domingo, janeiro 29, 2006


janeiro tem um peso – o despertar das auroras desejosas de
felicidade,
emparedadas confusamente dentro do coração.

janeiro tem um fardo – a distância rareando o nosso amor de
chuva,
aninhada secretamente no azul ruidoso do amanhã.

o preço

o peso

o fardo


[ janeiro a tudo
deslinda
e depois costura
quando menos esperamos
com precisão
impecável
janeiro a tudo
permite
e depois cobra
na hora exata
quando é impossível escapar ]

segunda-feira, janeiro 23, 2006


é segunda-feira e custa a amanhecer em belém – meus fantasmas prolongam o ciclo das estrelas [arrastam âncoras feitas de amargas lembranças e fazem da lua um semi-círculo decadente e tristonho]

dói-me a alma num lugar que não consigo alcançar – de nada adiantam cortes cirúrgicos ou as orações ensinadas pela minha mãe [por aqui, vagam falsas impressões besuntadas de culpa e redenção]
espantalho, surpreendo-me com a crueza indisfarçável do teu abandono e colo nas retinas os momentos nos quais fui feliz [metade do que descubro sangra poesia, enquanto emudece em sofreguidão aquilo que em mim não sabe dos anjos, o olhar]

quinta-feira, janeiro 19, 2006


as memórias,

em prece

vasculhando-nos a mudez estanque

dos ossos

- ontem, éramos meninos brincando na rua;

hoje, esquecemos a cor da chuva –

[fugiram-nos os segredos do sol poente]

sexta-feira, janeiro 13, 2006

pro carlos besen,
num alvorecer
esta é a forma original, nasceu assim em mim e assim foi vomitada, mas eu não sabia como postar. a valéria achou a solução. obrigado!

quinta-feira, janeiro 12, 2006


pro carlos besen,
num alvorecer
as andorinhas

são todas

m e r g u l h o

o céu não lhes basta

querem primaverar

os meus

s o n h o s
de menino

segunda-feira, janeiro 09, 2006





LONGE DO CÁRCERE, DAS ASAS UM SONHO.

ao celso, com carinho.


a duração do último sopro nos mastiga a alma, a sanidade, os músculos, a solidão e os ossos, sem a menor pressa [nossos sonhos não têm ponteiros, limita-os a dor]
fazedores de palavras, nadamos nus na brancura da lua esquecida de si no olho desse rio de águas barrentas [há versos que escapam da inveja de deus e só a nós pertencem, de todo azuis]

o triunfo do silêncio que roubamos da corte do velho rei escarlate -
a sagração dos espantalhos!

quarta-feira, janeiro 04, 2006



CANTIGA DAS VOZES BRANCAS
- NICOLAS, O QUE NÃO SABE FALAR -





não há mais bosque

na minha rua

nem mesmo anjo


solidão

domingo, janeiro 01, 2006



eu abri todas as gavetas. eu sangrei todos os fantasmas. eu expus todos os medos. meus demônios, os acariciei com respeito. as palavras, expulsei por completo daqui – não as quero e delas não preciso mais. trouxe meu deus cinzento e trouxe as imagens que estavam amotinadas nas minhas retinas insones. trouxe a mobília e os talheres e as quinquilharias que desocupavam o vazio. trouxe as virtudes que fracassaram e trouxe os planos que pintei em nanquim quando me permiti crer em sonhos. eu trouxe tudo de volta só pra amaldiçoar este ano que termina como ano algum terminou. maldito seja você, ano de dois mil e cinco. maldito seja por todos os anos que me pertencerão.

sim, eu amaldiçôo pra todo o sempre esse ano tingido por cores mortas, esse ano escrito em páginas brancas e frias, esse ano que arrancou de mim pessoas que tanto amo, esse ano que brincou com os ponteiros do relógio da minha cozinha e fez tudo mais arrastado. maldito seja! ano de horas encharcadas pela dor. maldito seja! ano cindido em doze pedaços iguais dum mesmo e amargurado lamento. esses olhos magros que por aqui estiveram, essas verdades descalcificadas, essas vozes, essas paredes, essas felicitações embrulhadas pra presente, essas pessoas que crescem corroídas pela inutilidade como insetos diante da luz – caduquem vocês na paz deserta do paraíso que lhes foi concedido.

