segunda-feira, abril 26, 2010

não saberíamos viver com memórias feitas de restos, ela disse
naquele poente de domingo com gosto de chuva.
somos Áries, ajudar-lhe-ei a tirar as botas como Laura o fez
e a borboleta litografada voará liberta da parede
dança feita de encantamentos
porque era assim que se via às vezes, como que nascida de um livro
só que não amareleceria, nunca.
então pariu-se fêmea àquele desconhecido
no tapete sobre o chão
ali mesmo, entre as roupas e sonhos do homem que ama
porque a ele negou-se ao entregar-lhe o coração
mesmo desejando dele ser pra sempre, doce mania de querer-se um conto
porque Áries é o signo da solidão
e solidão tem fome de todos
e não sabe devorar a si
e acaba sem ninguém
porque ninguém nos quer, os solitários
mas isso aquele estranho nunca saberia,
porque nus, bêbados de lascívia e de gozo
já perto do anoitecer, a si bastavam.

4 comentários:

CeciLia disse...

Bravo, poeta, bravo!

Gosto dessa intensidade de solidões expressas.

Abraços

CeciLia

aldesser disse...

áries é com toda a certeza o signo da solidão.

tb disse...

fantástico, D.!
Abraço

dani carrara disse...

é, escutar a primavera deve deixar a gente em beleza.

brigada pela atenção.

adoro mto ler vc.