sexta-feira, junho 16, 2006
segunda-feira, junho 12, 2006

um adeus-azul
um adeus-poesia
escreve um adeus sem dor e sem distância
um adeus que nos faça ausentes da perda
livres da amargura e do pesar
[esse pesar desalmado que toma posse da gente
escreve um adeus-mentira
um adeus-silêncio
um adeus que nos dê colo
feito álbum de fotografias posto sobre a mesa da sala vazia
escreve um adeus que não saiba durar
escreve um adeus com letras de giz
um adeus invertebrado e inconsistente
um adeus-mentira que seja possível de apagar
domingo, junho 04, 2006

sujou as mãos do menino
que enfurecido
pintou andorinhas e estrelas cadentes
mergulhou-as no mar
assolado pela profundidade do azul
descobriu não possuir mais nada dentro do peito
– os sonhos tinham esvaziado feito balão perdido
numa praça em pleno domingo –
[a precisão fiel da dor chegara]
silenciou
e atento lambeu o luar
que nem bem despertara
– nas margens vorazes do tempo
desdisse os selos do destino –
um após o outro
guardou os vestígios
do que outrora fora solidão
[transformando orações em sons amargurados]
isolado e lúcido
das memórias roubou segredos
respirou fundo
descreu do amanhã
segunda-feira, maio 22, 2006

[O ESPANTALHO SANGRA]
pai, perdão
sou um homem silente
que ainda reza todas as noites
e crê em anjos- da- guarda
pai, perdão
permita que eu creia
permita que eu fale
permita que eu de ti me aproxime
pai, perdão
um dia todos erramos
um dia todos tropeçamos
um dia todos fracassamos
pai, perdão
mesmo que o erro tenha sido mentir
mesmo que o erro tenha sido temer
mesmo que o erro tenha sido sonhar
perdoa, pai
[ainda hoje nos imaginei a conversar
e você era mais alto do que eu pensava;
você falava as palavras que eu falaria, verdades;
você olhava fixo aos meus olhos, silêncio;
você alcançava as minhas estrelas cadentes, permissão;
você apontava minhas MENTIRAS e as jogava no meu ROSTO;
você desossava as minhas FRAQUEZAS e as lançava ao VENTO;
você investigava minhas VIRTUDES e de todas DESACREDITAVA;
você me APEQUENAVA e mesmo assim eu NÃO desistia]
pai, perdão
porque no meu coração-espantalho
onde jazia numa sala esquecida na memória
hoje sorriem auroras bretonianas
germinadas pela menina que eu amo
pai, perdão
dá-me tua benção
dá-me tua permissão
é só o que peço
confia em mim, pai
porque eu jamais a deixarei só
porque eu jamais a farei sofrer
porque eu jamais direi adeus
acredita em nós dois, pai
e todas as nossas primaveras
e todas as nossas manhãs
serão de girassóis.
pai, perdão.
terça-feira, maio 16, 2006

– deus está aqui –
a fé é menor que o medo da morte
– o menino permanece sentado na cadeira de balanço –
os choros agora estão mais altos
– pressente que alguém tocará nos seus ombros e dirá que tudo terminou –
havia um cheiro de dor ganhando vida nas paredes do quarto
– no seu faz-de-conta esse dia não chegaria jamais –
o lar agora estava incompleto
– todas as brincadeiras entristeceram –
os sonhos não deveriam ter fim
– o futuro agoniza intercalado aos lamentos –
pequenos somos diante da perda
– a permanência nos afoga em certezas –
traga um adeus que seja frágil
domingo, abril 30, 2006

e olhos que nada vêem
e mãos que nada tocam
e um sorriso estranho
que a tudo espanta
menos o vazio
e a tristeza imensa
desse amor
que disseram morrer
domingo, abril 23, 2006

anjos
&
febre
os tempos difíceis acabarão
nossas preces serão ouvidas
teus ombros acolherão meus medos
[algumas vezes sinto-me feliz
quando mergulho nos teus olhos pálidos]
&
frio
os tempos de sorrir sucumbirão
as promessas afogar-se-ão na fé
meus lamentos sobreviverão aos teus
[algumas vezes sinto-me tristonho
domingo, abril 16, 2006
domingo, abril 09, 2006

