segunda-feira, novembro 28, 2005


estão sempre por perto, essas pessoas de olhos magros. nas ruas desertas, são elas que chegam e levam embora a demência que nos era companheira fiel e faminta. nos dias onde o calor provoca irritação e raiva, são elas as que riem escondidas atrás das portas, covardes e bondosas como todo bom cristão [amaldiçoadas sejam!] sempre esperançosas. sempre prestativas. sempre atenciosas. sempre por perto a sugar até a última gota do nosso desespero. e ficam ali. ficam aqui. ficam por todas partes. esperando pacientemente enquanto desfiam nossos cérebros com dedos de médicos envelhecidos e ausentes. esperando pacientemente, como se fosse a única coisa a fazer, como se soubessem que o amanhã será abatido pelas suas vozes veladas – vozes decompostas em sessenta cânticos, um pra cada volta do ponteiro, num ciclo sem fim a nos regular o humor, o comportamento, os usos, os costumes, as virtudes, as paixões, os lamentos, a dor, a solidão, os vícios[nada lhes escapa] pessoas assim são um teto escuro, dum céu escuro, duma vida engasgada entre os sonhos e as mentiras. seus olhos magros não têm fundo nem horizonte. não têm sangue nem alma nem pele nem brilho nem musculatura nem ódio nem sinal qualquer de emoções. não têm nada e de nada são feitos, estes imensos e incorruptíveis olhos magros que na dobradura do tempo esperam ansiosos por mim.

14 comentários:

isa xana disse...

nao gosto de olhos magros, gosto de olhos grande gordos que tudo absorvem tudo vêem:) mas gostei do teu textop, claro, sempre gosto ne? :)

sim, comi as estrelas cadentes e as outras tambem:)

beijo

Fernando Rozano disse...

Estão sempre perto, mas também distantes, talvez sentem menos, talvez mais. Seus olhos há muito perderam o brilho. abs.

Ro disse...

voltaste??

Dona Estultícia disse...

Uau!

Betty Branco Martins disse...

Douglas

E a chuva cai... na hora em que estou a ler o teu texto - "toco" nesses olhos para que o frio se dissipe... que não decorem o rasto dos teus passos... fico “presa” nas tuas palavras.

E este texto dá um frio, daqueles!

Mas como sempre...Adorei!

Beijinhos

Valéria disse...

eu gosto de saber os olhos que me olham... e só olho nos olhos que quero olhar!
beijo

isa xana disse...

um beijo enormeeeeeeee pelo teu texto no meu blog:) poderei postá-lo por lá? deixas? :) (claro que digo que é teu!!)



*

cm disse...

sessenta rasgos nas barras frias de qualquer prisão...e um abraço

Amélia disse...

Belo texto, Douglas.Gosto sempre de te visitar.Boa semana para ti!

Claudio Eugenio Luz disse...

Preciso como o visitante que retorna e encontra a casa vazia.
.
hábraços, claudio

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi Douglas!

Passando por aqui...

Cristiano Contreiras disse...

desabafos da alma, han?!

lazuli disse...

Como falaste em Valéry.. na floresta encantada da tua linguagem, "os poetas caminham rapidamente para se perderem, para se deixarem tomar pelo desvario, procurando as encruzilhadas da significação, os ecos imprevistos, os encontros estranhos.."

Adriana disse...

A-d-o-r-e-i!!!! Como sempre...

Bjos