no ano novo que agora se esparrama diante de mim, eu terei a felicidade que nunca pertenceu a dezembro. eu terei a chuva dos fins de tarde, o sol, a lua e as estrelas-cadentes e também as águas do rio da minha cidade que brota no meio da selva. eu terei os anjos descalços que esqueceram as mentiras e resolveram brincar. eu terei os sorrisos que me foram amputados. eu terei a fé que me foi mastigada e depois cuspida pro alto. terei as cantigas de ninar outra vez no meu peito e o carinho da minha mãe nos meus dias de solidão. terei os ruídos que medroso escondi no baú. as contusões da minha alma e os teus olhos castanhos, menina dos meus sonhos azuis, eu os terei enfim.
poetas de coisa nenhuma, poetas de vestes amarrotadas e sujas, vocês que me alimentaram na fome e na demência deste ano por mim amaldiçoado e que hoje ficou pra trás, vocês que me salvaram das madrugadas onde nada mais fazia sentido a não ser doses volumosas duma esperança débil, rancorosa e capenga - poetas de mãos e têmporas fortes, de hoje em diante eu vos saúdo e os desafio a dizerem ao mundo que eu sobrevivi impune a esta farsa mundana que eu mesmo inventei, que eu sobrevivi aos pedaços, que eu sobrevivi mesmo que atabalhoado – mas sobrevivi sem culpa e sem pedir perdão. eu sobrevivi a tudo. a tudo eu sobrevivi. e comigo, a alvorada de girassóis que eu busquei em breton.

quarta-feira, dezembro 28, 2005


pai,
esses anjos tão lúcidos,
deixa-os aqui.

esses anjos tão limpos,
deixa-os aqui.

esses anjos mudos, esses anjos tenros, esses anjos que velam,
esses anjos que guardam e protegem,
deixa-os aqui.

pai,
deixa-os aqui, os anjos
deixa-os aqui, comigo

pois lá fora as auroras já sonharam
e eu preciso de um pouco de paz.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

DEZEMBRO EM CINCO PEQUENAS VARIAÇÕES

I RENASCER

acordei esquecido, hoje é um daqueles dias do décimo segundo mês nos quais o que menos interessa é a ordem correta dos talheres ou o ar quente que o ventilador devolve no meu rosto inexpressivo de homem inexpressivo e absolutista que não se permite chorar e que goza gozos invertidos na palma da mão direita. basta uma olhadela pra constatar que lá fora as pessoas exibem orgulhosamente o repertório de dezembro – felicitações, paz, saúde, harmonia e sorrisos. muitos sorrisos. sorrisos por todos os lugares até mesmo nas crianças escondidas nas calçadas mortas de fome de medo de indiferença de desamor e de razão [a razão nos mata a todos, mais cedo ou mais tarde]


II BLASFÊMIA

as pessoas são amáveis e gentis umas com as outras quando chega dezembro. quando dezembro chega as pessoas realmente são boas umas com as outras – essa bondade cristã que coloca as mãos em nosso pescoço e diz
seja feliz assim mesmo. essa felicidade imposta. essa bondade tingida de branco que repete a mesma estúpida canção a manter-nos a infância em estado vegetativo - ela não levantará desse leito, vocês não conseguem ver? maldita seja a bondade dessas pessoas boas e asquerosamente bem-nutridas. maldita seja a bondade que persiste na mentira de que tudo é possível de que tudo é tão bonito de que somos todos irmãos e que somos todos filhos de um deus amável onipresente onisciente onipotente deus da benevolência e do perdão – esse deus não acredita em mim esse deus não acredita em ti esse deus não acredita em nós esse deus se diverte enquanto dormimos enquanto nos fudemos de todo enquanto mendigamos por amor enquanto apodrecemos nos leitos das nossas mortes ainda vivas e inválidas.