- Por que você jogou todos os nossos brinquedos fora? Você sempre soube que eles guardam memórias. Agora, como iremos lembrar?
- O que deveríamos lembrar? A chuva nunca mais será a mesma, você não percebe? A morte tocou as paredes do quarto e nada mais importa. Está tudo enterrado, com a nossa mãe.
- Mas você sabia, as memórias velam os sorrisos. A infância sem sorrisos nos envelhece. Quem seremos nós?
- O silêncio está aqui. A dor passará. Minhas mãos escreverão girassóis, você precisa acreditar.
- Creio nas manhãs quando são azuis.
- As manhãs azuis estão seladas.
- Creio na benção de deus e nos meus anjos-de-guarda.
- É o silêncio que está aqui.
- Você canta uma cantiga e me faz dormir?
- E depois, quem me ninará?
sexta-feira, março 31, 2006

uma das crianças está calada
observando
os movimentos
e o silêncio
quando a noite avança
na ânsia de mais uma aurora
por chegar.
No fundo das gavetas
na tessitura do quarto
as noites antigas
sobrevivem aos tique-taques
e às penosas mudanças
que chegam com as estações
a secura
o calor
a umidade
enquanto a lamparina
sustenta promessas
e preces
diante da criança
calada
e triste
com um resto de horizonte
domingo, março 19, 2006

Você pode tê-la?
Senti-la?
Digeri-la?
Ruminá-la?
[meus livros e discos sentem falta das tuas imaginárias impressões]
Estou projetando algum sentido neste vazio desocupado de ti
[minha redenção alcança o ponto mínimo nas madrugadas, distantes]
Felicidade.
Você pode sabê-la?
Reconhecê-la?
Habitá-la?
Percorrê-la?
[cheguei um pouco tarde, a chuva já tinha passado e Belém respirava sem mim]
Estou a simular o teu sorriso esparramando vida nos meus olhos, tristes
[minha insensatez prolifera sonhos quando a dor me rouba as tuas cores]
Felicidade.
Você pode suportá-la?
Sustentá-la
Alimentá-la?
Sobrevivê-la?
[sobras de sentimentos percorrem as linhas do meu destino na contramão]
Adormecendo os girassóis não precisarei das tuas manhãs clareando meus dias.
quarta-feira, março 15, 2006

A porta do quarto
As páginas dos livros
Os pares de tênis
A lâmpada fluorescente
As estantes de madeira nobre
O rodapé empoeirado
Tudo em silêncio.
Pesando sobre nossos ombros
A calma feita da ausência
A calma feita dos desejos
Dobrados
E guardados
Ao avesso.
Maldita calma-fragmento
Maldita calma-murmúrio
Maldita calma-descrença
Maldita!
O sufoco crescente
O vazio perturbador
A insignificância dos gestos
A frieza do hábito
Daquilo que antes era amor
Agora de todo enterrado.
Espalhadas pelos cômodos da casa
Havia álibis risíveis
Acumulados feito gordura
Entupindo a felicidade
De quem amanhecia com as auroras
Havia mentiras fossilizadas
Atando um nó na garganta
De quem até ontem sonhara
[os gritos estancaram nas rachaduras do medo
os gritos afogaram as primaveras que viriam
os gritos amortalharam a esperança
os gritos nos deixaram completamente sós
presos ao que jamais deveria
domingo, março 12, 2006

Vento,
Escuto teus deuses no meu peito
E mesmo assim estou só.
Vento,
Assobias meu destino nas janelas
Mas eu não sei escutar.
Vento,
Leva minhas dores embora
Que eu juro nunca mais sonhar.
Vento,
És quem escapa pelas ruas estreitas da minha cidade
És quem adormece nas velhas mangueiras da minha cidade
És quem sobrevive aos olhos esquecidos da minha cidade
Vento,
Acolhe na tua grandeza embravecida
O meu império de um só
E crava no teu silêncio sem peso
As manchas da minha alma errante
Vento,
Ouve meus cantos
Aninha minhas preces
Que eu te ensino a ser criança
quinta-feira, março 09, 2006

não era visagem
que do céu recortava
pedaços miúdos
de alegria
[toda vez que a dor chegava
toda vez que a vida cansava
pirilampo era sonho
um sonho bom que crescia]
*
Era Mãe-d’água
chamando tempestade
que dos bichos da mata
encharcava a alma
de magia
[com os encantos da noite
no coração do menino
cantou –se cantiga
sonhou-se poesia]
*
Era pedra de rio
secando o pranto
do homem que chegava
diante do menino
que pra sempre partia
[adormeciam estrelas
na lonjura do peito
sumiam estrelas
sábado, março 04, 2006
sexta-feira, fevereiro 24, 2006

