terça-feira, dezembro 20, 2005

deus não é gentil nem bondoso. deus esquece e confunde. deus não fala em voz alta. deus sua nas axilas. deus é incapaz de desnudar seus pecados diante de nós - deus peca feito um bicho qualquer.

deus afaga meus cabelos quando quer atenção. deus esmigalha meus ossos quando se curva às minhas virtudes. deus é irredutível. deus é vulgar e bonachão – deus se faz de surdo sempre que oramos, e sorri.

deus embaralha destinos sobre a cama. deus nos quer de joelhos. deus espera que apodreçamos em febril devoção. deus não foi batizado. deus não foi registrado – deus brinca de ser o nosso redentor.

deus é um rosto desfigurado pelo tempo. deus é uma frase mal dita em meio a tanto barulho. deus é intranqüilo. deus é uma pena prescrita. deus é um lamento reciclado – deus lança a sorte e vicia os dados.

deus é um rascunho. deus é auto-suficiente. deus é arrogante. deus é esnobe. deus é minha falsa medida. deus é abobalhado. deus é detestável e pueril – deus nunca foi pai e não soube ser mãe.

deus é meu testemunho mentiroso. deus é aquilo que me escapa nos sonhos. deus é o que me falta quando a dor chega. deus sobrevive às velas e aos túmulos – deus adultera as marcas azuis da solidão.

deus apaga estrelas equilibrado sobre pernas-de-pau. deus finge clemência quando quer reverências. deus é cínico e mal-humorado. deus é frágil. deus é mal-alimentado – deus tem medo daquilo que não sabe.

deus esconde a idade. deus disfarça as fraquezas. deus tem mãos trêmulas. deus não sabe dormir em silêncio. deus acorda assustado. deus cheira mal e rói as unhas – deus coleciona moedas enferrujadas.

deus me desconhece. deus me entristece. deus me faz a alma pesada e sorrateira. deus equaciona meus destemperos e corrompe meus vícios. deus obscurece minhas auroras – deus é meu fingimento e meu desamor.

deus sabe onde eu moro. deus me cumprimenta pelas ruas. deus estipula valores e calcula seus lucros. deus obturou todos os dentes. deus não planta girassóis – deus um dia acordou e gostou do que viu.
deus escreve comigo suas linhas tortas. deus guarda mordaças no fundo dos bolsos. deus confunde as cores e pinta aquarelas. deus é destro. deus é covarde e ardiloso – deus sou eu na minha lucidez.

12 comentários:

Claudio Eugenio Luz disse...

Poxa, desceu a lenha! É isso mesmo, nada como colocar os pingos e duvidar sem perder a razão. Como já dizia um certo autor: Se Ele não existisse, tudo seria permitido.
.
hábraços,claudio

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi Douglas!

Passando por aqui...

Abraços do CC.

Topazio disse...

Douglas, cheguei pela mão de um amigo comum. Já vim várias vezes e sempre fico sem palavras perante a força das suas...hoje apenas quero te desejar uma feliz natal e que todos os que pensam um pouco se interrogam sobre o misterio da vida.
Abraços

lazuli disse...

Douglas, hoje não me apetece comentar, nem uma palavra.
Vim para te deixar um abraço.

fernanda g.

Valéria disse...

dia destes, um primo que eu adoro disse isso de Deus sermos nós...eu não sei... eu acredito em Deus, mas eu não sei muito dele não...sinto o mesmo com relação a mim...
um beijo

Carlos Besen disse...

"deus sou eu na minha lucidez"

eu sabia que deus era escuro.

Amélia disse...

Gosto do texto.Mas pelo que tem de humano.Não acredito em nenhum deus, a não ser naquele que alguns de nós se vão construindo para si mesmos.

Dona Estultícia disse...

deus é como ficcção. Talvez a mais estruturada literatura ficcional de todos os tempos. Porrada de fim de ano...Bjo.

Celso disse...

cara, me senti escrevendo isto. muito, muito bom. tem um texto que alude a deus no cárcere, também, dá uma chegada lá.

saudações

Rubens da Cunha disse...

lá pra trás no meu blog eu escrevi um 'eu inventei deus', agora ele se reverbera neste teu texto. muito bom.

marcia cardeal disse...

deus esteve embaixo de minha cama. beijos.

dani carrara disse...

"deus" me tirou do último texto, o que postou (em março de 2010) e me trouxe aqui em poucos cliques.
de lá o silêncio
daqui a vontade de falar.
agora estou relendo o que eu não li.
bjos