quarta-feira, agosto 10, 2005


Mesmo de longe eu saberia das palavras escritas pelos teus dedos de olhos que enxergam as cores escondidas sob a tarde fria dum frio que na minha cidade jamais chegará. Escreves imagens que não sei. Celebras amores que não vivi. Sorris uma alegria que me é estranha – o azul do meu chapéu está marcado no teu céu com cara de passeio dominical. A mim alimentam tuas sobras, aquilo que sobrevive aos teus delírios num frenético balé de mãos cicatrizando estrelas-do-mar. Desfeito o nódulo, expurgado o medo, aberto o peito aos girassóis, lembra: Quando a madrugada vier cobrar o preço, serei eu a estar lá.

terça-feira, agosto 09, 2005


Maldita felicidade que me invadiu, roubando a solidão que me alimentava – as cores do vazio estão ocupadas, as dores das madrugadas estão saradas, o peso do abandono está esquecido [frágil estado de permanência – poucas linhas respirando amanhãs]

sábado, agosto 06, 2005


Somos instantes, pequenos momentos esticados entre o amanhecer e mergulhos azuis dentro do rio. Crianças. Espantalhos. Sonhos incompletos debatendo-se nos precipícios dos sentidos – loucas almas solitárias no meio de tantas mais. Somos frágeis, temerários pintores de palavras desprovidos de calma e sensatez. Desertos. Fantasmas. Rastro interrompido vomitando fé e devoção no próprio umbigo – risíveis arremedos agarrados a si próprios com medo do sono e do frio.

terça-feira, agosto 02, 2005


As palavras surgem, caem uma a uma como gotas sobre o telhado, desenhando a circunstância de um certo tempo, o sossego de um certo lugar. Mediadoras de sílabas, sons, sofrimento e sobras, salvam minha sanidade e devolvem-me o sabor do sol – meus músculos vencem a resistência e, pela fresta de um sonho desgarrado, anuncio que o próximo poema está morto [faltou-me descrer no que vi; tudo que não se vê transparece magia] Uma canção do Neil Young, o grito-carne da alma do Artaud, girassóis devorando espantalhos, esperma, vícios, dignidade e devassidão. Estou diante do que escrevo e as imagens continuam arremessando frases naquilo que vejo. Na linha de fuga dos pássaros noturnos, sou meu próprio deus com medo de ser infinito. Agarrado ao epitáfio do homem- de- palha , mergulhado no vazio que cresce por dentro, eu evoco meus demônios mas eles já não podem escutar.

segunda-feira, agosto 01, 2005


Aponta ao céu [tuas mãos selecionam imagens, anjo faminto por vozes e preces] Aprisiona o tempo na finitude dos homens, tolos homens que acreditam em sombras. Na tua boca a tarde avermelhada desaparece lentamente, deixando a lua aos pássaros que em ti fazem ninho[tens o pesar das palavras mortas repousadas nas cavidades dos teus olhos sem cor] A dor fecha-se no azul, é preciso partir antes das auroras. A contusão lembra-te da queda. Quando a chuva tocar tuas asas, abraça meus temores, deixa-me quieto e nutre a minha cegueira – as estrelas por dentro são escuras, escuras demais.

sábado, julho 30, 2005


Dói. Destrói. Amputa. Desesperança o horizonte. Estrangula a canção antes que a alma possa saber. O inferno, a derrota, a inquietude de ser um bosta entre todos os demais. Esmigalha o coração feito hóstia nas mãos de um padre manchado de culpa. Revira o que possui feito maltrapilho fudido e morto de abandono a fartar-se de lixo [míseros vestígios desse amor cianótico] Há uma rua estreita em algum lugar da memória – o cheiro da chuva colorirá a dor que fica. Há um terno de estrelas morrendo no ontem por vir – serão cadentes, é preciso alimentar os sonhos até lá. Apaga teus olhos dos meus. Retira teus pulsos das minhas veias. Desfaz as linhas que nas minhas mãos você semeou. Somos cicatrizes umedecias. As palavras que me tomam não andam nas tuas ruas – as tempestades que me lavam feito anjo cego nunca te alcançarão. Já é tarde demais, nosso passado tornou-se maior que o futuro. Quando respiramos, num único suspiro foge-nos o ar.

