quarta-feira, dezembro 25, 2019

a saudade descreve um arco que se impõe e faz da memória lugar que não basta mesmo que a ela eu recorra dia após dia [sim, eu poderia fazer diferente] mas não faço e seguirei até o fim
inexato
desértico
errante
inevitavelmente,
teu

quarta-feira, julho 17, 2019




fosse amor não haveria
tanto vazio para respirar
tanto chão e pouco voar
fosse amor não haveria
o sol nascente
pondo-se entre nós

quarta-feira, março 20, 2019

a alma não guarda

não aquieta

a alma não escuta ou diz

[é arremedo]

lugar qualquer sobre o qual repousa

deus

e danam-se nossos escombros

domingo, março 03, 2019

teus olhos de chuva

girassóis manhã afora

meu alvorecer

acalento

lugar bom para sonhar

como se a vida fosse seixo miúdo

passarinho voando sem tempo para voltar 

[ninho]

peito nu

solidão pelo avesso

quinta-feira, fevereiro 07, 2019






silêncio

[entranhas]

lugar 

inerte

resiste

solidão

domingo, janeiro 06, 2019


eu sou chuva
mas o ontem chegou desaguado
e da quaresmeira fez-se cinza
primavera que voltará
desbotando girassóis
avesso do desavesso do que é amor
[abandono à flor da pele]

terça-feira, outubro 09, 2018


desnuda a carne 

somos vultos

arremedos vicejantes de um deus qualquer, 

mal disfarçamos nossas certezas

vis



ocupamos o tempo de pessoas como nós

sufocadas como nós

amarguradas como todos nós

que não soubemos

amar

sábado, julho 21, 2018




naufragar de ti
todas as memórias
paisagens
coisas afins


afundar sem ti
toda a dor
sofreguidão
perdas sem fim


[até o fim]

terça-feira, junho 26, 2018



o cheiro do teu sorriso e do meu, amontoado
em um quarto vazio de quem somos
ocupa vagarosamente
o homem que se amálgama às sobras mim

[ajoelho, mas o silencio não sabe curar o fantasma que atende pelo meu nome]

quinta-feira, novembro 30, 2017



















o amor partiu

despedaçados, seguimos

colados à lonjura

rarefeita de nós

[desse pouco que resta em nós] 

segunda-feira, novembro 13, 2017


porque não havia lugares antes habitados


ou por desabitar


éramos quem sempre fomos

[mas estrangulados de nós dois]


restava-nos alimentar memórias descalcificadas


a caírem uma após a outra de nossas trêmulas mãos


sem forças para semear a terra


ou acenar adeus


[migalhas, eis o que são]

domingo, abril 30, 2017

não lembro do seu último sorriso

tens olhos vagos

tuas mãos perderam a força

teus pés não sabem mais como andar


[sol a sol, o cheiro de fezes e urina confunde-se às memórias que guardarei do senhor]


sofro em silêncio com medo e só

e não sei se amarguro todo destino

ou ante deus enfim ajoelho

para saber-te descansar em paz


terça-feira, fevereiro 28, 2017

onde repousas

se o céu ficou preso aos pesadelos de infância

e sob meus pés encontro apenas

silêncio ruína e dor

as estações transfiguradas em lugar algum

tenho medo do adeus que não pude dizer-te

tenho medo daquilo que não sei

tenho medo

e sem tuas mãos por velar meu partir

sob as pálpebras repousará  sequer um sonho

que não o do menino aninhado em teu colo

escutando antigas canções de ninar 

sexta-feira, janeiro 20, 2017

vivo em pecado

naquilo que não estás


porque nua, porque puta


porque amiga


porque irmã


terça-feira, janeiro 17, 2017

esqueces meu nome meu rosto teus amanhãs

já não sabes de nós, preso ao que resta de cada poente


[vês uma foto. me carregavas no colo. o que dizem teus olhos?]


envelheces e é só teu o silêncio


que nos traz de volta a esse lugar.

segunda-feira, novembro 30, 2015




do alvorecer retorno

agora sabedor dos tempos idos

não mais o silêncio d’outrora



sou homem menos que sombras

sou vestígio menos que arremedo

sou horizonte menos que precipício  

sexta-feira, novembro 20, 2015

ao vitor ângelo,
in memoriam


há memórias, amigo
mas elas escapam entre meus dedos
como se não houvesse mais destino,
frágeis linhas a seguir


sinto a ausência de ti, amigo
e já não me bastam paisagens amarelecidas
porque hoje o fio do tempo ecoa vazio
lembrando teu sorriso, não mais

segunda-feira, junho 29, 2015




em minhas órbitas, um resto de medo 
enervado feito pássaro
esgueira-se do amanhecer


em silêncio, o ajuste das formas 
a limpidez das cores nulas
abreviam-me a lucidez 

[enfermo, sou eu o homem que sorri]



  

domingo, junho 07, 2015


abandona hábitos
[e declina]
sobre a imagem da mãe, ainda jovem
extirpa o silêncio

[deus e a misericórdia dos tempos idos

afeiçoam-lhe mais que assombram]

arremedo ou síncope
é de si 
o único lugar que resta
nesse longo caminho de volta

sábado, maio 02, 2015



protege, mãezinha
desse medo sem nome
desse homem que não fui
desse deus que não me houve
desse ontem que não veio

protege, mãezinha

dessa minha imensidão