sexta-feira, abril 08, 2011


confuso,
guarda pequenas lembranças
peças frágeis
fotos
particularidades de um tempo
amontoado sobre a pele
das mãos do rosto dos cotovelos
a envelhecer
sob a premissa de que todo infortúnio será
recompensado

segunda-feira, março 21, 2011


trouxeram notícias? por acaso ouviram meu nome? estive aqui o tempo inteiro, rastejando lucidez implorando companhia maldizendo as horas que estancavam sob o peso de esperanças desditas presságios tortuosos e murmúrios [lembranças do homem que fui].respiro pausadamente. observo. reconto o tempo. redistribuo funções. impacientemente. as respostas às minhas preces são febris e sou eu sou eu e mais ninguém quem as vigia alimenta perpetua tão logo a distância entre perda melancolia e uma manhã azulada desaparece.

respeitosamente,

d.
.



segunda-feira, março 07, 2011

I
acaso reconheces em cada alvorecer
os lamentos
a sombra do homem que se afasta
o nascedouro de todos os medos
que te trouxeram aqui?


II
és sangue ou destino?
.
III
tuas mãos
repousam sobre meu leito de morte


IV
somos deus
e um amontoado de coisas mais
.

terça-feira, fevereiro 22, 2011


ao amigo esquilo

retorno ao lar
que nunca me soube
[dele carrego um silêncio preenchido pela angústia de terminar só]

as paredes o teto os móveis as louças continuam lá
só não a morte
[que partiu com os sorrisos as brincadeiras o cheiro do bolo de fubá]

esta casa já não me habita...

[sou um homem que perdeu a infância]

terça-feira, fevereiro 01, 2011


.
invejo deus

porque a ele não pertence a morte

matéria imprecisa que é

só a nós,

que na fundura do momento

nos sabemos

vagantes

desatinos

maldizeres

solidão

segunda-feira, janeiro 24, 2011


todo anjo é voraz
carrega a amargura de ser incompreendido
porque nem deus nem homem nem infância
todo anjo é insano...

forjadores de sonhos
reconhecem na fé um corte profundo
que não dói que não sangra só esperança
todo anjo é insone...

sexta-feira, janeiro 14, 2011

há restos de abandono
nas palavras
nas amarguras
nas míseras ilusões
dos que passaram por aqui...
.
[deixaram-me só]

sábado, janeiro 01, 2011


são fantasmas, bem sabes

mas quem te escutará

quando a madrugada avançar

sobre os vestígios do homem que a ti custou

crer?

[hoje nada mais parece fazer sentido

– é a aurora de um novo dia]

sábado, dezembro 18, 2010

dear captain


há um homem de pé sobre as areias do deserto
é alto, tem olhos que me lembram o céu
está sozinho e segura um quadro que ele mesmo pintou
mas para o qual não consegue dar um nome
[por isso a sombra às suas costas busca o horizonte]
logo mais, ele não estará ali
.
captain, dear captain
não soube outro modo de te dizer adeus.
.
captain beefheart,
1941-2010

terça-feira, novembro 30, 2010


.

essa infância que não volta

lugar que perdeu o cheiro

e me consome os dias a esmo

eterna,

respira-me grudada à pele feito sombra

.

domingo, novembro 21, 2010


ao esquilo


I
.
em mim
há um desejo absurdo de sofrer
tanto que sei, amigo
a incredulidade do sopro e da razão
.

II
.
do meu corpo
faço paragem aos que me habitam
desde que soube, amigo
ser multidão até morrer-me um só

terça-feira, outubro 12, 2010

.
experimento as trevas
o desgaste
a sofreguidão, o luto
de manter-me de pé
de resguardar-me ímpio
porque vago quando lúcido
irreconhecível aos fantasmas
daqueles que restaram em mim
.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Aqueles para quem certas palavras têm um sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modos afetados, aqueles para quem os sentimentos têm classe e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em "termos", aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também estas mulheres que falam tão bem e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros
- são os piores porcos.
(antonin artaud)
.
amontoam-se, não?
e sorriem todos, mãos postas sobre as mãos
[tem os olhos voltados a mim]
e julgam e repartem meus sonhos entre si
[há nódoas nestes espíritos]
.
- mas você os tem nas entranhas, esqueceu?
...
.
de onde nascem e por que são paridos assim, feito massa uniforme?
[me pertencem, como pertencem à memória os escombros]
.
- cala-te então

quinta-feira, setembro 23, 2010

cantiga aos meus quarenta e três anos

incrédulo,
fiz dos sonhos
um lugar rarefeito.
.
[amanheceríamos de novo e a infância não teria partido
nem a morte carregado nossa mãe]
.
por que essa procissão de descalços ajuíza meus infortúnios? são vocês os que percorrem meus desatinos? eu chegaria até aqui se estivesse sozinho?
.
a casa está vazia
nem vozes
nem sombras
nem preces
vem nos visitar
.
[o tempo data a beleza. cambaleamos rumo a lugar nenhum]
.
das minhas vértebras arrancaria felicidade
ou um momento de paz
que me livrasse daqui.
.

