
domingo, novembro 13, 2005

quinta-feira, novembro 10, 2005

lembro dentro da minha alma quando numa tarde ela disse a nós dois, no quintal de casa, debaixo do jambeiro florido, que não queria nos dar trabalho e que sofria por estar causando aquilo tudo. nenhuma palavra saiu da minha boca. meu coração sentiu toda a dor do mundo num só golpe. descrença furiosa. fé inabalável. nesta tarde eu inventei um cantinho em mim pra ficar imune. porém, acima de tudo, havia a presença radiante da minha mãe. as canções de ninar. os abraços. os sorrisos. havia amor. havia banhos de chuva e os ralhos que ela nos dava. aprender a tabuada e os afluentes do rio amazonas. aprender concordância verbal e acentuação. eu amava aprender sobre ciências. sobre insetos. meu irmão odiava estudar. preferia brincar, correr, suar, e jogar futebol, no gol. guardo fotos desse tempo. fotos guardam memórias e lugares. mas não cabemos nelas.
não sei qual o dia, mas eu voltava do cinema com o meu irmão e uns amiguinhos do bairro e estávamos todos sorrindo e o céu estava azul e tinha nuvens que brincavam de serem carneiros e tinha o cachorro da esquina que sempre latia e corria atrás da gente quando passávamos de bicicleta. naquela tarde foi diferente. quando chegamos na nossa rua, de longe, pude ver um movimento estranho na frente de casa. eu sabia. eu soube de imediato e caminhei muitos passos infinitos que eu jurei que nunca iriam terminar pra que tudo permanecesse como num sonho. bem antes dos passos alcançarem o infinito, minha tia e minha avó me abraçaram e disseram que minha mãe estava morrendo – em coma, acho que era isso. teria eu dito uma última palavra, dado um último beijo, sentido um último abraço? descrença combalida. fé destroçada. ódio de tudo. e silêncio no coração.
as lembrança que tenho são confusas. parentes orando, parentes dizendo “douglas, fala com a tua mãe, ela pode te ouvir”. “fala com ela, diz que tu a amas”. mas a minha mãe estava lá, deitada, imóvel, no quarto dela que era tão nosso e tão cheio de vida. “fala com ela, ela pode te ouvir”. eu falava, mas as palavras sequer saiam da garganta e eu chorava e as lágrimas sequer escolhiam onde cair e eu via meu pai a ela agarrado em desespero e meu irmão e minha avó e meu avô e minhas duas tias e meu tio e meu primo e via orações serem entoadas e via a tarde ficando poente e a cadeira de embalo estava vazia e eu sentei e quis de volta o meu canto onde nada poderia me tocar. descrença e fé. “fala com ela”. e minha mãe morta. “fala com ela”. e minha mãe sendo colocada no caixão. “fala com ela”. e o túmulo sendo fechado. “fala com ela”. e eu nem pude dizer adeus.
antes do enterro lembro ainda que estava em casa sentado na cadeira de embalo olhando a minha mãe ali, deitada, quando vi o que era a morte. eu pude escutar um suspiro que seria o último. tudo terminou num instante. num único instante. a vida continuava. eu estava respirando e as pessoas tinham movimento e a porta da sala estava aberta e eu apareci no meio da rua e disse pros coleguinhas que minha mãe tinha morrido e fiz questão de não deixar nenhuma lágrima ou emoção aparecer. eu precisava fazer de conta que aquele cantinho onde nada me atinge realmente existia e que logo mais eu seria adulto e a dor passaria. eu precisava ter fé. descrença furiosa. fé inabalável. eu precisava ser forte e encontrar a estrela cadente que um dia me prometeu que a vida seria feliz, que meus desejos seriam verdade, que a morte ficaria adormecida pra nunca mais acordar.
segunda-feira, novembro 07, 2005

CANÇÃO PRO MEU IRMÃO
- observa o tempo, está a fazer silêncio. algumas palavras sempre escapam, trazendo saudade e uma sensação de incompletude.
- não, nós ainda somos meninos e nossa mãe nos chama pra dentro de casa. Ainda somos felizes e as manhãs têm sol, têm brincadeiras e banana amassada com leite condensado.
- mas, e o tempo? você não percebe? o silêncio nos envelheceu demais, é mentira ainda sermos assim, infância.
- vê meus olhos? vê as cores que minha pele faz vivas? aqui existem girassóis e cantigas de ninar. isso nos mantém vivos e livres da poeira, você não acredita?
- como? aqui faz silêncio, eu já disse. estamos sós neste mundo, cada qual com uma história, cada qual com seus fantasmas. não há telas a serem pintadas. não há abraços a serem dados. não há adeus. não há olá.
nada! nada!
- estamos sós neste mundo?
- sim, completamente sós.
- o tempo.
o silêncio.
as palavras.
a saudade.
a incompletude.
- e a nossa mãe não pode mais nos chamar pra dentro de casa.
sexta-feira, novembro 04, 2005

amanhã,
serei um sopro solto sob o sol
pedaço de mim mesmo misturado ao acaso
um olhar vadio
um terreno baldio
um sentimento calado
amanhã,
serei as asas da graúna dos contos infantis
cortina envelhecida nas falhas da memória
um resto de homem
um pouco de fome
um hematoma, e só
amanhã,
são meus os dias inglórios
as despedidas que não tive
os remorsos que não pude
as manhãs que invento
sóbrio de ti
segunda-feira, outubro 31, 2005

Dos meus dias entrincheirados trarei as estrelas dos teus poentes. Minha solidão é o ponto que me mantém lúcido, o lugar exato da redenção. Minhas madrugadas contém horas ímpares, horas vagas por onde procuro em vão a tua companhia. Entreguei a ti os meus desígnios. Abri buracos no céu pra que tu pudesses respirar. Menti orações. Adormeci segredos manchados de fé e testemunho. Meus caminhos tortos. Minha vida mundana [e agora, o que fazer se não estás mais aqui?]
domingo, outubro 30, 2005

