a saudade descreve um arco que se impõe e faz da memória
lugar que não basta mesmo que a ela eu recorra dia após dia [sim, eu poderia
fazer diferente] mas não faço e seguirei até o fim
inexato
desértico
errante
inevitavelmente,
teu
quarta-feira, julho 17, 2019
fosse amor
não haveria
tanto vazio para respirar
tanto chão e
pouco voar
fosse amor
não haveria
o sol
nascente
pondo-se
entre nós
quarta-feira, março 20, 2019
a alma não guarda não aquieta a alma não escuta ou diz [é arremedo] lugar qualquer sobre o qual repousa deus e danam-se nossos escombros
domingo, março 03, 2019
teus olhos de chuva girassóis manhã afora meu alvorecer acalento lugar bom para sonhar como se a vida fosse seixo miúdo passarinho voando sem tempo para voltar [ninho] peito nu solidão pelo avesso
quinta-feira, fevereiro 07, 2019
silêncio [entranhas] lugar inerte resiste solidão
domingo, janeiro 06, 2019
eu sou chuva
mas o ontem chegou desaguado
e da quaresmeira fez-se cinza
primavera que voltará
desbotando girassóis
avesso do desavesso do que é amor
[abandono à flor da pele]
terça-feira, outubro 09, 2018
desnuda a carne
somos vultos
arremedos vicejantes de um deus qualquer,
mal disfarçamos nossas certezas
vis
ocupamos o tempo de pessoas como
nós
sufocadas como nós
amarguradas como todos nós
que não soubemos
amar
sábado, julho 21, 2018
naufragar de ti
todas as memórias
paisagens
coisas afins
afundar sem ti
toda a dor
sofreguidão
perdas sem fim
[até o fim]
terça-feira, junho 26, 2018
o cheiro do teu sorriso e do meu, amontoado
em um quarto vazio de quem somos
ocupa vagarosamente
o homem que se amálgama às sobras mim
[ajoelho, mas o silencio não sabe curar o fantasma que atende pelo meu nome]
quinta-feira, novembro 30, 2017
o amor partiu
despedaçados, seguimos
colados à lonjura
rarefeita de nós
[desse pouco que resta em nós]
segunda-feira, novembro 13, 2017
porque não havia lugares antes habitados
ou por desabitar
éramos quem sempre fomos [mas estrangulados de nós dois]
restava-nos alimentar memórias descalcificadas
a caírem uma após a outra de nossas trêmulas mãos
sem forças para semear a terra
ou acenar adeus
[migalhas, eis o que são]
domingo, abril 30, 2017
não lembro do seu último sorriso
tens olhos vagos
tuas mãos perderam a força
teus pés não sabem mais como andar
[sol a sol, o cheiro de fezes e urina confunde-se às memórias que guardarei do senhor]
sofro em silêncio com medo e só
e não sei se amarguro todo destino
ou ante deus enfim ajoelho
para saber-te descansar em paz
terça-feira, fevereiro 28, 2017
onde repousas
se o céu ficou preso aos pesadelos de infância
e sob meus pés encontro apenas
silêncio ruína e dor
as estações transfiguradas em lugar algum
tenho medo do adeus que não pude dizer-te
tenho medo daquilo que não sei
tenho medo
e sem tuas mãos por velar meu partir
sob as pálpebras repousará sequer um sonho
que não o do menino aninhado em teu colo
escutando antigas canções de ninar
sexta-feira, janeiro 20, 2017
vivo em pecado naquilo que não estás porque nua, porque puta porque amiga porque irmã
terça-feira, janeiro 17, 2017
esqueces meu nome meu
rosto teus amanhãs já não sabes
de nós, preso ao que resta de cada poente
[vês uma
foto. me carregavas no colo. o que dizem teus olhos?]
envelheces
e é só teu o silêncio
que nos traz
de volta a esse lugar.
segunda-feira, novembro 30, 2015
do alvorecer retorno
agora sabedor dos tempos idos
não mais o silêncio d’outrora
sou homem menos que sombras
sou vestígio menos que arremedo
sou horizonte menos que
precipício
sexta-feira, novembro 20, 2015
ao vitor ângelo,
in memoriam
há memórias, amigo
mas elas escapam entre meus dedos
como se não houvesse mais destino,
frágeis linhas a seguir
sinto a ausência de ti, amigo
e já não me bastam paisagens amarelecidas
porque hoje o fio do tempo ecoa vazio
lembrando teu sorriso, não mais
segunda-feira, junho 29, 2015
em minhas órbitas, um resto de medo enervado feito pássaro esgueira-se do amanhecer
em silêncio, o ajuste das formas a limpidez das cores nulas abreviam-me a lucidez [enfermo, sou eu o homem que sorri]
domingo, junho 07, 2015
abandona hábitos [e declina] sobre a imagem da mãe, ainda jovem extirpa o silêncio [deus e a misericórdia dos tempos idos afeiçoam-lhe mais que assombram] arremedo ou síncope é de si o único lugar que resta nesse longo caminho de volta