quarta-feira, setembro 08, 2010

há versos meus entranhados nessa cidade
mas eu não os tenho
devorado que sou pela métrica dos arranha-céus daqui
.
onde meus ossos viram esquinas
minha pele, asfalto ao meio-dia
e dos meus olhos resta o abrir e fechar automático das portas dos trens do metrô
.
mas é só mais um dia seguido de outro dia,
atravessando-nos indistintamente
nós, iguais uns aos outros
de tão burocráticos
indiferentes
e civilizados que somos
[eis nossa beleza]
.
venham...
sirvam-se de mim
restituindo-me o homem
outrora sonhos, mata, febre e nanquins.
.

domingo, agosto 29, 2010

.
a poesia daqui
menos grito que descrença

excede-me quando, preciso
[feito cirurgia]
a olho nu
suturo um a um
os medos que se emprenham de mim

.

quinta-feira, agosto 12, 2010

.
.
tudo desaba em mim
a rota que me trouxe ao silêncio,
lugar onde me despeço do medo.

incrédulo, não devolvo aos mortos
que me são caros
a dor de ter restado, sozinho.

eles ficam-me em desespero
à espera de um próximo dia
manchado de destino e adeus.

segunda-feira, agosto 02, 2010

releitura número dois





rumo ao poente
em nítido escape ao que se apregoa destino
andorinhas poetam
EM CARNE VIVA
um amanhã que deus algum selará

domingo, julho 18, 2010

releitura número um


.
.
pai,
.
esses anjos da morte
livrai-os de mim
.
esses anjos do medo
livrai-os de mim
.
esses anjos descrentes, esses anjos videntes, esses anjos que mentem
esses anjos que abandonam e esquecem
livrai-os de mim
.
pai,
.
livrai-os de mim, os anjos
livrai-os daqui, enquanto sonho
.
pois lá fora auroras já chegaram
e eu preciso descansar-me em paz
.

terça-feira, julho 06, 2010


ao roberto piva
.
queria-me poesia
feito alguém fugido da morte
tua sílaba de nervo a sugar-me a língua
[menos deus que um incessante equívoco]

quinta-feira, junho 24, 2010


pugnus
.

não é o tempo breviário? testemunho de terem nascido os homens para a morte porque vida é tudo que foge à eternidade? por isso criei a ternura e fiz dos anjos mensageiros de minha imensidão. por isso exprimi a dor que me consome naquilo que vocês ousaram chamar de esperança. por isso, fiz de mim expiação. eu, a quem chamam de louco. eu, de quem esqueceram o rosto. abismo aos míseros e redenção aos condenados. eu, que das margens pari a nascente, digo-vos novamente: sou-me carne a quem fui solidão.

sábado, junho 12, 2010

.
trancava-me na imagem de que um dia eu iria crescer e ficar idêntico aos demais essa gente adulta que não sabe nada do sofrer porque não enxerga o escuro crescendo por dentro das unhas até chegar aos ossos e não escuta o alvoroço larval que se aloja em meu cérebro quando mais um anjo da guarda desiste de mim só porque nas memórias que terei eu sou feito à imagem e semelhança dessa gente adulta repugnante em sua limpeza ah essa limpeza tão precisa e medonha parida do meu noviciado a se alimentar de tudo que é puro porque nós precisamos de qualquer coisa que tenha mácula e morra incessantemente para que enfim eu possa nascer outro e saiba menos deles todos e nada mais de mim, deus.
.
para maura lopes cançado

domingo, maio 23, 2010

sobras de um livro porvir

IV
.
porque a solidão que me consome
é menos destino do que músculos
e odeia a todos como quem não escapa de si
[desmundo escarrado no rosto]
temor de acabar sem ter fim
.

terça-feira, maio 11, 2010

sobras de um livro porvir



I
refugiar-me aqui
onde não há mais traços de você
e ao silêncio aferrolhar o inverno
para que o tempo recue
limpando de mim toda cicatriz