quinta-feira, julho 28, 2005


Debruça-te sobre as palavras, sente. As paredes estão cegas, um espaço restrito à agonia e ao pesar. Esmiúça o olhar dos outros, seus sonhos estão recolhidos – são restos do que um dia amanhecera azul. No canto da sala, soluços e orações balbuciadas sabe-se lá se com fé ou medo do que não sabem[exatamente o quê nos espera do lado de lá?] Escuta. Existem ruídos vindo dos ossos, as articulações acusam a idade – só as almas estão sólidas, incompreendidas que são. Há flores com cheiro de vazio. Há um peso insustentável turvando as lembranças. Imóvel para todo o sempre, sela com um beijo tudo aquilo que vai ficar – vê-la pela última vez na irredutibilidade das retinas é saber que não nos pertence a eternidade. [Só os anjos sabem mentir] Guarda contigo esse último instante e deixa-te encravado nas entranhas da terra - mais lúcido que as auroras de amanhã, mais descrente que um espantalho arrancado da plantação. .

quarta-feira, julho 27, 2005


As fotos não revelam o que ficou- é a fuga das cores numa dança solitária. O olho sequer percebe quando as sombras mudam a forma - os limites que engolem a luz. Invadidos, os sentidos recortam uma porta no meio da parede – e, como num desenho animado, tudo passa a ser o que virá.

terça-feira, julho 26, 2005

Morre! Que em mim não pode haver esperança. Cala! Que em mim amanhecem ouvidos de chuva e eu não sei como desaguar. Onde quer que eu me reconheça, apaga tuas marcas de mim – eu não tenho mais gavetas pra esvaziar memórias [a incoerência dos girassóis como companhia]

quinta-feira, julho 21, 2005


Vida, a interrupção do azul – anguloso deslize inundando as veias [um rasgo na colcha- de- retalhos que de noite sinaliza teu canto seguro] Medo arranhando os olhos. Murmúrios insistindo na esperança. Um velho quadro, numa velha parede e a pertinência de estar isolado dentro da própria carne, nua carne – fosse deus e celebrava beleza e gozo. Fosse deus e anunciava fracasso e dor. O silêncio, invade-me o silêncio com seus dedos de incômodo peso. A quietude é quase um sonho – em pedaços, escapa-me lentamente.

quarta-feira, julho 20, 2005


As louças recém lavadas. As quinquilharias que compramos sem saber onde colocar. Os quadros e as canções que nos delineavam em nossa ausência – tudo quieto, sem um movimento qualquer. Os sapatos nos olham pedindo tropeços, atropelos, bares, fumaça e álcool [mas, estacionamos] Nossos ossos rangem como camas velhas e desusadas. A apatia escava nossa essência devorando-nos a medula. Escapamos da vida quando abraçamos a tranqüilidade – dias certos, horas precisas, sentimentos empacotados feito maçãs importadas vestidas num azul tosco e barato. Quando chove, nos abrigamos no quarto. Ontem, brincaríamos de eternidade.

segunda-feira, julho 18, 2005

Diante do marasmo, antevejo meus dias idos - o calor dissipando-se pelas frestas que de meus livros empoeirados ressurgem [anoto um endereço qualquer. Serei destinatário de mim mesmo nesta indelicada celebração às avessas] Meus sapatos estão sujos de receio e finitude. Da minha boca escapam orações carcomidas pelo desprezo – malditas! nelas um dia acreditei. [O céu permite devaneios e quedas] O silêncio da lua ressoa nas vértebras. A ausência de ti escalona a solitude. Uma a uma e desordenadamente, estrelas cadentes, mariposas, visagens e cantigas perdem a gravidade...ficam expostas feito mendigos imundos de futuro e cães morrendo de frio.

sexta-feira, julho 15, 2005


Liquefaço-me [se a fluidez do rio me é impossível, sigo na minha reticência de homem só] Eu trago nas margens os horizontes que em ti escondias. O lodo dos meus pequenos devaneios, a cartilagem da lucidez. Atravesso meus dias conversando baixinho com o resto de luz que a tua partida congelou como se fosse aurora sufocada entre os girassóis. Eu não saberia devorar o abismo dos teus olhos. Eu não suportaria a leveza da tua indiferença. Na contramão do destino, fosse eu poeta e escreveria um fim que não empalidecesse jamais. Escaparia de te perder pra mudez do frio. O mínimo espaçamento entre desistir e seguir derrotado. Diante das imagens soltas que não consigo colar, que faço eu do teu ressoar vazio no centro de doces memórias?

