inabalável. eu precisava ser forte e encontrar a estrela cadente que um dia me prometeu que a vida seria feliz, que meus desejos seriam verdade, que a morte ficaria adormecida pra nunca mais acordar.
a dor não soube passar, mas muito passou sem retornar. já não habito a mesma casa, já não brinco com meu irmão, não há pão quentinho no lanche da tarde nem o beijo na testa que nos dizia boa-noite. já não acordo cedo pra ir ao colégio e no meu aniversário não há mais o bolo de chocolate com cobertura de chocolate cuja decoração incluía desenhos feitos com os quatro dentes do garfo de cozinha. meu pai está triste, nunca mais foi feliz de verdade. meu irmão está casado e sério. sou adulto e sóbrio. minto verdades. coleciono palavras. invento memórias. rumino perdas e ainda tenho comigo os girassóis da minha infância. só que nada, nada mesmo ocupa esse vazio que ficou, essa saudade de tudo, essa dilacerante vontade de sentir mais uma vez, só uma vez mais o toque, o carinho, o amor, a ternura, a voz, a presença, o sorriso, o sorriso de chuva que sorria a minha mãe.

segunda-feira, novembro 07, 2005




CANÇÃO PRO MEU IRMÃO

- observa o tempo, está a fazer silêncio. algumas palavras sempre escapam, trazendo saudade e uma sensação de incompletude.

- não, nós ainda somos meninos e nossa mãe nos chama pra dentro de casa. Ainda somos felizes e as manhãs têm sol, têm brincadeiras e banana amassada com leite condensado.


- mas, e o tempo? você não percebe? o silêncio nos envelheceu demais, é mentira ainda sermos assim, infância.

- vê meus olhos? vê as cores que minha pele faz vivas? aqui existem girassóis e cantigas de ninar. isso nos mantém vivos e livres da poeira, você não acredita?

- como? aqui faz silêncio, eu já disse. estamos sós neste mundo, cada qual com uma história, cada qual com seus fantasmas. não há telas a serem pintadas. não há abraços a serem dados. não há adeus. não há olá.
nada! nada!

- estamos sós neste mundo?

- sim, completamente sós.

- o tempo.
o silêncio.
as palavras.
a saudade.
a incompletude.

- e a nossa mãe não pode mais nos chamar pra dentro de casa.

sexta-feira, novembro 04, 2005


amanhã,
serei um sopro solto sob o sol
pedaço de mim mesmo misturado ao acaso
um olhar vadio
um terreno baldio
um sentimento calado

amanhã,
serei as asas da graúna dos contos infantis
cortina envelhecida nas falhas da memória
um resto de homem
um pouco de fome
um hematoma, e só

amanhã,
são meus os dias inglórios
as despedidas que não tive
os remorsos que não pude
as manhãs que invento
sóbrio de ti