II
relembrar-me aqui
onde ainda sou você
é desmesurar o que perdoa
esqueletando o destino
para levar de mim todo sonho


III
brincar-me aqui
entre os girassóis que teus cílios plantei
é carrosselar feito criança
que descobre em seus dedos
ninharal de arco-íris

sábado, maio 01, 2010

occludo

.
mas não é tudo silêncio? os dias. os desassossegos. a terra úmida que sepultará minha incompletude. mas não é tudo um ciclo? rio onde outrora éramos memória. primavera que deserta turva-nos o poente. paragem áspera desaninhando pardais.............................

[o húmus do qual fiz meus ossos e carne..............................

gesta um amanhã atado ao que não virá]

segunda-feira, abril 26, 2010

não saberíamos viver com memórias feitas de restos, ela disse
naquele poente de domingo com gosto de chuva.
somos Áries, ajudar-lhe-ei a tirar as botas como Laura o fez
e a borboleta litografada voará liberta da parede
dança feita de encantamentos
porque era assim que se via às vezes, como que nascida de um livro
só que não amareleceria, nunca.
então pariu-se fêmea àquele desconhecido
no tapete sobre o chão
ali mesmo, entre as roupas e sonhos do homem que ama
porque a ele negou-se ao entregar-lhe o coração
mesmo desejando dele ser pra sempre, doce mania de querer-se um conto
porque Áries é o signo da solidão
e solidão tem fome de todos
e não sabe devorar a si
e acaba sem ninguém
porque ninguém nos quer, os solitários
mas isso aquele estranho nunca saberia,
porque nus, bêbados de lascívia e de gozo
já perto do anoitecer, a si bastavam.

quarta-feira, abril 21, 2010

.
I
levemos a beleza adiante.
o que restaria?

II
lembro de um dia qualquer
mas especial porque estava contigo
e você sorria como quem salva do tempo a leveza
que esquecemos junto aos brinquedos
empoeirados pelo destino do velho baú
– reinvento dia após dia a minha infância
é a forma que encontro para em mim nada mais partir...

III
ipês brancos, disseram
mas estamos outono e na primavera faço aniversário e não há amigos por perto e meu avô minha tia e minha mãe já morreram e eu esqueci como abraçar meu pai e meu irmão é o estranho que me fiz.
você ainda estará por lá?
ainda saberei do teu cheiro?
teus rastros caminharão o homem que sou em mim?

IV
a beleza que é gratuita
contenta-se com um olhar
um abraço
um adeus, quando for a hora
(convença-me do contrário, tu e as tuas verdades)

V
eu sempre cri nas tuas mãos
nas linhas dos teus destinos que são meus cata-ventos
trôpego e irascível que sou
.
VI
não, não sou eu quem traz as notícias das manhãs domingo
elas são de outros lugares onde sou deserto
cacto que ninguém vê
(durmo aquietado pra não te acarinhar aqui)
.
VII
eu sairia tarde afora com teus pés nos meus descalços
e do teu coração grande demais
bastar-me-ia o não visível
pra do teu sono, ser quem contigo irá despertar

VIII
há no tempo incerteza
errante que somos.

com amor,
d.
.

quinta-feira, abril 15, 2010



debruça-te sobre teu ofício
pormenoriza teus assombros
teus gestos e gestas

abraça-te ao que resta
sonha até o limite dos ossos

revela-te ao outro que te acordas

domingo, março 07, 2010



I

deus é quem silencia

- porque nascido do verbo -

.

II

deus é quem sentencia

- tem mãos sujas e não sua frio -

.

III
.
deus é em ti o que me excede
.
- escombros do homem que virei -
.
IV

(o nervo que na carne enxerta esperança)
.

domingo, fevereiro 07, 2010


esqueceram
as brincadeiras que juntos inventavam
mãos olhos pés sorrisos de nanquim
sob noites enluaradas que os visitavam no quintal?
.
.
a casa está vazia...
.
.
e daqueles dois irmãos que sozinhos
escutavam-se vozes de estrelas cadentes
resta um assombro entranhado na alma
deserto lugar onde antes havia leveza e sonhos
.
.
perdoai-nos, mãe...
.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010



envelheço depurando-me palavras

precipícios sob os dedos

incapaz de escapar ao ciclo

que impiedoso agora retorna

pois tem um preço a cobrar
.

