quinta-feira, novembro 24, 2005


é de dia que minha carne alimenta todos os rostos anônimos que vivem em mim – meus demônios silenciosos, incomodamente silenciosos. e quanto mais a manhã acalora as ruas e suas pessoas revestidas de felicidade, mais de mim rouba o horizonte – entrega-me um futuro escrito em letras mudas e sem mãos; um futuro infestado de cores higiênicas demais, ausentes demais, indiferentes demais, exatas demais, resistentes demais, virtuosas demais,

l
ú
c
i
d
a
s

demais. não, não há nada, nada que se compare aos primeiros raios do sol invadindo o meu quarto e me fazendo lembrar das próximas horas a serem riscadas do meu calendário de um ano só calcificado em doze partes – horas marcadas num relógio feito duma descrença viva a crescer desordenadamente após cada tropeço meu.

é de madrugada que a carne, a maldita carne me inunda de desejos e me faz querer sempre tudo de ti, sempre mais e mais da perversa embriaguez dos teus sentidos, da selvageria nua dos teus instintos, dos pecados delirantes dos teus fluidos; mais das tuas ancas e seios, mais dos teus pêlos e pele, mais dos teus lábios e nuca, tudo assim, exageradamente demais, desmedidamente demais, freneticamente demais,

d
e
s
p
u
d
o
r
a
d
a
m
e
n
t
e

demais. não, nada é tão verdadeiro quanto os meus segredos postos, as minhas cartas marcadas, os meus amanheceres selados pela tua presença dentro de mim – patético e furioso, batizado pela chuva miúda que desce pelos tetos desta cidade deserta, sou um homem convulsivo e viciado em ti. rastejo aos teus pés abaixo de cão.

13 comentários:

hfm disse...

Gosto tanto da sequência harmoniosa das tuas palavras desenhando quadros poéticos.

cm disse...

cada palavra tem a lucidez despudorada de um vicio....haja chão para esses pés...

Dona Estultícia disse...

Não há nada tão verdadeiramente ficcional do que as palavras... Excelente! Bjos.

Celso disse...

desta vez você se superou, Douglas. Um texto de poesia pulsátil, viva, ansiosa. um primor.

Saudações do Cárcere

Claudio Eugenio Luz disse...

Nada como fazer escorregar pela garganta os sentimentos transformados em palavras.

..
hábraços,claudio

Valéria disse...

"um campo tem terra e coisas plantadas nela. a terra pode ser chamada de chão. é tudo que se vê, se o campo for um campo de visão"(Arnaldo Antunes)
Assim que li teu texto este texto me veio à cabeça.. não sei bem pq...mas foi assim...
um beijo

Rob disse...

Realmente tens um ótimo blog....ele taca no meu ponto mais fraco,eu nunca soube fazia um simples verso,uma prosa que se preze......=[[[[
hauahuahu,até!!

Betty Branco Martins disse...

Olá Douglas

O teu texto é poéticamento muito forte... Amei!

As palavras sobem as escadas
Entram pelo buraco da fechadura
Metálicamente azuis, esfarpadas
Caem num copo vazio, cheio de amargura

Palavras sufocadas, entre língua e um céu
Acorrentadas, anseiam o mar, qual caravela
De medos vestidas, disfarces em rostos de véu
Assemia, grito que se apaga, na luz duma vela

(Betty M)

Um beijo

marcia cardeal disse...

profundezas. intensidades. girassóis de van gogh girando lúcidos demais no teto do sol a pino. poesia e paixão a pino.beijo.

Fernando Rozano disse...

Fantástico, Douglas, todo ele. abs.

Poesia Portuguesa disse...

A profundeza das palavras no seu todo... Gostei de ler-te!

Abraço e bom fim de semana ;)

morphine disse...

muito,muito bom,D.!
depois que li, pensei nas palavras do Kafka: "Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam (....) Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós"

leila disse...

Texto que corre nas veias. Beijo.