sexta-feira, maio 08, 2009

fragmentos de um livro por vir

antes do mar, a chuva
e de cada gota que caía
crianças vestidas de sol

sexta-feira, maio 01, 2009

fragmentos de um livro por vir



TOMO I

(AURORA)


a carne
fez o verbo
– signo tempestuoso –
saliva e carvão


.

.

e vieram sombras
[e por dentro das sombras]
restos de luz
tecidos aos pares
impossíveis de sustentar


.

.

dobradura, o tempo
rabiscou eternidade
donde fugiram pirilampos


assim fez-se a primeira aurora
prenhe de céu
tecelã distraída do mar

quinta-feira, abril 23, 2009


perfuro a realidade
[busco sonhos]
onde sonhos não há

terça-feira, abril 14, 2009

[travessa do chaco número cento e setenta e dois
– ali moravam
a avó: conhecera vargas pessoalmente e disso orgulhava-se; mais tarde seria vitimada por um acidente vascular cerebral
o menino loiro: sonhava ser lennon ou barrett; adulto, mero advogado beberrão e insone
a criada: gorda, negra, sorridente e servil; terminará seus dias sozinha
o tio: ridiculamente histérico, afeminado e flácido
ali, as portas rangiam, o teto tinha goteiras, as paredes dos quartos e da sala há muito não eram pintadas
imune a todos, ana preta
a gata que escolhera aquela família como destino –
belém, 6 de janeiro de um ano qualquer.]


ana preta morreu
a gata angorá
que andava pelos corredores
daquele casebre e de todos sabia
trevas e demônios
agora
não os pode calar

sexta-feira, abril 10, 2009

era feita de carne e osso não era esse arremedo de mulher escondido sob tanta amargura desconfiança melancolia e desamor que pune a si ao enumerar forçosamente cada detalhe da madrugada onde tudo começou [aje desta maneira todos os dias exceto aos domingos quando finge estar em paz] porque não pode esquecer primeiro ter escutado o barulho de passos encurtando a distância entre os quartos seguido pelo ranger da porta que espantou pra sempre o seu anjo da guarda [por isso mais ninguém ouviu aquele sussurro ordenando que ficasse bem quietinha] e assim ficou a madrugada inteira sem saber que outras madrugadas ainda viriam deixando pra trás um silêncio sem nome [de lá pra cá perdeu a conta de quantos consigo deitaram fantasmas que foram] sabe apenas que nenhum será tão sujo mentiroso e assustador porque aquelas mãos a conheciam desde criancinha [e se antes aqueles abraços traziam proteção e segurança hoje são abismos de onde não saberia mais voltar]

terça-feira, abril 07, 2009



tu me sufocas tua presença é sombra quarto vazio que não consigo desocupar por isso de uma vez por todas é hora de dar um basta preciso de distância de um lugar livre da tua superfície você dizia com uma convicção aterradora enquanto eu continuava o processo de transfigurar qualquer sinal de emoções em paisagens habituais momentos já vividos perguntas já respondidas reações já sabidas nada de riscos então porque só assim saberia digerir a culpa que repetias ser apenas minha esquecendo que houve um instante um gesto um ponto onde a verticalidade enganosa da felicidade nos fez tropeçar naquilo que críamos ser amor e que agora adoece diante de nós ar rarefeito que é.

quarta-feira, março 25, 2009

são paulo


o esqueleto dessa cidade
[tão grande, meu deus
....................................... tão grande]
.
é feito de pessoas
que sorriem ao contrário
e remoem terços de mísera fé
sentadas em cadeiras de balanço
frente a janelas fechadas
nascedouros de horizonte algum

sábado, março 14, 2009

I
à sombra do homem
respiro-me árvore
raiz no solo do medo que sou

II
reconheço-me no murmúrio distante
dos pássaros que entre a aurora e a tristeza
em busca de abrigo aqui chegarão

sexta-feira, março 06, 2009


I

contenho a perda de mim
atravessado pela febre gaguejante
dos cimos nus ao meu redor

II

mortos pai e mãe escapo-me filho
sou um barbante enrolado
no dedo magrelo de deus