sexta-feira, janeiro 22, 2010



ao arseniï tarkovskiï


I

(murmúrio)
.
abrigo-me do vazio
sou um velho recontando estórias
aos que não estão mais aqui para escutar
.
II

(prece)
.
livrai-me do medo
dessas noites que me devoram
a quietude da solidão
.
III
.
(repouso)
.
partiram deixando-me a vida
e fiquei sem ter a quem dizer
adeus
.
IV

(girassóis)
.
encontrarei vossos sorrisos
como um louco à tempestade
o céu sob nossas pálpebras abrindo-se, outra vez...
.

domingo, janeiro 10, 2010



I

não sou habitado por silêncios:

antes sonho-me posse da noite

e meus demônios partem, sozinhos.


II

de minha infância resta um copo de prata:

ocupo-me de atalhos a quem não sou

meus registros parem memórias baldias


III

o medo guarda algo de espeerança:

oculta-se das preces o labor

remendamos os erros de deus ao concedermos perdão


IV

escuta o pai adormecer-nos filho:

em seus olhos havia ternura

coisa que há muito deixamos para trás


sábado, janeiro 02, 2010



I


ímpio

recusas o sono

a companhia dos anjos da guarda

pois há algo por ser escrito

só não sabes o quê


II


errante

segue madrugada adentro

mas o tempo insiste em fragilizar-lhe os dedos

e as palavras que busca junto à esperança

devolvem-lhe a certeza de que restam apenas sonhos


quinta-feira, dezembro 17, 2009



cantiga à vó nazaré
in memorian


I
a doce vó partiu
e aquela manhã vestida de luto
sobre nossos ombros desabou
a imensidão do céu
.
II
a morte fratura memórias
ossada abandonada por deus
porque já não temos para onde ir
porque já não há mais a quem falar
.
III
vó,
diz-nos então de que vale agora
prece lamento e pranto
se miseráveis que somos
há muito de ti fizemo-nos distantes?

.
IV
vó,
não te abracei porque frio
não te escuto porque ímpio
não te mereço porque são

domingo, novembro 29, 2009



ao rubens da cunha. porque seu primeiro degrau (http://casadeparagens.blogspot.com/) arrancou este grito de mim
.
diferente de ti, eu não condenava. porque ainda criança sabia: em minhas mãos padeceriam única e exclusivamente em nome do desespero escrito em letras mortas, enterradas em meus ossos, que era pra não quebrar nem aparecer nem ter cheiro ou cor ou algo mais que deixasse vestígios. desespero que nascia do medo de eu não ser o único naquele quarto – vozes apareciam ao cair da noite, obrigando-me a ficar ali, quieto e em vigília – para que assim pudesse extirpar, no nascedouro, meus sonhos.

quinta-feira, novembro 19, 2009

fragmento

.
.
a culpa nas mãos dos homens
ei-la aqui, envelhecida
arrastando sua carcaça pela casa
desmemoriando em minhas entranhas
o caminho a ser proscrito

malograda e inoportuna
reconhece meus assombros
e transfigura-me em rancor
ao repetir a si mesma
infortúnios

você dirá que eu mesmo a criei
e a alimento com sobras do que um dia foram sonhos
mas dela eu fujo e busco refúgio
porque todo homem precisa temer
algo ou alguém assim tão límpido

[nela sou o nexo]

dela, minha escuridão
.

segunda-feira, novembro 02, 2009


ao carlos besen


I

dissera a cor do primeiro silêncio

ter nascido da chuva

e que toda chuva é feita de lágrimas

e que cada lágrima sepulta um sonho

porque deus negou aos anjos

o sorriso
.

II
.
entendes agora

o canto que encerro em meu peito

o adeus que maltrapilho em meus olhos

os pássaros que inverno em meus ossos

o desmundo que me enraíza

ao medo?
.



domingo, outubro 25, 2009



para a angela

atormentada
cerzia pequenas flores
murmurando coisas ao ontem
enrugado pela dor
que sob a pele erguia em sepulcro

segunda-feira, outubro 19, 2009


.
achavas que a morte
era perda
tudo o que não teremos mais?
.
.
descobre então, doce irmã
sê-la aquilo que fica
nada que possa retornar...
.