incapaz de interromper a velocidade
das cores que cresciam por dentro
espalhando incoerência nua
sobre a minha pele
- o peso das derrotas; o torpor do esquecimento -
Quando você te levou daqui
anjos desabrigados
e manjedouras abandonadas
passaram a velar o vazio da ausência
alargando os limites corroídos da dor
- essa dor que não ecoa; essa dor limpa demais -
*
FRAGMENTO DOIS
todas as janelas e portas
encerravam o ato enfadonho
de estar contido em mim mesmo
e esquecer as fronteiras do adeus
– minha própria queda; meu abismo sendo alimentado –
No inverno da dormência
eram frestas e rachaduras
a murmurar brincadeiras entristecidas
emolduradas pelo medo
de estar caduco de mim mesmo
- minhas feridas cauterizadas; meus lampejos fossilizados -
*
FRAGMENTO TRÊS
jurei diante de deus.
jurei com fé
jurei de joelhos
jurei em vão
Eu
escrevi teu nome
com meu próprio sangue
escrevi teu nome
soletrando meu destino.
Eu
provei da felicidade
invadi-me da paixão
acovardei-me do amor
e sepultei-me do amanhã.
*
FRAGMENTO QUATRO
Logo mais vem a noite
E ao meu triste olhar
Caberá das auroras
Amputar girassóis
Sou insone
E voltaram as cores
As mesmas cores
Que não sabiam sorrir
Que não sabiam da chuva
E que cresciam por dentro.
*
TEMPO QUE FOGE
quando visto por dentro
é tão somente
uma tolice fantasiosa
uma conjunção pegajosa
uma estória banal e mal contada
uma promessa infundada
um único suspiro
que nos encanta
e nos faz crer
pra depois
sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Somos pedaços de sombras perenes
[desertas, frias e mudas]
As páginas do livro foram lidas ao contrário
[amargura, dor e cansaço]
Saudade-sorriso no coração do menino
domingo, fevereiro 12, 2006

LAMENTO PRIMEIRO
- AQUILO QUE VEM COM AS MANHÃS -
Um grito engolido
pausadamente
faz da tua carne
escritura-sepulcro
[anúncio das manhãs trajadas de cinzas]
Abertas dentro dos olhos
há janelas sem alma
sem vista e
sem ar
[lampejo de insone azul-deserto]
Aos ossos coube
o peso de seguir vivo
na feitura
do homem-rascunho.
[escapa à alma a ternura diminuta do roxo-poente]
Aos músculos coube
sustentar a lucidez
no limiar
do homem-farrapo
[fica na alma a quietude incômoda do branco-abandono]
*
LAMENTO SEGUNDO
- AQUILO QUE PARTE COM A CHUVA -
Um sorriso sedimentado e
um punhado
de moedas
são-te fronteiriças
[o humor do teu deus é raquítico,
A esperança mastigou teus medos e
na tua face
escarrou
anjos desbotados.
A esperança maquina felicidade e
secreta
imaculados
fluidos pegajosos.
*
LAMENTO TERCEIRO
- AQUILO QUE NOS PERPETUA -
Espantalho,
ainda ontem
te vi sentado sobre a grama
enquanto chuviscava
- teus dedos em vão tentavam te devolver às auroras -
Mas murcharam os girassóis e
já não há mais música
embalando o eu-menino
preso ao tempo
que não te leva embora
deste carrossel,
entristecido
a
girar.
Espantalho,
já é noite lá fora
escuta os bichos da mata
e os abraços do rio
que nina o sonho ribeirinho
[é hora de adormecer e recobrar os teus cânticos e a tua fé]
Espantalho,
descansa teus girassóis
tuas cantigas e teus ruídos
pois o frio-poesia saberá te despertar
quando a dor tiver passado e
a angústia alcançado
as trilhas do fim.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006