domingo, julho 10, 2005


Quis escrever poesia, e vieram imagens. Quis alcançar sons, e resvalou delírios. Sentiu a presença de quem nunca havia esquecido, mesmo estando tão distante[como se nada mais importasse que não estar ali, sentindo] As fotos revelaram um misto de infância e futuro bretoniano – as cores projetavam-se sobre suas pupilas, desenhando bizarrices e leveza[tão leve que o céu era pouco] Encantado, foi num sorriso que descobriu – A menina linda engoliu o sol!!

sábado, julho 09, 2005

Superficialidade sob a forma de palavras recorrentes, num ir e vir previsível [Auroras e girassóis. Dor e lamentos. Quartos vazios e desesperança. Azul e solidão] Se traço meu horizonte encorpando rascunhos é porque me falta a precisão dos desalmados. A mim não coube a lucidez dos portos desabitados, nem a esplendorosa fragilidade do canto das cigarras. Quando as estrelas rasgam a noite em dois, lembro das sombras que desenhavam bichinhos na parede da minha infância – eu não sei mais como ser assim, simples. Estou diante do medo que me paralisa [esqueci as preces antes mesmo de aprende-las] Na sarjeta dos meus vícios, escrevo teu nome pra batizar minha alma insone e embriagada – num compasso esquizóide reinvento as profecias dum anjo louco qualquer.
Preciso de imagens que me sejam novas. Nada de silêncio ou madrugadas, quartos vazios, dor, demência e correção. Já não me nutre o azul das manhãs de domingo, tampouco o medo da vida estampado nos jornais. O amor comeu minha identidade. Vomitou minhas esperanças. Travou minhas palavras. O amor roubou a solidão de mim mesmo. Fez-me poesia sem margem. O amor inundou minhas entranhas e partiu antes que fosse possível desamar.

sábado, julho 02, 2005

Desperdício sob a forma de palavras recorrentes, num ir e vir previsível [Auroras e girassóis. Dor e lamentos. Quartos vazios e desesperança. Azul e solidão] Se traço meu horizonte encorpando rascunhos, é porque me falta a precisão dos desalmados. A mim não coube a lucidez dos portos desabitados, nem a esplendorosa fragilidade do canto das cigarras. Quando as estrelas rasgam a noite em dois, lembro das sombras que desenhavam bichinhos na parede da minha infância – eu não sei mais como ser assim, simples. Estou diante do medo que me paralisa [esqueci as preces antes mesmo de aprende-las] Na sarjeta dos meus vícios, escrevo teu nome pra batizar minha alma insone e embriagada – num compasso esquizóide reinvento as profecias dum anjo louco qualquer.

quarta-feira, junho 29, 2005

Estranhos sentimentos delimitam tuas palavras escritas em sangue– carcaça fincada na superfície da indolência. Um passo desritmado e você já não mais ocupa o centro do universo – são os olhares do medo escrevendo destinos banguelas. Há rispidez nas rimas. Há amor excedendo a conta. Há páginas amarelecidas implorando presença. Há sons. Há meios. Há um quadro pendurado na parede do meu quarto, esbanjando lucidez. Há desistência na fuga. Há senilidade na paixão. Há veias entupidas, músculos destonificados, roupas desabitadas e o cheiro de tudo guardado na memória. Dói fundo a perda do que não mais posso sentir. Há luz demais neste fim de tarde agonizando vertigens.

quarta-feira, maio 18, 2005

Creio nas manhãs quando meu corpo adoece – o toque do orvalho sobre a pele ganha em cores e sombreamento [desfaz a plenitude da razão sempre que relâmpagos brotam dos teus dedos anunciando chuva] Creio nas manhãs quando acordo sozinho – os travesseiros espalhados pela cama espaçosa demais hiperdimensionam a solidão [delimitam a agonia de estar impotente diante de imagens desgastadas pelo tempo] Creio nas manhãs quando o mais sensato é desistir de tudo e aprender a sorrir.

sexta-feira, maio 13, 2005

Acreditei na textura do nanquim – no sol, nos jardins, na dor diluída entre as cores pintadas nas telas do meu sonho. Por todas as manhãs fui devorado – minha carne guardando memórias, minhas vértebras estalando segredos. Chuva. Chuva levada embora pelas margens estreitas do rio.