sexta-feira, outubro 09, 2009



quando tem início a madrugada
o medo cresce desordenadamente
levando meu coração
a abrigar-se em lugares
que mal sabem de mim
.
então vem o silêncio
lugar onde nem deus ou anjos
ou aurora alguma irá me alcançar
porque nada há para temer
a não ser a quem chamo de eu

quarta-feira, setembro 23, 2009


olha às mãos enrugadas
temeroso
por finalmente ter descoberto
tantas marcas assim
não poderem ficar impunes
agora que o tempo de si tomou posse
e cada segundo adiante
sepulta-lhe
as cantigas de onde nascem os sonhos
.
.
.
.
[exatos cinco anos do vomitando imagens
lugar silente onde escrevo
aquilo que me devora]

sexta-feira, setembro 18, 2009



esses homens
há culpa em suas mãos...
.
.
ei-los aqui, sujos
ecoando frases vazias
maquinando na minha cabeça
o eixo a ser seguido




furiosos e sãos
abrem todas portas
quando chego
e ficam estáticos
diante de mim
espiando...




você dirá que eu mesmo os invento e nutro
mas neles creio porque todo homem deve crer
em algo ou alguém
que não esteja limpo




deles sou o foco




eles, minha redenção

sexta-feira, setembro 11, 2009


[estranho-me]
são teus braços-mulher
a me possuir
embora lute-me
porque corpo
homem sou

[escondo-te]
nas muitas que deito
a me bipartir
embora minta-me
quando corpo
ereto sou

quarta-feira, setembro 02, 2009



mamãe morreu aos trinta e três anos
e eu ainda vivia-me infância
quando vi meus brinquedos entristecerem
porque eu não conseguiria mais brincá-los

mamãe morreu num abril distante
fazia uma tarde cinzenta
que logo virou chuva forte
o que alguém disse serem anjos chorando

mamãe morreu em silêncio
deitada em sua cama
no quarto que tanto me faz falta
pois não mais tenho um lugar chamado casa

mamãe morreu uma morte arrastada
que sobre ela voraz debruçou-se
sem deixá-la futuro algum
embora dissessem que deus por ela esperava

mamãe morreu faz tanto tempo
que sua voz de mim parece fugir
também seus olhos castanhos e tenros
nos quais menino feliz eu me via

mamãe morreu e eu não disse adeus
mamãe morreu e eu não soube chorar
mamãe morreu e eu enterrei tantos sonhos
e ainda hoje pergunto onde deus poderia estar

segunda-feira, agosto 03, 2009

I

quantos há de mim
se não sou meu próprio musgo
as águas barrentas deste rio
que me navega a esmo
quando desisto de sonhar?

[meu corpo é erosão...]


sexta-feira, julho 24, 2009


sem dizer
a quem tocaria
deixou-nos infortúnio
e luto
.

pois destino é esmo
rumor eviscerado
feito os amanhãs que de ti
desconhecerei
.

embora saiba
sermos do ventre o avesso
porque arremedo de homens
.
[parimo-nos]
.

cala-te então
carne da minha carne...
o tempo do medo
findará
.

e girassóis hão de tingir
de azul a última noite
levando esses demônios
.

[embora daqui]
.

sexta-feira, julho 17, 2009


meus mortos
eu não os entendo...

por que ficam
naquilo que sonho
quando sequer suas vozes
ou um débil traço de memória
acalenta-me sempre que deles
sinto o pesar?


meus mortos
eu não os tenho...

porque ficam
entremeados a quem serei
quando percorrem meus caminhos
revisitando meu destino
entregando-me ao ocaso
e à míngua do luar

quarta-feira, julho 08, 2009


ao lucas M.



aquarelo histórias em segredo
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
[para que ao envelhecer]
meus filhos possam contá-las

os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
[e eu já não temo mais]
o dia em que morrerei

poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
[para que ao morrer]
meus filhos possam sonhá-las

a crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
[e assim partiremos mundo afora]
nos barquinhos de papel feitos por meu pai

domingo, junho 28, 2009


outra noite
aborto ao máximo a chegada do sono
digitando palavras a esmo
[ou simplesmente]
sentando em frente ao monitor

- as costas doem
os olhos pesam...

sem que nada desocupe
a certeza de ser o amor uma coisa vazia
e que teu sorriso aqui e acolá
é desmemória infectada pela dor
.

sexta-feira, junho 19, 2009

fragmento


o céu

já não alcança a encosta do mar

murmurou o ancião dos ombros caídos

ao afastar-se da multidão assombrada

daquela cidade nascida no meio do nada

(veio tempestade

prenúncio de centenas de línguas partidas pelo ódio

e inundadas pela fome das palavras-ruídos

que aos homens desfeitos sob a imagem de anjos

imprimiu a marca irrevogável do medo)

terça-feira, junho 02, 2009

um deserto
pouco a pouco
devorando tua ausência
.
onde
nada mais parece existir
.
só o silêncio
.
[o silêncio]

sexta-feira, maio 08, 2009

fragmentos de um livro por vir

antes do mar, a chuva
e de cada gota que caía
crianças vestidas de sol

sexta-feira, maio 01, 2009

fragmentos de um livro por vir



TOMO I

(AURORA)


a carne
fez o verbo
– signo tempestuoso –
saliva e carvão


.