III

despertos medo e ternura avanço-me resto
sou o risível costurado ao perdão
que jaz estampado nos olhos de deus

quinta-feira, fevereiro 26, 2009


há medos refugiados
em minha cabeça

[envelhecem sorrisos
daninham sonhos
consomem vida
onde vida há]

não sei o que fazer
para evitá-los

[tem meus olhos
tem meu rosto
me chamam pelo nome
gostam de mim]

domingo, fevereiro 15, 2009


a carne
pariu o verbo

o verbo
negou a carne

[e fez-se verdade
aos olhos medrosos
da razão]

terça-feira, fevereiro 10, 2009

contaminado fui
pela sua felicidade
você amanheceu-me
primavera e girassóis
arrancou a casca do medo
que voraz me sufocava

você acreditou no menino
de olhos castanhos
e mãos de chuva
que o adulto em mim
ano após ano
lentamente assassinava

mas agora partes
as ruas ficarão desertas
os sonhos ficarão vazios
as noites se farão eternas
e o amanhã talvez não diga
o caminho para te alcançar

segunda-feira, fevereiro 02, 2009


cantiga ao vô nicolas


in memorian


a doce vó sorriu um sorriso mudo
éramos domingo e a tarde em céus púrpura findava
quando vi em seus olhos mareados
a saudade trazida por aquele último adeus
e o alívio de quem em fim descobre
um fantasma pesar menos do que quando vivo

terça-feira, janeiro 27, 2009


após um daqueles momentos nostálgicos que respingam reflexão fechamos a porta do quarto e você vem com respostas sucintas que nada dizem de fato e olha pra mim com esse olhar que abisma a procurar desesperadamente um chão como se eu que sequer tenho raiz pudesse ser chão margem limite paragem às tuas aflições pouco claras nessas respostas pensadas ruminadas medidas por isso mesmo não as aceito quero é descaminhos a levar-nos pra lugar algum desde que dentro da gente pra dizer coisas das nossas entranhas mesmo que não haja ninguém a escutar ou fazer eco ruído perturbação qualquer capaz de indicar companhia portanto sem respostas diretas porque entender isso de ser feliz não é coisa que valha a pena ou você realmente acha que iríamos descobrir algo que não um punhado de aconselhamentos daqueles tantas vezes ditos por nosso pais ou lições de boas-maneiras ou um amontoado de comedimentos no que retrucas não se tratar de entender isso de felicidade porque a felicidade está tão clara que nem precisa de explicação porque a felicidade não cabe na razão então percebo estares mais uma vez jogando e te roubo as cartas pra ficares desnuda sem poder fingir já que pra você o fingimento sempre deu resultado mas pelas minhas regras hoje só haverá intempéries e será dessa maneira do meu jeito com as minhas regras sob o meu comando e não me venha com balelas porque teus contos de menina mimada não cabem aqui onde há sorrisos e lágrimas tantas tudo misturado acontecendo ao mesmo tempo a ponto de a felicidade novamente a felicidade e demais momentos de solidão euforia e tristeza emergirem de forma tal que não saberia adjetivá-los aqui nesse quarto em ebulição que cresce de forma insuportavelmente asséptica deixando-me distante de mim e mais ainda de ti a quem tanto amo e eu amo tanto você eu preciso repetir que amo você e dizer que tuas mentiras são menores que as minhas e que teus medos sempre nasceram dos meus e que não há tristeza maior do que te ver triste portanto deixa que eu te abrace não precisas dizer mais nada eu sei as respostas inventei-as pra sermos de novo quem fomos ou algo próximo disso porque é natal e isso deve significar alguma coisa e lá na sala todos sorriem trocam presentes felicitações e se é certo que eu não tenho coragem alguma pra sair daqui deixando essa vidinha adoravelmentesegura&confortável para trás também é verdade que nem tu sairias nem ninguém que eu conheça sequer saberia pra onde ir posto haver algo de cíclico sazonal algo de bumerangue mesmo em nós todos que quando crianças éramos estilingue e nuvens e céu e chuva e musgo e pedra mas hoje somos pedregulho uma coisa estática pesada deveras arrastada mas e se eu fosse ao menos tempestade tu serias ventania e com um relâmpago cravado nos dentes sumiríamos com todos que nos rodeiam mas nem todos porque é natal e essa noite dizem ser noite feliz

quinta-feira, janeiro 22, 2009

o sono não é capaz de me vencer
......................................repito

fixando os olhos ao que há lá fora
pra que sejam os teus passos
.............................................