[lembras da tua mãe e das intermináveis dores de cabeça que a assolaram até a morte;
lembras dos sorrisos que ficaram pra trás,
distantes do toque da memória;
lembras que a vida se prometia eterna
quando as estrelas cadentes brincavam de sonhar
nas tuas noites de menino]
Tens mãos ressequidas e desprovidas de horizonte – é o júbilo da expiação.
[lembras dos rostos repentinamente vazios que passaram a te habitar a
ossada;
lembras do aviãozinho de papel que ganhou o azul do céu,
pra inalcançável não mais voltar
lembras que a primavera tinha o rosto de deus
quando o sol em segredo te disse
que toda dor iria passar]
Existem rumores de que você sonhará cata-ventos – é a ressurreição do espantalho.
Existem cochichos de que você trará os girassóis de volta – é a sagração da infância.
as paredes do campanário
devoram o medo
e mortificam os passos errantes
da purificação
- é preciso limá-las
e
pacientemente
domingo, janeiro 29, 2006

janeiro tem um fardo – a distância rareando o nosso amor de
o peso
o fardo
[ janeiro a tudo
com precisão impecável
e depois cobra
na hora exata
segunda-feira, janeiro 23, 2006

dói-me a alma num lugar que não consigo alcançar – de nada adiantam cortes cirúrgicos ou as orações ensinadas pela minha mãe [por aqui, vagam falsas impressões besuntadas de culpa e redenção]
quinta-feira, janeiro 19, 2006
sexta-feira, janeiro 13, 2006
quinta-feira, janeiro 12, 2006
segunda-feira, janeiro 09, 2006

ao celso, com carinho.
quarta-feira, janeiro 04, 2006
domingo, janeiro 01, 2006

sim, eu amaldiçôo pra todo o sempre esse ano tingido por cores mortas, esse ano escrito em páginas brancas e frias, esse ano que arrancou de mim pessoas que tanto amo, esse ano que brincou com os ponteiros do relógio da minha cozinha e fez tudo mais arrastado. maldito seja! ano de horas encharcadas pela dor. maldito seja! ano cindido em doze pedaços iguais dum mesmo e amargurado lamento. esses olhos magros que por aqui estiveram, essas verdades descalcificadas, essas vozes, essas paredes, essas felicitações embrulhadas pra presente, essas pessoas que crescem corroídas pela inutilidade como insetos diante da luz – caduquem vocês na paz deserta do paraíso que lhes foi concedido.
no ano novo que agora se esparrama diante de mim, eu terei a felicidade que nunca pertenceu a dezembro. eu terei a chuva dos fins de tarde, o sol, a lua e as estrelas-cadentes e também as águas do rio da minha cidade que brota no meio da selva. eu terei os anjos descalços que esqueceram as mentiras e resolveram brincar. eu terei os sorrisos que me foram amputados. eu terei a fé que me foi mastigada e depois cuspida pro alto. terei as cantigas de ninar outra vez no meu peito e o carinho da minha mãe nos meus dias de solidão. terei os ruídos que medroso escondi no baú. as contusões da minha alma e os teus olhos castanhos, menina dos meus sonhos azuis, eu os terei enfim.
quarta-feira, dezembro 28, 2005

