quinta-feira, maio 05, 2011


vermelho,o sol derrama-se
pai, mãe, onde repousá-los-ei?

cheguei até aqui
mas não escuto a primavera

[arde em minhas perdas a imensidão da morte]

segunda-feira, abril 25, 2011


tenho rios enfurecidos
sob pálpebras que escapam aos sonhos

tenho pássaros assentados
a desmemórias famintas de sol

sobrevivo,
costurado ao tempo
que me rumina os ossos

sexta-feira, abril 08, 2011


confuso,
guarda pequenas lembranças
peças frágeis
fotos
particularidades de um tempo
amontoado sobre a pele
das mãos do rosto dos cotovelos
a envelhecer
sob a premissa de que todo infortúnio será
recompensado

segunda-feira, março 21, 2011


trouxeram notícias? por acaso ouviram meu nome? estive aqui o tempo inteiro, rastejando lucidez implorando companhia maldizendo as horas que estancavam sob o peso de esperanças desditas presságios tortuosos e murmúrios [lembranças do homem que fui].respiro pausadamente. observo. reconto o tempo. redistribuo funções. impacientemente. as respostas às minhas preces são febris e sou eu sou eu e mais ninguém quem as vigia alimenta perpetua tão logo a distância entre perda melancolia e uma manhã azulada desaparece.

respeitosamente,

d.
.



segunda-feira, março 07, 2011

I
acaso reconheces em cada alvorecer
os lamentos
a sombra do homem que se afasta
o nascedouro de todos os medos
que te trouxeram aqui?


II
és sangue ou destino?
.
III
tuas mãos
repousam sobre meu leito de morte


IV
somos deus
e um amontoado de coisas mais
.

terça-feira, fevereiro 22, 2011


ao amigo esquilo

retorno ao lar
que nunca me soube
[dele carrego um silêncio preenchido pela angústia de terminar só]

as paredes o teto os móveis as louças continuam lá
só não a morte
[que partiu com os sorrisos as brincadeiras o cheiro do bolo de fubá]

esta casa já não me habita...

[sou um homem que perdeu a infância]

terça-feira, fevereiro 01, 2011


.
invejo deus

porque a ele não pertence a morte

matéria imprecisa que é

só a nós,

que na fundura do momento

nos sabemos

vagantes

desatinos

maldizeres

solidão

segunda-feira, janeiro 24, 2011


todo anjo é voraz
carrega a amargura de ser incompreendido
porque nem deus nem homem nem infância
todo anjo é insano...

forjadores de sonhos
reconhecem na fé um corte profundo
que não dói que não sangra só esperança
todo anjo é insone...

sexta-feira, janeiro 14, 2011

há restos de abandono
nas palavras
nas amarguras
nas míseras ilusões
dos que passaram por aqui...
.
[deixaram-me só]

sábado, janeiro 01, 2011


são fantasmas, bem sabes

mas quem te escutará

quando a madrugada avançar

sobre os vestígios do homem que a ti custou

crer?

[hoje nada mais parece fazer sentido

– é a aurora de um novo dia]

sábado, dezembro 18, 2010

dear captain


há um homem de pé sobre as areias do deserto
é alto, tem olhos que me lembram o céu
está sozinho e segura um quadro que ele mesmo pintou
mas para o qual não consegue dar um nome
[por isso a sombra às suas costas busca o horizonte]
logo mais, ele não estará ali
.
captain, dear captain
não soube outro modo de te dizer adeus.
.
captain beefheart,
1941-2010

terça-feira, novembro 30, 2010


.

essa infância que não volta

lugar que perdeu o cheiro

e me consome os dias a esmo

eterna,

respira-me grudada à pele feito sombra

.

domingo, novembro 21, 2010


ao esquilo


I
.
em mim
há um desejo absurdo de sofrer
tanto que sei, amigo
a incredulidade do sopro e da razão
.

II
.
do meu corpo
faço paragem aos que me habitam
desde que soube, amigo
ser multidão até morrer-me um só

terça-feira, outubro 12, 2010

.
experimento as trevas
o desgaste
a sofreguidão, o luto
de manter-me de pé
de resguardar-me ímpio
porque vago quando lúcido
irreconhecível aos fantasmas
daqueles que restaram em mim
.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Aqueles para quem certas palavras têm um sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modos afetados, aqueles para quem os sentimentos têm classe e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em "termos", aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também estas mulheres que falam tão bem e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros
- são os piores porcos.
(antonin artaud)
.
amontoam-se, não?
e sorriem todos, mãos postas sobre as mãos
[tem os olhos voltados a mim]
e julgam e repartem meus sonhos entre si
[há nódoas nestes espíritos]
.
- mas você os tem nas entranhas, esqueceu?
...
.
de onde nascem e por que são paridos assim, feito massa uniforme?
[me pertencem, como pertencem à memória os escombros]
.
- cala-te então

quinta-feira, setembro 23, 2010

cantiga aos meus quarenta e três anos

incrédulo,
fiz dos sonhos
um lugar rarefeito.
.
[amanheceríamos de novo e a infância não teria partido
nem a morte carregado nossa mãe]
.
por que essa procissão de descalços ajuíza meus infortúnios? são vocês os que percorrem meus desatinos? eu chegaria até aqui se estivesse sozinho?
.
a casa está vazia
nem vozes
nem sombras
nem preces
vem nos visitar
.
[o tempo data a beleza. cambaleamos rumo a lugar nenhum]
.
das minhas vértebras arrancaria felicidade
ou um momento de paz
que me livrasse daqui.
.

quarta-feira, setembro 08, 2010

há versos meus entranhados nessa cidade
mas eu não os tenho
devorado que sou pela métrica dos arranha-céus daqui
.
onde meus ossos viram esquinas
minha pele, asfalto ao meio-dia
e dos meus olhos resta o abrir e fechar automático das portas dos trens do metrô
.
mas é só mais um dia seguido de outro dia,
atravessando-nos indistintamente
nós, iguais uns aos outros
de tão burocráticos
indiferentes
e civilizados que somos
[eis nossa beleza]
.
venham...
sirvam-se de mim
restituindo-me o homem
outrora sonhos, mata, febre e nanquins.
.

domingo, agosto 29, 2010

.
a poesia daqui
menos grito que descrença

excede-me quando, preciso
[feito cirurgia]
a olho nu
suturo um a um
os medos que se emprenham de mim

.

quinta-feira, agosto 12, 2010

.
.
tudo desaba em mim
a rota que me trouxe ao silêncio,
lugar onde me despeço do medo.

incrédulo, não devolvo aos mortos
que me são caros
a dor de ter restado, sozinho.

eles ficam-me em desespero
à espera de um próximo dia
manchado de destino e adeus.

segunda-feira, agosto 02, 2010

releitura número dois





rumo ao poente
em nítido escape ao que se apregoa destino
andorinhas poetam
EM CARNE VIVA
um amanhã que deus algum selará