........................e não os ruídos
..............................................

doutro amanhecer empalidecido
>>>>>>>>>>>>>>>>>
..................................a chegar

terça-feira, janeiro 13, 2009

à ana/marie/carole

acreditava que era possível
preencher o tempo
de uma pausa

[por isso os olhos gritavam]

desenhava ruídos
por dentro dos ossos
esqueleto feito de dor

[porque assim não sangrava]

repartia o medo
entre os mortos
encarnados em de si

[uma só vida não lhe bastava]

depurava virtudes
manipulando a razão
ao buscar o que nem sabia

[emprenhava-se enquanto vagava]

ontem pude vê-la pela última vez
tinham-lhe os olhos calado
a louca dos pés descalços


terça-feira, janeiro 06, 2009


in memoriam

celebro-te
não nestas noites povoadas por medos
que me impedem o sono
e só abandonam-me ao amanhecer
porque assim o querem
porque assim voltarão

celebro-te
não com estes olhos cansados
que me turvam os horizontes
e devoram-me naquilo que falta
porque assim os fiz
porque assim cri

celebro-te
na criança que sobreviveu ao homem
nos sonhos que brincam de chuva
nas aquarelas que cirandam memórias
nos girassóis que alvorecem poesia
no teu amor que eu sei logo mais virá

mãe.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

meus demônios
soube enterrá-los
ao cair da última noite
desse ano acinzentado
que hoje chega ao fim

meus demônios
rodearam-me os caminhos
com passos roubados da terra
e promessas sussurradas
ao nascer do sol

livre deles
desabriguei-me de medos
azulei as noites sem pálpebras
cindi as amarguras silentes
expurgando virtudes e crenças

meus demônios
já não os tenho comigo
e se hoje desconheço o destino
que aos meus destinos sobreviverá
amanhã serei eu o selo a me bastar

domingo, dezembro 28, 2008


a partir de agora, as postagens do "pelúdio ao homem de palha" ficarão restritas ao blog com o mesmo nome(tem um link ali ao lado). acho que assim o vomitando fica menos chato, ou coisa que o valha.
.
.



são cadáveres
a sala está cheia deles
posso contá-los noite afora
até cansar

e assim o faço

chamando-os pelo nome
acarinhando-os feito crias
porque míseros
iguais a mim

(é patético vê-los sorrir
é patético sabê-los aqui)
>

>
trazem nos olhos a cor do esquecimento
pois não sabem mais viver
sem que o medo os consuma
impunemente

e assim o fazem

celebrando a mediocridade
resguardando as aparências
porque bastam-se
agarrados a si

( é mordaça vê-los destino
é assombroso sabê-los meu fim)



quarta-feira, dezembro 17, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


finitimus


fresta onde ninguém
se move
és presságio que descobre
vozes
amontoadas ao acaso
qual
aurora de anjos caídos

(
musgo

relva


)

terça-feira, dezembro 09, 2008

"prelúdio ao homem de palha" tomo I

mendacium
.
.
.
do que chamam vida
a inervação
onde toda claridade recua
sei
haverá homens
soterrados porque loucos
e em seus músculos e ossos
páginas em branco
.
.

do que dizem morte
o desassossego
onde toda fé desmorona
sei
haverá anjos
esquecidos porque lúcidos
e em suas asas e pálpebras
nuvens de chuva

quinta-feira, novembro 27, 2008

"prelúdio ao homem de palha" tomo I



sanctus

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

multidão, multidão
vozes que te perturbam
mas estás só

o que escutas
quando vence o silêncio
são memórias baldias

que não partem
que não ficam
em paz



segunda-feira, novembro 17, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


fremitus


escutei vozes
vindas do lado de fora
chamarem meu nome
sem que houvesse resposta

tinham olhos rasos
desertos em forma de mãos
e o peso das auroras
esquecidas sob os escombros do amanhã

(onde estavam
quando me amortalharam os sonhos
a esperança e as preces
aqueles nascidos de mim?)

