domingo, junho 07, 2015


abandona hábitos
[e declina]
sobre a imagem da mãe, ainda jovem
extirpa o silêncio

[deus e a misericórdia dos tempos idos

afeiçoam-lhe mais que assombram]

arremedo ou síncope
é de si 
o único lugar que resta
nesse longo caminho de volta

sábado, maio 02, 2015



protege, mãezinha
desse medo sem nome
desse homem que não fui
desse deus que não me houve
desse ontem que não veio

protege, mãezinha

dessa minha imensidão

sexta-feira, maio 09, 2014


já não existe dor.
repasso minhas certezas
e averiguo cada um de mim
que somos o mesmo homem incolor
vagando à mingua
feito sombra acuada por um resto de sol

segunda-feira, fevereiro 03, 2014


aquieta-me 
aquilo que não sei
avançando sobre o medo
desterrando a inocência
sacrifico a beleza ao tempo 
e murmuro meus cadáveres 
aos que me habitam

sábado, outubro 05, 2013


esse homem que dá vida a mim
escapou-me entre os dedos
e remendou outro amanhã

(a arritmia do sonho pode ser um abismo morno)

quarta-feira, agosto 21, 2013


retorno ao silêncio.
já não são mais teus olhos
que vêm me acalmar

quinta-feira, março 21, 2013


ao rubens da cunha

deste sangue que me habita
o homem que não fui é vestígio e escape
porque há muito comungo a danação dos incontidos
[eles são-me deus]

então escuta, amigo

a morte é o aporte que me afunda.
minha virtudes, um amanhã feito de ossos.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013



alinhado ao horizonte
envelheço o poente
frágil traço que me resta
(somos dois, somos nada, somos muitos, somos nenhum)

quarta-feira, maio 16, 2012



esse deus que não existe em mim
criou-se ao meu avesso
inervado a sussurros e lamentos
desconhecendo a ternura
e temendo a solidão

esse deus que não existe em mim
pariu-se mentiras e louvor
lambuzado de fome e de ódio
atado ao rancor
pífio mesquinho vão

domingo, fevereiro 12, 2012


ao CC

I
o poeta
feito de pausa e silêncio
sobrevive de cores
ossificadas

II
estático
as devora repetidas vezes
até descobrir-se
envelhecido  

III
volta ao início de tudo
e acuado
de lá não sai
até que lhe ocupem novas paisagens

quarta-feira, dezembro 28, 2011






desertor

fiz nossos sonhos

lugar para não mais voltar

quarta-feira, dezembro 07, 2011



trago o fogo dessa terra aniquilada

a raiz

consumida pela vastidão do deserto

em flor

domingo, novembro 27, 2011


I
em minhas veias
habito-me lamentos
abandono
e imensidão
            
[breviário]




II
sou da morte dos meus
ato-reflexo
a pairar
menor que o silêncio  

>>túmulo aberto>>exatidão

quarta-feira, outubro 19, 2011



monotipia de milton josé de almeida


ao amigo e professor Milton José de Almeida
(in memoriam)

eis que chega a morte, amigo
e eu nem pude dizer adeus
ou saber quais as quimeras
que levaste contigo
ventre de mundos outros que eras

eis que nos afaga a morte, amigo
sabedora dos nossos medos e agonias
tão indócil, arredia e desapegada
porque guardadora de memórias
porque permanência e não despedida

eis que nos revela a morte, amigo
frágeis
solitários
filhos desnudos
de deus algum


a morte não nos pertence, amigo

sexta-feira, outubro 07, 2011

I
meus demônios tem medo
vasculham-me as madrugadas
sempre aos pares, cuidadosamente

[indefesos]
roubam meu sono
[incompreendidos]
agarram-se ao fio de esperança que resiste em mim

II
esses demônios, medrosos
sobrevivem ao tempo que me curva as costas
e porque eternos
não desabrigam meu peito

quinta-feira, setembro 08, 2011

antes carne
fiz-me verbo
sentença de deus algum
[grito oco nas ranhuras do medo]
.

quinta-feira, agosto 25, 2011




o medo confidencia
aquilo que me espreita
[traços de deus]

quinta-feira, agosto 11, 2011

o silêncio respinga
palavras desertas
[ecos do homem que sou]

sexta-feira, julho 22, 2011

povoa teus pássaros em desabrigo
a eles, o desígnio das folhas
que diante do outono
uma após a outra
amortalham-se chão

quinta-feira, junho 16, 2011



a memória
vínculo com o sagrado
rompe-se
sob o revoar de pássaros noturnos
combalidos
rumando ao inverno