III ESCÁRNIO

acordei esquecido e pouco importa todos os passos que dei todas as frases que pintei todas as amarguras que digeri e todos os anjos que vomitei [no céu da minha demência os anjos ainda sabem sorrir, meus anjos retirantes que desenham chuva] hoje é mais um daqueles dias intermináveis dum dezembro que sempre sempre sempre é o mesmo dezembro [um dezembro embrulhado pra presente e que faz da gente um sopro um suspiro um risco de giz num quadro negro numa sala de aula que só ensina rancor perdas e fingimento]


IV ALMA

felicidade! desgraça de felicidade natalina feita de isopor e de tinta fresca prestes a ser manchada. dezembro é um mês mentiroso feito da mentira mais açucarada, feito da mentira que borrifa litros e litros duma fraternidade esclerosada mantida viva às custas de esmolas e esperança. dezembro é um mês feito de cinzas – as bocas que devoram dezembro são banguelas, os cus que defecam dezembro são desalmados, os olhos que refletem dezembro são opacos, as mãos que velam dezembro são trêmulas e vivem suadas. dezembro é só mais um mês de trinta e um dias. não há escape da solidão não há acalento nem porcaria alguma. dezembro! dezembro! dezembro! dezembro! maldito seja todo dezembro porque minha mãe não está mais aqui e minha tia e meu avô e minha avó também e meus brinquedos também e as estrelas-cadentes e os vaga-lumes e os abraços que eram de verdade e a neve que era de mentira e a paz que me fazia dormir tudo isso nunca mais, nunca mais, nunca mais estará aqui [eu tenho fotos, fotos dos que amo, algumas fotos, mas fotos são arremedos, fotos são instantes perdidos que ficam na gente só pra aumentar aquilo que nos corrói]

V COMUNHÃO

trinta e um dias inscritos nos músculos. trinta e um dias e mais alguns segundos quem sabe minutos pra que tudo recomece. trinta e um dias – dias que continuarão aqui quando tudo tiver partido, quando eu tiver partido e as cidades continuarem iluminadas e as pessoas, outras pessoas, prosseguirem na crença de serem felizes de fato. dezembro é um mês curto quando amanhece e infinito quando chega a noite. dezembro é um mês que nos suga a alma e escarra a carne. dezembro é um mês torto, um mês enrugado. dezembro é um mês sem cor em meio a tantas cores. dezembro é um mês cirúrgico [o corte preciso a expor toda a dor que precisa ser anestesiada] dezembro é um mês que nos oferece dádivas sem querer nada em troca. dezembro é um mês hipócrita. dezembro é um mês feliz e triste, diferente, bem diferente da felicidade e da tristeza dos demais.

terça-feira, dezembro 20, 2005

deus não é gentil nem bondoso. deus esquece e confunde. deus não fala em voz alta. deus sua nas axilas. deus é incapaz de desnudar seus pecados diante de nós - deus peca feito um bicho qualquer.

deus afaga meus cabelos quando quer atenção. deus esmigalha meus ossos quando se curva às minhas virtudes. deus é irredutível. deus é vulgar e bonachão – deus se faz de surdo sempre que oramos, e sorri.

deus embaralha destinos sobre a cama. deus nos quer de joelhos. deus espera que apodreçamos em febril devoção. deus não foi batizado. deus não foi registrado – deus brinca de ser o nosso redentor.

deus é um rosto desfigurado pelo tempo. deus é uma frase mal dita em meio a tanto barulho. deus é intranqüilo. deus é uma pena prescrita. deus é um lamento reciclado – deus lança a sorte e vicia os dados.

deus é um rascunho. deus é auto-suficiente. deus é arrogante. deus é esnobe. deus é minha falsa medida. deus é abobalhado. deus é detestável e pueril – deus nunca foi pai e não soube ser mãe.

deus é meu testemunho mentiroso. deus é aquilo que me escapa nos sonhos. deus é o que me falta quando a dor chega. deus sobrevive às velas e aos túmulos – deus adultera as marcas azuis da solidão.

deus apaga estrelas equilibrado sobre pernas-de-pau. deus finge clemência quando quer reverências. deus é cínico e mal-humorado. deus é frágil. deus é mal-alimentado – deus tem medo daquilo que não sabe.

deus esconde a idade. deus disfarça as fraquezas. deus tem mãos trêmulas. deus não sabe dormir em silêncio. deus acorda assustado. deus cheira mal e rói as unhas – deus coleciona moedas enferrujadas.

deus me desconhece. deus me entristece. deus me faz a alma pesada e sorrateira. deus equaciona meus destemperos e corrompe meus vícios. deus obscurece minhas auroras – deus é meu fingimento e meu desamor.