sábado, novembro 01, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


ao carlos sousa de almeida


praestantia


há um nada
a corroer-me a vigília

espaço turvo
entre os mortos
os que ficam
os que vagam
dentro de mim

eu gestei o sonho
do qual são vocês
apenas a pálpebra


há rezas caducas
só ouvidas quando noite

ponte atada
ao desassossego
dos que imolam
dos que arrefecem
alheios a mim

eu pari a sentença
da qual são vocês
apenas o verbo

segunda-feira, outubro 20, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


mutus

sei do abandono a quietude. meus sonhos vêm de lá. a demência que me anima é atroz. despedaça a esperança. emaranha o horizonte. e escapa. escorraçado fui dessa cidade de mil nomes ao cair da oitava noite, enquanto o outono lentamente jazia trancado em sombras. reunidos, aqueles homens eram coisa, amontoado de corpos volumosos e sujos a voltarem ódio contra mim. abjetos, por que esconderam o rosto quando passei? por que sussurraram às minhas costas? por que oraram em desespero àquele deus benevolente, risível farsa por eles inventada? por que roubaram meu excesso, ataram meu grito, serviram-se do meu saber, reviraram minhas memórias? achavam que assim mudariam o que lhes escrevi como destino? digo-vos então, homens acobertados pela fé, existirem verdades que chegam pouco antes de o arrebol, trazendo em si as vicissitudes da noite. espirais, alimentam a penúria dos injustos, esvaziando de estrelas o céu. opacas, desconhecem o orvalho e daninham o vindouro. quando mortas, descerram temores. pertencem a lugar nenhum. vide, a solidão peregrina alcançou o luar. eis que se completa a noite. sob o canto da rasga-mortalha, violado pelo jugo ferrenho do olhar de cada um de vós, em desatino sentencio: aqueles que hoje me tripudiaram, amanhã decerto temerão.

segunda-feira, outubro 06, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


amentia

sou meu próprio sumo. nasci de minhas entranhas, antes da luz e do verbo. na palma das mãos cicatrizei o fim de cada estação, ritual amortalhado ao qual chamei destino. desnudo o tempo, apenas a solidão do meu grito me habitava. nem sonhos ou preces, estrelas cadentes ou cantigas, nada, nada havia ao meu redor. por isso fui sementeira e da terra úmida fiz brotar os filhos que hoje renegam minha imagem. por eles criei-me enfermo de toda verdade. por eles aglutinei-me ao silêncio, larva que me infesta a razão. e quis meus olhos avessos à luz. e quis-me refúgio de loucos e pedintes. mas essa multidão nascida de mim, essa horda de homens cambaleantes e vis, zombou, descreu, enlameou o meu nome. porque fracos, porque vãos, porque erros, um após o outro, ruirão. e ao caírem de joelhos, terá chegado a minha hora. sou a única morada, o verdadeiro caminho. a redenção.

segunda-feira, setembro 22, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I

ao rubens da cunha
agminis

há muito caminho por essas paragens. tateei o abandono. fiz da ventura sopro e desatino. nomeei os filhos que não tive. ensinei-os a sonhar os sonhos que não soube. mas apunhalaram-me as costas, meus filhos. desejaram-me morto, ossos e pó. auscultaram-me o coração, buscando dos meus sentires o controle. quanta blasfêmia! como ousaram? ao entardecer chamei-os à morada dos justos, onde a loucura entrecruza as mãos e o céu parece oco, resignado pela imensidão azul. sê prudente, disse ao primeiro. ao segundo murmurei cirandas, restos de uma infância envelhecida que lhe carcome as pálpebras. fiz-me labirinto com as virtudes que vocês não conseguiram suportar, escutaram os demais. sou quem sonambula misérias alheias ao tempo. de migalhas faço meu pão. de assombros, a saliva e o verbo. tolos! pensaram vocês que eu ruiria porque atraiçoado? caída a noite o medo se alarga, infestando de leitos o despertar da felicidade. como sairão daqui? amedrontados feito cães, fugiram aos bandos. sei que acenderão velas ao que desconhecem. as súplicas que deixaram para trás, carregarei comigo até livrar-me do outono. há noite sobrevinda em mim. anjos guardarão meu nome.

segunda-feira, setembro 15, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


obscurum est



- há traidores entre os que ficam.

.
- estendo-lhes a mão, num gesto apiedado?

.
- têm medo, escuta-os.

.
- caída a noite, definham agarrados aos sonhos que não possuem. trazem na boca o sopro da desventura e em seus ossos crescem larvas pegajosas, arrodeadas pelo desamparo.

.
- dissésseis seus nomes e já teriam partido?