esses anjos tão lúcidos,
deixa-os aqui.
esses anjos tão limpos,
deixa-os aqui.
esses anjos mudos, esses anjos tenros, esses anjos que velam,
esses anjos que guardam e protegem,
deixa-os aqui.
pai,
deixa-os aqui, os anjos
deixa-os aqui, comigo
pois lá fora as auroras já sonharam
e eu preciso de um pouco de paz.
sexta-feira, dezembro 23, 2005
I RENASCER
acordei esquecido, hoje é um daqueles dias do décimo segundo mês nos quais o que menos interessa é a ordem correta dos talheres ou o ar quente que o ventilador devolve no meu rosto inexpressivo de homem inexpressivo e absolutista que não se permite chorar e que goza gozos invertidos na palma da mão direita. basta uma olhadela pra constatar que lá fora as pessoas exibem orgulhosamente o repertório de dezembro – felicitações, paz, saúde, harmonia e sorrisos. muitos sorrisos. sorrisos por todos os lugares até mesmo nas crianças escondidas nas calçadas mortas de fome de medo de indiferença de desamor e de razão [a razão nos mata a todos, mais cedo ou mais tarde]
II BLASFÊMIA
as pessoas são amáveis e gentis umas com as outras quando chega dezembro. quando dezembro chega as pessoas realmente são boas umas com as outras – essa bondade cristã que coloca as mãos em nosso pescoço e diz seja feliz assim mesmo. essa felicidade imposta. essa bondade tingida de branco que repete a mesma estúpida canção a manter-nos a infância em estado vegetativo - ela não levantará desse leito, vocês não conseguem ver? maldita seja a bondade dessas pessoas boas e asquerosamente bem-nutridas. maldita seja a bondade que persiste na mentira de que tudo é possível de que tudo é tão bonito de que somos todos irmãos e que somos todos filhos de um deus amável onipresente onisciente onipotente deus da benevolência e do perdão – esse deus não acredita em mim esse deus não acredita em ti esse deus não acredita em nós esse deus se diverte enquanto dormimos enquanto nos fudemos de todo enquanto mendigamos por amor enquanto apodrecemos nos leitos das nossas mortes ainda vivas e inválidas.
III ESCÁRNIO
acordei esquecido e pouco importa todos os passos que dei todas as frases que pintei todas as amarguras que digeri e todos os anjos que vomitei [no céu da minha demência os anjos ainda sabem sorrir, meus anjos retirantes que desenham chuva] hoje é mais um daqueles dias intermináveis dum dezembro que sempre sempre sempre é o mesmo dezembro [um dezembro embrulhado pra presente e que faz da gente um sopro um suspiro um risco de giz num quadro negro numa sala de aula que só ensina rancor perdas e fingimento]
IV ALMA
felicidade! desgraça de felicidade natalina feita de isopor e de tinta fresca prestes a ser manchada. dezembro é um mês mentiroso feito da mentira mais açucarada, feito da mentira que borrifa litros e litros duma fraternidade esclerosada mantida viva às custas de esmolas e esperança. dezembro é um mês feito de cinzas – as bocas que devoram dezembro são banguelas, os cus que defecam dezembro são desalmados, os olhos que refletem dezembro são opacos, as mãos que velam dezembro são trêmulas e vivem suadas. dezembro é só mais um mês de trinta e um dias. não há escape da solidão não há acalento nem porcaria alguma. dezembro! dezembro! dezembro! dezembro! maldito seja todo dezembro porque minha mãe não está mais aqui e minha tia e meu avô e minha avó também e meus brinquedos também e as estrelas-cadentes e os vaga-lumes e os abraços que eram de verdade e a neve que era de mentira e a paz que me fazia dormir tudo isso nunca mais, nunca mais, nunca mais estará aqui [eu tenho fotos, fotos dos que amo, algumas fotos, mas fotos são arremedos, fotos são instantes perdidos que ficam na gente só pra aumentar aquilo que nos corrói]
trinta e um dias inscritos nos músculos. trinta e um dias e mais alguns segundos quem sabe minutos pra que tudo recomece. trinta e um dias – dias que continuarão aqui quando tudo tiver partido, quando eu tiver partido e as cidades continuarem iluminadas e as pessoas, outras pessoas, prosseguirem na crença de serem felizes de fato. dezembro é um mês curto quando amanhece e infinito quando chega a noite. dezembro é um mês que nos suga a alma e escarra a carne. dezembro é um mês torto, um mês enrugado. dezembro é um mês sem cor em meio a tantas cores. dezembro é um mês cirúrgico [o corte preciso a expor toda a dor que precisa ser anestesiada] dezembro é um mês que nos oferece dádivas sem querer nada em troca. dezembro é um mês hipócrita. dezembro é um mês feliz e triste, diferente, bem diferente da felicidade e da tristeza dos demais.
terça-feira, dezembro 20, 2005
deus afaga meus cabelos quando quer atenção. deus esmigalha meus ossos quando se curva às minhas virtudes. deus é irredutível. deus é vulgar e bonachão – deus se faz de surdo sempre que oramos, e sorri.
deus embaralha destinos sobre a cama. deus nos quer de joelhos. deus espera que apodreçamos em febril devoção. deus não foi batizado. deus não foi registrado – deus brinca de ser o nosso redentor.
deus é um rosto desfigurado pelo tempo. deus é uma frase mal dita em meio a tanto barulho. deus é intranqüilo. deus é uma pena prescrita. deus é um lamento reciclado – deus lança a sorte e vicia os dados.
deus é um rascunho. deus é auto-suficiente. deus é arrogante. deus é esnobe. deus é minha falsa medida. deus é abobalhado. deus é detestável e pueril – deus nunca foi pai e não soube ser mãe.
deus é meu testemunho mentiroso. deus é aquilo que me escapa nos sonhos. deus é o que me falta quando a dor chega. deus sobrevive às velas e aos túmulos – deus adultera as marcas azuis da solidão.
deus apaga estrelas equilibrado sobre pernas-de-pau. deus finge clemência quando quer reverências. deus é cínico e mal-humorado. deus é frágil. deus é mal-alimentado – deus tem medo daquilo que não sabe.
deus esconde a idade. deus disfarça as fraquezas. deus tem mãos trêmulas. deus não sabe dormir em silêncio. deus acorda assustado. deus cheira mal e rói as unhas – deus coleciona moedas enferrujadas.
deus me desconhece. deus me entristece. deus me faz a alma pesada e sorrateira. deus equaciona meus destemperos e corrompe meus vícios. deus obscurece minhas auroras – deus é meu fingimento e meu desamor.
deus sabe onde eu moro. deus me cumprimenta pelas ruas. deus estipula valores e calcula seus lucros. deus obturou todos os dentes. deus não planta girassóis – deus um dia acordou e gostou do que viu.
domingo, dezembro 18, 2005

