segunda-feira, dezembro 12, 2005


saiam tirem levem essas vozes daqui! eles estão todos mortos eles estão todos tortos eles não voltam mais eles não descansam em paz eles não pertencem a esse lugar eles ficaram trancados naquela casa naquela sala naqueles corredores naquele tempo que nos fez tão felizes e depois foi embora sem dizer até outro dia. malditos sejam! malditos são! malditos, mil vezes malditos e suas vozes que só a mim dizem como se eu fosse o único passível de saber desses cânticos que jazem no lado de lá da noite [visível e afável, mentiroso e perverso, adoecido e eterno]
por que me cercam de paredes se as paredes não sabem sonhar? por que me banham dessa água se eu já deságuo estrelas e vaga-lumes e papoulas? por que me queimam a carne se eu sou das cinzas o futuro?
eu sou meu deus e sou um deus de merda eu sou um deus disfarçado eu sou um deus invertebrado eu sou um deus angustiado eu sou um deus que esqueceu que era espantalho e ousou sorrir [rasguei páginas em branco e tranquei as portas do meu paraíso – sou meu próprio juiz e sentencio eu mesmo a dor das minhas torturas vorazes]
eu sei dos segredos paridos eu sei dos presságios malditos e sei dos bem-aventurados as mentiras que nos velam os sonhos. eu sempre soube antes mesmo da última ceia ter sido servida antes mesmo do último trago ter sido roubado e do último gole ter sido bebido como quem bebe da própria alma a salvação – para sobreviver era necessário depositar a minha sanidade numa instituição qualquer desde que pintada de branco e sem cheiro de nuvens e vestir minhas tardes chuvosas e mastigar minhas hóstias de medo e me ver livre de tudo me ver livre de tudo me ver livre de tudo e de tudo extrair um fim que coubesse em si mesmo que aparasse todas as arestas e pontuasse todos os mínimos detalhes do que eu seria enfim. e eu aceitei e aceito eu aceito sim tudo o que me for ditado tudo aquilo que for imposto tudo aquilo que me for enfiado goela abaixo. eu me subestimo eu imploro e eu rastejo e eu lambo os teus pés pra me ver livre dessas vozes. eu quero abortar meu batismo eu quero agonizar meus demônios eu quero o cheiro imundo das ruas imundas e das putas sofridas dum cabaré deserto de álcool pecado e gozo.
eu não suporto mais ouvir essas vozes elas não cabem mais em mim elas não têm paradeiro elas não têm ambição elas não permitem um instante sequer de trégua e de amor. eu não consigo mais ouvir esses terços murmurados com devoção pontualmente às dezoito horas eu não consigo auscultar meu coração ser um eco do que as memórias simplesmente ignoram eu não consigo recolher os nacos daquilo que me escapou depois do último pesadelo interrompido pela sensação de que o ar me faltava e o chão era fundo demais pra ser alcançado.
saiam daqui! sumam de mim! por todos os anjos descalços por todos os palhaços sem domingos por todos os instantes que me sobram e por todas as vidas que eu não viverei sem ti eu imploro por paz eu imploro por silêncio eu imploro por um único amanhecer sequer a me devolver aos girassóis esmigalhados na tela dos meus dias de primavera e de brinquedos espalhados anarquicamente pelo chão do quarto que ficou preso num tempo azul que a mim não pertence mais.

12 comentários:

Carlos Besen disse...

ufa.

Valéria disse...

somos nós que ouvimos as vozes...não elas que falam conosco...
um beijo

Claudio Eugenio Luz disse...

Eita, narrativa cheia de reentrancias. Entre o sonho e a realidade, as palavras tecem a ponte.
.
grito e vozes
.
hábraços,claudio

Celso disse...

um grito lancinante de dor, que sangra a alma do leitor, Douglas. De mestre!

Saudações (Tenho um novo blog, venha conhecer, link acima)

Claudio Eugenio Luz disse...

Obrigado pelas palavras, meu caro.
.
hábraços,claudio

aaminaruthar disse...

Douglas,
Obrigada por sua visita, e por suas retinas de luar.
Obrigada tb. por mostrar o mapa dessa mina.
Por cá estarei, sempre, a garimpar.
Amina

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Você também ouve vozes?

Valéria disse...

sabe...é que este texto...me deu medo... eu tenho medo das vozes...das minhas vozes...um beijo

Betty Branco Martins disse...

E eu fiquei presa ao teu texto - Magnífico - PARABÉNS!

FELIZ NATAL
ANO NOVO Cheio de Amor Paz e muita Saúde.

Um grande abraço

pedro pan disse...

,cinematográfico teu texto, vomitas imagens(ações). acompanhando o texto-frases-palavras como cenas, o personagem discorrendo.

|abraços & seja bem vindo em quimeras|

Alê disse...

Sim..minhas imagens..várias...
Pareciam sumir ao vento...
Mas não... estavam à espreita..esperando a hora certa, como as suas esperam...
Bjo...

isa xana disse...

vim deixar um beijo de natal*