.
- anciãos, aqui chegaram e aqui ficarão até a morte. pios, sussurram antigas preces.

.
- arranco-lhes os olhos?

.
- deixa-os, a fé lhes rapinará o arrependimento.

.
- sê clemente.

.
- erguerei pontes entre falsos céus. penetrarei-me do verbo. selarei-lhes o próximo alvorecer.

.

- anjos anunciarão teu nome.

segunda-feira, setembro 08, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


hymn


girassóis adoecem em minhas entranhas, eu disse, enquanto dava-lhes as costas como se fosse possível esquecer quem são. míseros, como ousam julgar meus atos? sabem vocês a crueza das palavras a roer meu crânio? restos de esperança espumaram em minha boca, mas vocês aqui não estavam quando os chamei pelo nome. condeno-lhes a rastejar, então. porque há cores que escapam ao envelhecer e disso vocês não sabem. porque há desertos invioláveis sob meus pés e isso vocês não suportam. porque na terceira manhã pari-me imune à paz interior e por isso vocês padecem. devolvo aos que ficam as memórias. roubo-lhes a vigília. esmorece o céu. anjos venerarão meu nome.

domingo, agosto 31, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


agnus dei


- cheguei até aqui à revelia de deus. não pretendo voltar.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
- cobra um preço, a felicidade?

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- carrego em meu bolso hóstias que não aceitei. era tarde, minha mãe havia morrido e do meu pai sobraram arremedos. cresci só. cedo perdi meu único irmão.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
- cobre-nos de silêncio, a esperança?

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
- contemplam-me os homens. buscam em mim respostas que aliviem a insignificância da vida quando trilhada ao avesso. demência. demência é o que revela a alma de cada um.

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
- abençoa-os então.

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<

- escuta: devolvo aos que ficam o trigo. roubo-lhes a fome. aurora por chegar.

domingo, agosto 24, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


angelus

é preciso inventar um dia de sol e de paz. rirão de mim, dizendo a lucidez escorrer pelos cantos da minha boca e que a aflição dos meus órgãos, desastre, desagrego, rumará comigo até o fim. à porta, são vozes confusas e apressadas a paisagem que me esmiúça o desespero. ergo os fantasmas e sigo. sombras, destino. afã, amargura. há tormentos lacrados em meus olhos, horizonte a me espreitar. há um aporte ao que resta da minha dignidade. anjos ecoarão meu nome.

quarta-feira, agosto 13, 2008

I
tão distantes de ti, meu deus
os caminhos que me trouxeram aqui
e só agora eu sei-los,
regresso

II
tão incerta de mim, meus deus
a fé que me alimenta de esperança
e só agora eu sei-la,
anomia

III
pois se a ti coube, meu deus
escrever o que será meu destino
sou em quem traz nas mãos as linhas
tortas

terça-feira, agosto 05, 2008

ruptura – sombras invertidas remetendo
ao interior dos ossos
cárcere de palavras enervadas – MÚSCULOS
em hipertrofia anabólica
<<<<<<<<<<<<<<
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< há um padrão nisso tudo
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
um ciclo
(tiquetaquear)
amorfo
que
sobre-
>>>>>>>><<<<<< >vive>>>>>>>>>>>>>>>>>distante
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
[o limite é impreciso quando o corpo
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<sonha]
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
sabemos agora
ele veio com a primeira aurora
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
e no hálito trazia saudade –

um eco sujo de mar

terça-feira, julho 29, 2008


carrega a ti enquanto filho

o ressoar da infância

umbilicada ao tempo que te vê passar

(tem sede tem fome tem medo )


e transmuta o silêncio
dos teus pés molhados de rio
nascente da chuva
que não vem



por acaso sabes quem és

ou somente centelhas

sonhares?