sexta-feira, dezembro 16, 2005
aos trilhos e trens, sobrevivemos nós, atravessando nossas trilhas de estreitezas e alargamentos - trilhas escritas na carne, estreitas; trilhas nodulares da fuga, largas; trilhas descabidas da paixão, estreitas; trilhas lineares da razão, largas [a régua das medidas está guardada numa caixa de sonhos que segue viagem entre os vagões] sim, há lapsos de memória nos lembrando quem somos – do pó que viemos quero a mentira vestida de deus. há sopros de restos de trapos de ontem incrustados nos sorrisos que sorrimos diante do que hoje nos parece lucidez – quero o murmúrio das chuvas em plena praça saudando meus pecados. aos trilhos e destrilhamentos dessas trilhas da vida da gente, celebro eu uma canção atonal de mim mesmo – manchada de sêmen, de sangue, de vinho e de dor.segunda-feira, dezembro 12, 2005

segunda-feira, dezembro 05, 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

segunda-feira, novembro 28, 2005

quinta-feira, novembro 24, 2005

l
ú
c
i
a
s
demais. não, não há nada, nada que se compare aos primeiros raios do sol invadindo o meu quarto e me fazendo lembrar das próximas horas a serem riscadas do meu calendário de um ano só calcificado em doze partes – horas marcadas num relógio feito duma descrença viva a crescer desordenadamente após cada tropeço meu.
é de madrugada que a carne, a maldita carne me inunda de desejos e me faz querer sempre tudo de ti, sempre mais e mais da perversa embriaguez dos teus sentidos, da selvageria nua dos teus instintos, dos pecados delirantes dos teus fluidos; mais das tuas ancas e seios, mais dos teus pêlos e pele, mais dos teus lábios e nuca, tudo assim, exageradamente demais, desmedidamente demais, freneticamente demais,
d
e
s
p
u
d
o
r
a
d
a
m
e
n
t
e
demais. não, nada é tão verdadeiro quanto os meus segredos postos, as minhas cartas marcadas, os meus amanheceres selados pela tua presença dentro de mim – patético e furioso, batizado pela chuva miúda que desce pelos tetos desta cidade deserta, sou um homem convulsivo e viciado em ti. rastejo aos teus pés abaixo de cão.
segunda-feira, novembro 21, 2005