deus sabe onde eu moro. deus me cumprimenta pelas ruas. deus estipula valores e calcula seus lucros. deus obturou todos os dentes. deus não planta girassóis – deus um dia acordou e gostou do que viu.
deus escreve comigo suas linhas tortas. deus guarda mordaças no fundo dos bolsos. deus confunde as cores e pinta aquarelas. deus é destro. deus é covarde e ardiloso – deus sou eu na minha lucidez.

domingo, dezembro 18, 2005


é preciso fixar-lhe o centro, atar-lhe os nervos, dar-lhe um nó na garganta do grito. é preciso mesmo velar os espelhos que tombam ao tempo, numa procissão de corpos encharcados pela apatia do mesmo, sempre o mesmo, dia após dia. é preciso que as portas sejam suficientemente pesadas para não haver escape – nem da claridade do sol, nem da intensidade da lua. é preciso deixar o menino sozinho no seu canto. longe de tudo. longe de deus e dos anjos. longe das sombras que crescem debaixo da pele e das feridas que assolam a alma. é preciso deixar o menino sozinho. longe, bem longe da dor.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

aos trilhos e trens, sobrevivemos nós, atravessando nossas trilhas de estreitezas e alargamentos - trilhas escritas na carne, estreitas; trilhas nodulares da fuga, largas; trilhas descabidas da paixão, estreitas; trilhas lineares da razão, largas [a régua das medidas está guardada numa caixa de sonhos que segue viagem entre os vagões] sim, há lapsos de memória nos lembrando quem somos – do pó que viemos quero a mentira vestida de deus. há sopros de restos de trapos de ontem incrustados nos sorrisos que sorrimos diante do que hoje nos parece lucidez – quero o murmúrio das chuvas em plena praça saudando meus pecados. aos trilhos e destrilhamentos dessas trilhas da vida da gente, celebro eu uma canção atonal de mim mesmo – manchada de sêmen, de sangue, de vinho e de dor.

segunda-feira, dezembro 12, 2005


saiam tirem levem essas vozes daqui! eles estão todos mortos eles estão todos tortos eles não voltam mais eles não descansam em paz eles não pertencem a esse lugar eles ficaram trancados naquela casa naquela sala naqueles corredores naquele tempo que nos fez tão felizes e depois foi embora sem dizer até outro dia. malditos sejam! malditos são! malditos, mil vezes malditos e suas vozes que só a mim dizem como se eu fosse o único passível de saber desses cânticos que jazem no lado de lá da noite [visível e afável, mentiroso e perverso, adoecido e eterno]
por que me cercam de paredes se as paredes não sabem sonhar? por que me banham dessa água se eu já deságuo estrelas e vaga-lumes e papoulas? por que me queimam a carne se eu sou das cinzas o futuro?
eu sou meu deus e sou um deus de merda eu sou um deus disfarçado eu sou um deus invertebrado eu sou um deus angustiado eu sou um deus que esqueceu que era espantalho e ousou sorrir [rasguei páginas em branco e tranquei as portas do meu paraíso – sou meu próprio juiz e sentencio eu mesmo a dor das minhas torturas vorazes]
eu sei dos segredos paridos eu sei dos presságios malditos e sei dos bem-aventurados as mentiras que nos velam os sonhos. eu sempre soube antes mesmo da última ceia ter sido servida antes mesmo do último trago ter sido roubado e do último gole ter sido bebido como quem bebe da própria alma a salvação – para sobreviver era necessário depositar a minha sanidade numa instituição qualquer desde que pintada de branco e sem cheiro de nuvens e vestir minhas tardes chuvosas e mastigar minhas hóstias de medo e me ver livre de tudo me ver livre de tudo me ver livre de tudo e de tudo extrair um fim que coubesse em si mesmo que aparasse todas as arestas e pontuasse todos os mínimos detalhes do que eu seria enfim. e eu aceitei e aceito eu aceito sim tudo o que me for ditado tudo aquilo que for imposto tudo aquilo que me for enfiado goela abaixo. eu me subestimo eu imploro e eu rastejo e eu lambo os teus pés pra me ver livre dessas vozes. eu quero abortar meu batismo eu quero agonizar meus demônios eu quero o cheiro imundo das ruas imundas e das putas sofridas dum cabaré deserto de álcool pecado e gozo.
eu não suporto mais ouvir essas vozes elas não cabem mais em mim elas não têm paradeiro elas não têm ambição elas não permitem um instante sequer de trégua e de amor. eu não consigo mais ouvir esses terços murmurados com devoção pontualmente às dezoito horas eu não consigo auscultar meu coração ser um eco do que as memórias simplesmente ignoram eu não consigo recolher os nacos daquilo que me escapou depois do último pesadelo interrompido pela sensação de que o ar me faltava e o chão era fundo demais pra ser alcançado.
saiam daqui! sumam de mim! por todos os anjos descalços por todos os palhaços sem domingos por todos os instantes que me sobram e por todas as vidas que eu não viverei sem ti eu imploro por paz eu imploro por silêncio eu imploro por um único amanhecer sequer a me devolver aos girassóis esmigalhados na tela dos meus dias de primavera e de brinquedos espalhados anarquicamente pelo chão do quarto que ficou preso num tempo azul que a mim não pertence mais.

