domingo, janeiro 10, 2010



I

não sou habitado por silêncios:

antes sonho-me posse da noite

e meus demônios partem, sozinhos.


II

de minha infância resta um copo de prata:

ocupo-me de atalhos a quem não sou

meus registros parem memórias baldias


III

o medo guarda algo de espeerança:

oculta-se das preces o labor

remendamos os erros de deus ao concedermos perdão


IV

escuta o pai adormecer-nos filho:

em seus olhos havia ternura

coisa que há muito deixamos para trás


sábado, janeiro 02, 2010



I


ímpio

recusas o sono

a companhia dos anjos da guarda

pois há algo por ser escrito

só não sabes o quê


II


errante

segue madrugada adentro

mas o tempo insiste em fragilizar-lhe os dedos

e as palavras que busca junto à esperança

devolvem-lhe a certeza de que restam apenas sonhos


quinta-feira, dezembro 17, 2009



cantiga à vó nazaré
in memorian


I
a doce vó partiu
e aquela manhã vestida de luto
sobre nossos ombros desabou
a imensidão do céu
.
II
a morte fratura memórias
ossada abandonada por deus
porque já não temos para onde ir
porque já não há mais a quem falar
.
III
vó,
diz-nos então de que vale agora
prece lamento e pranto
se miseráveis que somos
há muito de ti fizemo-nos distantes?

.
IV
vó,
não te abracei porque frio
não te escuto porque ímpio
não te mereço porque são

domingo, novembro 29, 2009



ao rubens da cunha. porque seu primeiro degrau (http://casadeparagens.blogspot.com/) arrancou este grito de mim
.
diferente de ti, eu não condenava. porque ainda criança sabia: em minhas mãos padeceriam única e exclusivamente em nome do desespero escrito em letras mortas, enterradas em meus ossos, que era pra não quebrar nem aparecer nem ter cheiro ou cor ou algo mais que deixasse vestígios. desespero que nascia do medo de eu não ser o único naquele quarto – vozes apareciam ao cair da noite, obrigando-me a ficar ali, quieto e em vigília – para que assim pudesse extirpar, no nascedouro, meus sonhos.

quinta-feira, novembro 19, 2009

fragmento

.
.
a culpa nas mãos dos homens
ei-la aqui, envelhecida
arrastando sua carcaça pela casa
desmemoriando em minhas entranhas
o caminho a ser proscrito

malograda e inoportuna
reconhece meus assombros
e transfigura-me em rancor
ao repetir a si mesma
infortúnios

você dirá que eu mesmo a criei
e a alimento com sobras do que um dia foram sonhos
mas dela eu fujo e busco refúgio
porque todo homem precisa temer
algo ou alguém assim tão límpido

[nela sou o nexo]

dela, minha escuridão
.

segunda-feira, novembro 02, 2009


ao carlos besen


I

dissera a cor do primeiro silêncio

ter nascido da chuva

e que toda chuva é feita de lágrimas

e que cada lágrima sepulta um sonho

porque deus negou aos anjos

o sorriso
.

II
.
entendes agora

o canto que encerro em meu peito

o adeus que maltrapilho em meus olhos

os pássaros que inverno em meus ossos

o desmundo que me enraíza

ao medo?
.



domingo, outubro 25, 2009



para a angela

atormentada
cerzia pequenas flores
murmurando coisas ao ontem
enrugado pela dor
que sob a pele erguia em sepulcro

segunda-feira, outubro 19, 2009


.
achavas que a morte
era perda
tudo o que não teremos mais?
.
.
descobre então, doce irmã
sê-la aquilo que fica
nada que possa retornar...
.

sexta-feira, outubro 09, 2009



quando tem início a madrugada
o medo cresce desordenadamente
levando meu coração
a abrigar-se em lugares
que mal sabem de mim
.
então vem o silêncio
lugar onde nem deus ou anjos
ou aurora alguma irá me alcançar
porque nada há para temer
a não ser a quem chamo de eu

quarta-feira, setembro 23, 2009


olha às mãos enrugadas
temeroso
por finalmente ter descoberto
tantas marcas assim
não poderem ficar impunes
agora que o tempo de si tomou posse
e cada segundo adiante
sepulta-lhe
as cantigas de onde nascem os sonhos
.
.
.
.
[exatos cinco anos do vomitando imagens
lugar silente onde escrevo
aquilo que me devora]

sexta-feira, setembro 18, 2009



esses homens
há culpa em suas mãos...
.
.
ei-los aqui, sujos
ecoando frases vazias
maquinando na minha cabeça
o eixo a ser seguido




furiosos e sãos
abrem todas portas
quando chego
e ficam estáticos
diante de mim
espiando...