quarta-feira, novembro 16, 2005

domingo, novembro 13, 2005

quinta-feira, novembro 10, 2005

lembro dentro da minha alma quando numa tarde ela disse a nós dois, no quintal de casa, debaixo do jambeiro florido, que não queria nos dar trabalho e que sofria por estar causando aquilo tudo. nenhuma palavra saiu da minha boca. meu coração sentiu toda a dor do mundo num só golpe. descrença furiosa. fé inabalável. nesta tarde eu inventei um cantinho em mim pra ficar imune. porém, acima de tudo, havia a presença radiante da minha mãe. as canções de ninar. os abraços. os sorrisos. havia amor. havia banhos de chuva e os ralhos que ela nos dava. aprender a tabuada e os afluentes do rio amazonas. aprender concordância verbal e acentuação. eu amava aprender sobre ciências. sobre insetos. meu irmão odiava estudar. preferia brincar, correr, suar, e jogar futebol, no gol. guardo fotos desse tempo. fotos guardam memórias e lugares. mas não cabemos nelas.
não sei qual o dia, mas eu voltava do cinema com o meu irmão e uns amiguinhos do bairro e estávamos todos sorrindo e o céu estava azul e tinha nuvens que brincavam de serem carneiros e tinha o cachorro da esquina que sempre latia e corria atrás da gente quando passávamos de bicicleta. naquela tarde foi diferente. quando chegamos na nossa rua, de longe, pude ver um movimento estranho na frente de casa. eu sabia. eu soube de imediato e caminhei muitos passos infinitos que eu jurei que nunca iriam terminar pra que tudo permanecesse como num sonho. bem antes dos passos alcançarem o infinito, minha tia e minha avó me abraçaram e disseram que minha mãe estava morrendo – em coma, acho que era isso. teria eu dito uma última palavra, dado um último beijo, sentido um último abraço? descrença combalida. fé destroçada. ódio de tudo. e silêncio no coração.
as lembrança que tenho são confusas. parentes orando, parentes dizendo “douglas, fala com a tua mãe, ela pode te ouvir”. “fala com ela, diz que tu a amas”. mas a minha mãe estava lá, deitada, imóvel, no quarto dela que era tão nosso e tão cheio de vida. “fala com ela, ela pode te ouvir”. eu falava, mas as palavras sequer saiam da garganta e eu chorava e as lágrimas sequer escolhiam onde cair e eu via meu pai a ela agarrado em desespero e meu irmão e minha avó e meu avô e minhas duas tias e meu tio e meu primo e via orações serem entoadas e via a tarde ficando poente e a cadeira de embalo estava vazia e eu sentei e quis de volta o meu canto onde nada poderia me tocar. descrença e fé. “fala com ela”. e minha mãe morta. “fala com ela”. e minha mãe sendo colocada no caixão. “fala com ela”. e o túmulo sendo fechado. “fala com ela”. e eu nem pude dizer adeus.
antes do enterro lembro ainda que estava em casa sentado na cadeira de embalo olhando a minha mãe ali, deitada, quando vi o que era a morte. eu pude escutar um suspiro que seria o último. tudo terminou num instante. num único instante. a vida continuava. eu estava respirando e as pessoas tinham movimento e a porta da sala estava aberta e eu apareci no meio da rua e disse pros coleguinhas que minha mãe tinha morrido e fiz questão de não deixar nenhuma lágrima ou emoção aparecer. eu precisava fazer de conta que aquele cantinho onde nada me atinge realmente existia e que logo mais eu seria adulto e a dor passaria. eu precisava ter fé. descrença furiosa. fé inabalável. eu precisava ser forte e encontrar a estrela cadente que um dia me prometeu que a vida seria feliz, que meus desejos seriam verdade, que a morte ficaria adormecida pra nunca mais acordar.
segunda-feira, novembro 07, 2005

CANÇÃO PRO MEU IRMÃO
- observa o tempo, está a fazer silêncio. algumas palavras sempre escapam, trazendo saudade e uma sensação de incompletude.
- não, nós ainda somos meninos e nossa mãe nos chama pra dentro de casa. Ainda somos felizes e as manhãs têm sol, têm brincadeiras e banana amassada com leite condensado.
- mas, e o tempo? você não percebe? o silêncio nos envelheceu demais, é mentira ainda sermos assim, infância.
- vê meus olhos? vê as cores que minha pele faz vivas? aqui existem girassóis e cantigas de ninar. isso nos mantém vivos e livres da poeira, você não acredita?
- como? aqui faz silêncio, eu já disse. estamos sós neste mundo, cada qual com uma história, cada qual com seus fantasmas. não há telas a serem pintadas. não há abraços a serem dados. não há adeus. não há olá.
nada! nada!
- estamos sós neste mundo?
- sim, completamente sós.
- o tempo.
o silêncio.
as palavras.
a saudade.
a incompletude.
- e a nossa mãe não pode mais nos chamar pra dentro de casa.
sexta-feira, novembro 04, 2005

amanhã,
serei um sopro solto sob o sol
pedaço de mim mesmo misturado ao acaso
um olhar vadio
um terreno baldio
um sentimento calado
amanhã,
serei as asas da graúna dos contos infantis
cortina envelhecida nas falhas da memória
um resto de homem
um pouco de fome
um hematoma, e só
amanhã,
são meus os dias inglórios
as despedidas que não tive
os remorsos que não pude
as manhãs que invento
sóbrio de ti