quinta-feira, dezembro 08, 2005


a água,

feita da mudez dos deuses

dá vida às pedras

que toca no caminho

antes do sol

antes do sol

segunda-feira, dezembro 05, 2005


dezembro passado escrevi imagens dia após dia, sem parar, não dando trégua ao que me consumia as tripas. havia tristeza e desamor nas minhas células de nada – minha estranha imersão na água que escapa às pedras. hoje, ao acordar, percebi que outro dezembro chegara e eu não passo de um homem lúcido e silencioso, um homem dissipado na ausência das emoções que me são caras, um homem acomodado entre as paredes deste quarto isento de cheiros [ toda assepsia nos esmurra o rosto já perto do amanhecer] um homem beirando a calvície [o tempo me é implacável quando rouba de quem fui a beleza]
hoje, acordei desgastado como um osso que não escapou ao cachorro vira-lata. incômodo, um fiapo de manga preso entre os dentes amarelados. desprezível, pedaço de unha cuspido no chão do quarto. hoje, dezembro espalmou minhas mãos diante de mim e eu pude ver todas as linhas em carne-viva, mendigando por quem não sou, rastejando por quem eu fui, me humilhando por não ter sido. as ressonâncias dos assombros que agora ressurgem atravessam meus escrúpulos sem pedir licença, cavando um abismo que me será refúgio e imensidão [por aqui, nada de novo. nada mesmo]

quinta-feira, dezembro 01, 2005


você não avisou que era o fim. o quarto estava cheio do que nos faltava e ainda era cedo demais pro depois – a madrugada se recusava a aceitar o sol. e você saiu, deixando páginas escritas e palavras soltas pelo chão. você saiu e a mobília ficou, como ficaram também as xícaras esperando o café-da-manhã e as horas sem sentido que me perseguirão a cada volta dos ponteiros daquele relógio antigo que compramos num imaginário relicário europeu. as marcas na pele e as frestas dos desejos e os detalhes obscurecidos da dor. tudo, tudo isso ficou. era preciso um aviso, um bilhetinho, um rabisco qualquer, você deveria saber disso – escrito em azul que é pra não escapar da solidão. você tinha que ter deixado alguma coisa comigo, alguma coisa de sangue, de saliva e de ar. deixado um adeus que não fosse feito de palha desta palha que me ocupa os órgãos e que me estaciona bem no meio da mais árida das estações. era preciso um aceno e um copo de vinho tinto, o último. era preciso drama e paixão, daquela paixão que dilacera e faz da carne hospedeira. qualquer coisa, uma coisa qualquer que não essa indiferença muda que me acaricia os nervos e me dignifica o estado patético de ser lúcido até os ossos, quando eu deveria mesmo era ser um louco a pichar teu nome pelos quatro cantos do meu império rastejante e completamente viciado no vício extremo de ti.

segunda-feira, novembro 28, 2005


estão sempre por perto, essas pessoas de olhos magros. nas ruas desertas, são elas que chegam e levam embora a demência que nos era companheira fiel e faminta. nos dias onde o calor provoca irritação e raiva, são elas as que riem escondidas atrás das portas, covardes e bondosas como todo bom cristão [amaldiçoadas sejam!] sempre esperançosas. sempre prestativas. sempre atenciosas. sempre por perto a sugar até a última gota do nosso desespero. e ficam ali. ficam aqui. ficam por todas partes. esperando pacientemente enquanto desfiam nossos cérebros com dedos de médicos envelhecidos e ausentes. esperando pacientemente, como se fosse a única coisa a fazer, como se soubessem que o amanhã será abatido pelas suas vozes veladas – vozes decompostas em sessenta cânticos, um pra cada volta do ponteiro, num ciclo sem fim a nos regular o humor, o comportamento, os usos, os costumes, as virtudes, as paixões, os lamentos, a dor, a solidão, os vícios[nada lhes escapa] pessoas assim são um teto escuro, dum céu escuro, duma vida engasgada entre os sonhos e as mentiras. seus olhos magros não têm fundo nem horizonte. não têm sangue nem alma nem pele nem brilho nem musculatura nem ódio nem sinal qualquer de emoções. não têm nada e de nada são feitos, estes imensos e incorruptíveis olhos magros que na dobradura do tempo esperam ansiosos por mim.