- Qual o peso da morte?
- O peso das tardes sem chuva, o peso dos olhos turvos, o peso duma criança trancada em casa, o peso de folhas mortas espalhadas pelo quintal.
- Menos que a dor, a morte pesa.
- Qual o peso da dor?
- O peso das esperanças amputadas, o peso dos abraços interrompidos, o peso dum parque de diversões fechado, o peso de cores estagnadas no pôr-do-sol.
- Leve, a vida é leve. Leve como bolinhas de sabão, leve como dentes-de-leão, leve como minha pequena irmã sorrindo – a leveza dos teus olhos castanhos, desse meu amor insano com fome de te amar.
sábado, outubro 29, 2005

quinta-feira, outubro 27, 2005

terça-feira, outubro 25, 2005
O lado mudo da solidão é lúcido, um espaço rígido, pedregulho distante das ondas do mar. O lado mudo da solidão percorre caminhos áridos, é um réptil nos ignorando sob o sol, uma vírgula perdida no corpo do texto, uma prece estraçalhada dentro do peito. Pesado e paciente, registra nossos mínimos movimentos, dia após dia, hora após hora, por todos os meses do ano, por todos os dias que sobrevivemos, somente pra jogar tudo no nosso rosto, no momento certo, no momento agudo e estanque da dor, quando as pálpebras vestem-se de emoções e fecha-se a porta da alma, essa frágil alma encoberta por cinzas [esperamos em vão por alguém, somos pequenas luzes sem sombras, pequenas chamas sem ar, pequenas lembranças sem álbum de fotos] O lado mudo da solidão tem músculos e esqueleto, tem nervos e articulações, veste-se de sobras e rouba-nos as cores vivas das estações. Intransponível, devora nossos anjos quando estes pelas madrugadas arriscam nos acolher, anjos sujos de nanquim, anjos insones e febris, nossos anjos de olhos pálidos – há anjos por toda parte. Irascível, crava seus dedos de nunca na palma do nosso destino e lança os dados, embaralha as cartas, desencaixa as peças, mistura as letras, brinca de ser deus ao brincar de se importar conosco. O lado mudo da solidão é gélido, um sopro de ontem, buraco aberto no centro das pupilas. O lado mudo da solidão nos faz dormir, nos cobre com lençóis macios cheirando a memórias – feito mãe, nos olha por dentro e sabe exatamente onde tocar.domingo, outubro 23, 2005

sexta-feira, outubro 21, 2005

quarta-feira, outubro 19, 2005

segunda-feira, outubro 17, 2005

sábado, outubro 15, 2005

quarta-feira, outubro 12, 2005

Sim, eu sei, permaneço trancado no quarto e as paredes continuam sendo meu referencial de horizonte. Mas, se você aceitar minha loucura, trago um sol pálido e um punhado de estrelas pra enfeitar os teus cabelos, juro.
O pra sempre nem é tão distante assim, está vendo? Quando sinto frio, cubro-me de mim mesmo. Quando faz calor prefiro inventar precipícios. Minhas mãos têm linhas curtas – você saberá como tê-las.
Sair sem rumo, vamos? Há chuva mais adiante e na chuva costumamos crescer – nossas roupas vestem partículas de amanhã [feito jardim cheio de girassóis]
Há um tom avermelhado na inquietude. Um gosto azul no que falta. Um sopro acinzentado no medo de sair do lugar [o medo que me invade sem você e que me prende aqui] Já a indiferença é branca do branco do gesso – isso é estranho, não?
No inverno, ainda digo teu nome. Na primavera, escrevo planos. Anulo-os no verão. Outono é tempo de sangrar as perdas – sou um fantasma sem estações.
Na cidade que me pertence, as ruas têm os teus olhos, as velhas casas de azulejos portugueses têm os teus olhos, as crianças brincando na praça têm os teus olhos – até mesmo os barcos que se despedem traçando um arco mudo no rio têm os teus olhos. Na cidade que me escapa, estou sozinho e não sei escrever canções.
Vem, vamos pegar nossos trapos e seguir sem rumo. Deve ser bom chegar juntinhos a nenhum lugar se conosco temos uma colcha de retalhos que trouxemos da infância e alguns travesseiros que roubamos das nuvens.
Vem, ainda temos algumas vidas pra contar. Vem que eu te mostro como fazer um oceano de conchinhas [da última vez eu te mostrei como fazer meu coração relampejar, mas você foi embora e levou a ventania]
Há lugares que lembro, lugares vazios quando estão sem ti. Há pessoas que se foram pra não mais voltar, pessoas a impedir que a minha vida murche quando não estás aqui. Em tudo isso, há você. Na tua ausência, há você. Na tua lonjura, há você. Na tua quietude, há você. Então, vem. Meus instintos precisam de ti. Minha fome tem fome de ti. Meus segredos sussurram por ti. Meus demônios arranham-me as virtudes por ti.
segunda-feira, outubro 10, 2005

sexta-feira, outubro 07, 2005

Minha mãe e um sonho
Minha mãe e a dor
Minha mãe e a perda
Minha mãe, morta.
Um quarto no fim do corredor,
Minha mãe em algum dia
Minha mãe em algum instante
Minha mãe em algum lugar
Minha mãe, viva
Um quarto no fim do corredor
Um quarto com cheiro de eterno
Um quarto guardando imagens
Um quarto sobrevivendo intocado
Um quarto apartado do medo
quarta-feira, outubro 05, 2005

terça-feira, outubro 04, 2005



