quarta-feira, março 15, 2006


Todos os dias, silêncio.
A porta do quarto
As páginas dos livros
Os pares de tênis
A lâmpada fluorescente
As estantes de madeira nobre
O rodapé empoeirado
Tudo em silêncio.
*
E havia a calma
Pesando sobre nossos ombros
A calma feita da ausência
A calma feita dos desejos
Dobrados
E guardados
Ao avesso.
*
Maldita calma-mendiga
Maldita calma-fragmento
Maldita calma-murmúrio
Maldita calma-descrença
Maldita!
*
Todos os dias, silêncio.
O sufoco crescente
O vazio perturbador
A insignificância dos gestos
A frieza do hábito
Daquilo que antes era amor
Agora de todo enterrado.
*
Havia mil
desculpas
Espalhadas pelos cômodos da casa
Havia álibis risíveis
Acumulados feito gordura
Entupindo a felicidade
De quem amanhecia com as auroras
Havia mentiras fossilizadas
Atando um nó na garganta
De quem até ontem sonhara

[os gritos estancaram nas rachaduras do medo
os gritos afogaram as primaveras que viriam
os gritos amortalharam a esperança
os gritos nos deixaram completamente sós
presos ao que jamais deveria
conosco ter sobrevivido]

6 comentários:

Dona Estultícia disse...

Todos os dias, tormento.
Belo, belo!

Claudio Eugenio Luz disse...

Nada pior que o silêncio os residuos de algo que já não se faz mais presente. Belo!

hábeijos

claudio

Minuciosa disse...

Palhaço,voce me tira o folego

Nina Delfim disse...

Achei!

Lamento pelo engano...rzs

Beijos

CeciLia disse...

os malditos silêncios que nos lembram de tantas verdades que tentamos não ouvir.

Belo poema, Douglas. Como sempre, fui tocada de um jeito sem volta.

tb disse...

Só devemos guardar o que é belo. O resto deitamos fora!
Que belo Douglas, tão belo que todas as palavras são a mais...
beijinho