quinta-feira, novembro 24, 2005


é de dia que minha carne alimenta todos os rostos anônimos que vivem em mim – meus demônios silenciosos, incomodamente silenciosos. e quanto mais a manhã acalora as ruas e suas pessoas revestidas de felicidade, mais de mim rouba o horizonte – entrega-me um futuro escrito em letras mudas e sem mãos; um futuro infestado de cores higiênicas demais, ausentes demais, indiferentes demais, exatas demais, resistentes demais, virtuosas demais,

l
ú
c
i
d
a
s

demais. não, não há nada, nada que se compare aos primeiros raios do sol invadindo o meu quarto e me fazendo lembrar das próximas horas a serem riscadas do meu calendário de um ano só calcificado em doze partes – horas marcadas num relógio feito duma descrença viva a crescer desordenadamente após cada tropeço meu.

é de madrugada que a carne, a maldita carne me inunda de desejos e me faz querer sempre tudo de ti, sempre mais e mais da perversa embriaguez dos teus sentidos, da selvageria nua dos teus instintos, dos pecados delirantes dos teus fluidos; mais das tuas ancas e seios, mais dos teus pêlos e pele, mais dos teus lábios e nuca, tudo assim, exageradamente demais, desmedidamente demais, freneticamente demais,

d
e
s
p
u
d
o
r
a
d
a
m
e
n
t
e

demais. não, nada é tão verdadeiro quanto os meus segredos postos, as minhas cartas marcadas, os meus amanheceres selados pela tua presença dentro de mim – patético e furioso, batizado pela chuva miúda que desce pelos tetos desta cidade deserta, sou um homem convulsivo e viciado em ti. rastejo aos teus pés abaixo de cão.

segunda-feira, novembro 21, 2005


PEQUENA CANÇÃO PRA TI - é tempo de mergulhar nas paixões sem ligar pro que virá – sentir um frio na barriga e o coração sem freios. é tempo de beijos e arrepios e silêncio [aquele silêncio que os olhares só nos sabem falar quando assim, terrivelmente apaixonados] é tempo de sonhos com gosto de sonho azul do azul leve como nuvens de algodão-doce – você lembra desse azul, não lembra? é tempo de estrela-cadente e fada-madrinha, de carinhar de mãe e cantiga- de- ninar cantada suave, bem suave, feito adormecer de criança no berço – toques assim, pequeninos e que desejamos eternos; toques de fazer a gente ser gente, de fazer de novo acreditar [nada pode ser maior que um toque, whitman] sim, é tempo de nós dois e de mais ninguém, porque ninguém mais sabe disso tudo que nos rouba o ar quando não estamos juntos, que nos estrangula as horas quando não estamos perto, que nos tranca por dentro quando não estamos conosco – sim, da nossa paixão sabemos nós e que se dane o resto! então bóra, vem comigo trazendo apenas o sangue dum tango antigo e as risadas invertebradas dum delírio artaud-bretoniano. pega teus sapatos e passeia teus passos nos meus mundos, que eu caminharei os sapatos meus nos passos dos mundos teus [aos novos mundos que serão só nossos, os nossos pés descalços de água da chuva, os nossos pés calçados de noite cadente, os nossos pés pintados com as cores do outono] vamos então! mergulha comigo, sonha comigo, acredita comigo e nada, nada mais importará; nada, nada mais tropeçará nossos anjos cambaleantes ou nossos deuses bailarinos – nem mesmo o tempo que diz estarmos longe demais do nunca, ou o entardecer que diz estarmos cedo demais do pra sempre – menina dos olhos castanhos que me fazem quem sou, amanhece comigo os teus girassóis.