.

e vieram sombras
[e por dentro das sombras]
restos de luz
tecidos aos pares
impossíveis de sustentar


.

.

dobradura, o tempo
rabiscou eternidade
donde fugiram pirilampos


assim fez-se a primeira aurora
prenhe de céu
tecelã distraída do mar

quinta-feira, abril 23, 2009


perfuro a realidade
[busco sonhos]
onde sonhos não há

terça-feira, abril 14, 2009

[travessa do chaco número cento e setenta e dois
– ali moravam
a avó: conhecera vargas pessoalmente e disso orgulhava-se; mais tarde seria vitimada por um acidente vascular cerebral
o menino loiro: sonhava ser lennon ou barrett; adulto, mero advogado beberrão e insone
a criada: gorda, negra, sorridente e servil; terminará seus dias sozinha
o tio: ridiculamente histérico, afeminado e flácido
ali, as portas rangiam, o teto tinha goteiras, as paredes dos quartos e da sala há muito não eram pintadas
imune a todos, ana preta
a gata que escolhera aquela família como destino –
belém, 6 de janeiro de um ano qualquer.]


ana preta morreu
a gata angorá
que andava pelos corredores
daquele casebre e de todos sabia
trevas e demônios
agora
não os pode calar

sexta-feira, abril 10, 2009

era feita de carne e osso não era esse arremedo de mulher escondido sob tanta amargura desconfiança melancolia e desamor que pune a si ao enumerar forçosamente cada detalhe da madrugada onde tudo começou [aje desta maneira todos os dias exceto aos domingos quando finge estar em paz] porque não pode esquecer primeiro ter escutado o barulho de passos encurtando a distância entre os quartos seguido pelo ranger da porta que espantou pra sempre o seu anjo da guarda [por isso mais ninguém ouviu aquele sussurro ordenando que ficasse bem quietinha] e assim ficou a madrugada inteira sem saber que outras madrugadas ainda viriam deixando pra trás um silêncio sem nome [de lá pra cá perdeu a conta de quantos consigo deitaram fantasmas que foram] sabe apenas que nenhum será tão sujo mentiroso e assustador porque aquelas mãos a conheciam desde criancinha [e se antes aqueles abraços traziam proteção e segurança hoje são abismos de onde não saberia mais voltar]

terça-feira, abril 07, 2009



tu me sufocas tua presença é sombra quarto vazio que não consigo desocupar por isso de uma vez por todas é hora de dar um basta preciso de distância de um lugar livre da tua superfície você dizia com uma convicção aterradora enquanto eu continuava o processo de transfigurar qualquer sinal de emoções em paisagens habituais momentos já vividos perguntas já respondidas reações já sabidas nada de riscos então porque só assim saberia digerir a culpa que repetias ser apenas minha esquecendo que houve um instante um gesto um ponto onde a verticalidade enganosa da felicidade nos fez tropeçar naquilo que críamos ser amor e que agora adoece diante de nós ar rarefeito que é.

quarta-feira, março 25, 2009

são paulo


o esqueleto dessa cidade
[tão grande, meu deus
....................................... tão grande]
.
é feito de pessoas
que sorriem ao contrário
e remoem terços de mísera fé
sentadas em cadeiras de balanço
frente a janelas fechadas
nascedouros de horizonte algum

sábado, março 14, 2009

I
à sombra do homem
respiro-me árvore
raiz no solo do medo que sou

II
reconheço-me no murmúrio distante
dos pássaros que entre a aurora e a tristeza
em busca de abrigo aqui chegarão

sexta-feira, março 06, 2009


I

contenho a perda de mim
atravessado pela febre gaguejante
dos cimos nus ao meu redor

II

mortos pai e mãe escapo-me filho
sou um barbante enrolado
no dedo magrelo de deus

III

despertos medo e ternura avanço-me resto
sou o risível costurado ao perdão
que jaz estampado nos olhos de deus