você dirá que eu mesmo os invento e nutro
mas neles creio porque todo homem deve crer
em algo ou alguém
que não esteja limpo




deles sou o foco




eles, minha redenção

sexta-feira, setembro 11, 2009


[estranho-me]
são teus braços-mulher
a me possuir
embora lute-me
porque corpo
homem sou

[escondo-te]
nas muitas que deito
a me bipartir
embora minta-me
quando corpo
ereto sou

quarta-feira, setembro 02, 2009



mamãe morreu aos trinta e três anos
e eu ainda vivia-me infância
quando vi meus brinquedos entristecerem
porque eu não conseguiria mais brincá-los

mamãe morreu num abril distante
fazia uma tarde cinzenta
que logo virou chuva forte
o que alguém disse serem anjos chorando

mamãe morreu em silêncio
deitada em sua cama
no quarto que tanto me faz falta
pois não mais tenho um lugar chamado casa

mamãe morreu uma morte arrastada
que sobre ela voraz debruçou-se
sem deixá-la futuro algum
embora dissessem que deus por ela esperava

mamãe morreu faz tanto tempo
que sua voz de mim parece fugir
também seus olhos castanhos e tenros
nos quais menino feliz eu me via

mamãe morreu e eu não disse adeus
mamãe morreu e eu não soube chorar
mamãe morreu e eu enterrei tantos sonhos
e ainda hoje pergunto onde deus poderia estar

segunda-feira, agosto 03, 2009

I

quantos há de mim
se não sou meu próprio musgo
as águas barrentas deste rio
que me navega a esmo
quando desisto de sonhar?

[meu corpo é erosão...]


sexta-feira, julho 24, 2009


sem dizer
a quem tocaria
deixou-nos infortúnio
e luto
.

pois destino é esmo
rumor eviscerado
feito os amanhãs que de ti
desconhecerei
.

embora saiba
sermos do ventre o avesso
porque arremedo de homens
.
[parimo-nos]
.

cala-te então
carne da minha carne...
o tempo do medo
findará
.

e girassóis hão de tingir
de azul a última noite
levando esses demônios
.

[embora daqui]
.

sexta-feira, julho 17, 2009


meus mortos
eu não os entendo...

por que ficam
naquilo que sonho
quando sequer suas vozes
ou um débil traço de memória
acalenta-me sempre que deles
sinto o pesar?


meus mortos
eu não os tenho...

porque ficam
entremeados a quem serei
quando percorrem meus caminhos
revisitando meu destino
entregando-me ao ocaso
e à míngua do luar

quarta-feira, julho 08, 2009


ao lucas M.



aquarelo histórias em segredo
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
[para que ao envelhecer]
meus filhos possam contá-las

os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
[e eu já não temo mais]
o dia em que morrerei

poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
[para que ao morrer]
meus filhos possam sonhá-las

a crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
[e assim partiremos mundo afora]
nos barquinhos de papel feitos por meu pai

domingo, junho 28, 2009


outra noite
aborto ao máximo a chegada do sono
digitando palavras a esmo
[ou simplesmente]
sentando em frente ao monitor

- as costas doem
os olhos pesam...

sem que nada desocupe
a certeza de ser o amor uma coisa vazia
e que teu sorriso aqui e acolá
é desmemória infectada pela dor
.

sexta-feira, junho 19, 2009

fragmento


o céu

já não alcança a encosta do mar

murmurou o ancião dos ombros caídos

ao afastar-se da multidão assombrada

daquela cidade nascida no meio do nada

(veio tempestade

prenúncio de centenas de línguas partidas pelo ódio

e inundadas pela fome das palavras-ruídos

que aos homens desfeitos sob a imagem de anjos

imprimiu a marca irrevogável do medo)

terça-feira, junho 02, 2009

um deserto
pouco a pouco
devorando tua ausência
.
onde
nada mais parece existir
.
só o silêncio
.
[o silêncio]