terça-feira, julho 22, 2008



ao rubens da cunha



colo sob as pálpebras
a cidade que não me reconhece

perdidas em memórias
suas casas paralelepípedos e praças

vivem em quimeras
a criança que em mim não sei mais

terça-feira, julho 15, 2008


anjos da guarda
amontoam-se à minha cabeceira
exaustos que estão
por velarem meus sonhos

e porque sei não sobreviverem
ao que chega com a aurora
em louvor e glória
dormirei seus pesadelos







terça-feira, julho 08, 2008


uma longa espera trouxe-nos aqui
encobrindo marcas dum futuro refeito
por retalhos ungidos de sol:
o empalhar do tempo,
adormecer medroso
do que fomos em vida

domingo, junho 29, 2008


palavra – sementeira
germina verbos
(ecos)
no ventre
oco
(rabisco em azul)

cicatriz do silêncio

quinta-feira, junho 12, 2008

no olho
– paisagem



dilacerado por cores



atravessa-me
o alvorecer



respingando poesia

segunda-feira, junho 02, 2008


busco a esperança
sem que ninguém compreenda
a dor que me escava
os temores que me consomem
o silêncio que não me abandona
a demência enfurecida
que costura meus sonhos
ao avesso


busco-a madrugadas afora
entre memórias e escombros
até que sombras recaiam
sobre meus ombros fustigados
lançando-me de volta ao início
margeado pela confusão de quem
regressa carregando um cadáver
dentro de si

sexta-feira, maio 23, 2008


a carne
fez o verbo
– signo tempestuoso –
saliva e carvão

terça-feira, maio 13, 2008


fantasma, medo
o silêncio que sobrevive ao abandono
é um cão faminto, inquieto
velado por sombras alheias

vide, descobriu-nos pequenos
frágeis, mentirosos
multidão envolta em preces
ansiando por dias melhores

prenúncio, eis que finalmente chega
aportando naquilo que resta
limiar da sanidade, onde somos
margem e farol

domingo, abril 27, 2008


tardavam a surgir
sempre aos montes
respirando de par em par
entre sobreiros e vielas
descalços, lá longe
escrevendo destinos
destroçando esperanças
como se fossem deus
porque não se importam
com as tardes desmoronando
em murmúrios a nos consumir
os sonhos, vagarosamente

quinta-feira, abril 17, 2008


PRELÚDIO
neste tempo miúdo que me cabe
silencio você.
desfaço as páginas do sol-abismo
sentencio você.
nesta estação deserta que me inverna
re-leio você.
imunizo as artérias do coração-sepulcro
renego você.

*

INCÔMODO
eu não caibo em sentimentos
eu não acredito na felicidade
eu caminho lugares sem cor
eu emudeço os pingos da chuva
eu guardo fios de memória
eu acumulo esperança nos ossos

*

PESAR
tenho comigo um sol poente
- a mim faltam-me estrelas cadentes -
afundei meus barquinhos de papel
- fiz do lamento uma pálpebra-lodo -
meu destino, escrevi-o invertebrado
- desde o início fui apenas um falso sonho-bom -

*

ADEUS
sou um tumor que chegou ao fim
um nó atando teus fantasmas
uma fratura expondo teus tropeços
um erro negando teu deus
um lamento desfocando teu olhar

eu, espantalho.

quarta-feira, abril 09, 2008


contenho a madrugada
espreito o silêncio
meus medos reunidos
respiram-me a sobrevida
que perdura sobre um livro
de páginas abertas

domingo, março 30, 2008

saberá a tarde que finda, ó pai
no ventre da noite
fazer-se aurora?

quinta-feira, março 20, 2008

começaram a apodrecer
pai, mãe, avós
a casa toda de uma só vez
e riram de si
e nós também

quarta-feira, março 12, 2008


pro rubens da cunha
I
permaneciam os corpos
escorados sobre ângulos
mudos

II
da alma não mais sabíamos
curar-lhes os pesadelos
malsãos

III
mortos estão
velemo-los libertos dos anjos
medrosos

IV
em memória guardá-los
volver ao medo uma prece
malsim

segunda-feira, março 03, 2008


descobrira com a morte do avô
que ao respingar nos telhados
memórias deixadas para trás
a chuva escreve o destino
de cada um de nós

(deságüe do céu
àqueles que ficam
revela segredos
nascidos dos anjos)

quinta-feira, fevereiro 21, 2008


no princípio eram coisas,
não eram palavras

[estavam todas lá, espalhadas]

o verbo surgiu depois,

deus.

domingo, fevereiro 10, 2008


descrentes por aqui passaram
e com olhos ruidosos
e com mãos aflitas
e com mentiras veladas
deixaram aos malsãos
os escombros da fé

(hão de voltar
mais cedo ou mais tarde
para enfim adormecerem
sob o peso infindo dos vossos pés)