domingo, outubro 25, 2009



para a angela

atormentada
cerzia pequenas flores
murmurando coisas ao ontem
enrugado pela dor
que sob a pele erguia em sepulcro

segunda-feira, outubro 19, 2009


.
achavas que a morte
era perda
tudo o que não teremos mais?
.
.
descobre então, doce irmã
sê-la aquilo que fica
nada que possa retornar...
.

sexta-feira, outubro 09, 2009



quando tem início a madrugada
o medo cresce desordenadamente
levando meu coração
a abrigar-se em lugares
que mal sabem de mim
.
então vem o silêncio
lugar onde nem deus ou anjos
ou aurora alguma irá me alcançar
porque nada há para temer
a não ser a quem chamo de eu

quarta-feira, setembro 23, 2009


olha às mãos enrugadas
temeroso
por finalmente ter descoberto
tantas marcas assim
não poderem ficar impunes
agora que o tempo de si tomou posse
e cada segundo adiante
sepulta-lhe
as cantigas de onde nascem os sonhos
.
.
.
.
[exatos cinco anos do vomitando imagens
lugar silente onde escrevo
aquilo que me devora]

sexta-feira, setembro 18, 2009



esses homens
há culpa em suas mãos...
.
.
ei-los aqui, sujos
ecoando frases vazias
maquinando na minha cabeça
o eixo a ser seguido




furiosos e sãos
abrem todas portas
quando chego
e ficam estáticos
diante de mim
espiando...




você dirá que eu mesmo os invento e nutro
mas neles creio porque todo homem deve crer
em algo ou alguém
que não esteja limpo




deles sou o foco




eles, minha redenção

sexta-feira, setembro 11, 2009


[estranho-me]
são teus braços-mulher
a me possuir
embora lute-me
porque corpo
homem sou

[escondo-te]
nas muitas que deito
a me bipartir
embora minta-me
quando corpo
ereto sou

quarta-feira, setembro 02, 2009



mamãe morreu aos trinta e três anos
e eu ainda vivia-me infância
quando vi meus brinquedos entristecerem
porque eu não conseguiria mais brincá-los

mamãe morreu num abril distante
fazia uma tarde cinzenta
que logo virou chuva forte
o que alguém disse serem anjos chorando

mamãe morreu em silêncio
deitada em sua cama
no quarto que tanto me faz falta
pois não mais tenho um lugar chamado casa

mamãe morreu uma morte arrastada
que sobre ela voraz debruçou-se
sem deixá-la futuro algum
embora dissessem que deus por ela esperava

mamãe morreu faz tanto tempo
que sua voz de mim parece fugir
também seus olhos castanhos e tenros
nos quais menino feliz eu me via

mamãe morreu e eu não disse adeus
mamãe morreu e eu não soube chorar
mamãe morreu e eu enterrei tantos sonhos
e ainda hoje pergunto onde deus poderia estar

segunda-feira, agosto 03, 2009

I

quantos há de mim
se não sou meu próprio musgo
as águas barrentas deste rio
que me navega a esmo
quando desisto de sonhar?

[meu corpo é erosão...]


sexta-feira, julho 24, 2009


sem dizer
a quem tocaria
deixou-nos infortúnio
e luto
.

pois destino é esmo
rumor eviscerado
feito os amanhãs que de ti
desconhecerei
.

embora saiba
sermos do ventre o avesso
porque arremedo de homens
.
[parimo-nos]
.

cala-te então
carne da minha carne...
o tempo do medo
findará
.

e girassóis hão de tingir
de azul a última noite
levando esses demônios
.

[embora daqui]
.

sexta-feira, julho 17, 2009


meus mortos
eu não os entendo...

por que ficam
naquilo que sonho
quando sequer suas vozes
ou um débil traço de memória
acalenta-me sempre que deles
sinto o pesar?


meus mortos
eu não os tenho...

porque ficam
entremeados a quem serei
quando percorrem meus caminhos
revisitando meu destino
entregando-me ao ocaso
e à míngua do luar

quarta-feira, julho 08, 2009


ao lucas M.



aquarelo histórias em segredo
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
[para que ao envelhecer]
meus filhos possam contá-las

os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
[e eu já não temo mais]
o dia em que morrerei

poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
[para que ao morrer]
meus filhos possam sonhá-las

a crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
[e assim partiremos mundo afora]
nos barquinhos de papel feitos por meu pai

domingo, junho 28, 2009


outra noite
aborto ao máximo a chegada do sono
digitando palavras a esmo
[ou simplesmente]
sentando em frente ao monitor

- as costas doem
os olhos pesam...

sem que nada desocupe
a certeza de ser o amor uma coisa vazia
e que teu sorriso aqui e acolá
é desmemória infectada pela dor
.

sexta-feira, junho 19, 2009

fragmento


o céu

já não alcança a encosta do mar

murmurou o ancião dos ombros caídos

ao afastar-se da multidão assombrada

daquela cidade nascida no meio do nada

(veio tempestade

prenúncio de centenas de línguas partidas pelo ódio

e inundadas pela fome das palavras-ruídos

que aos homens desfeitos sob a imagem de anjos

imprimiu a marca irrevogável do medo)

terça-feira, junho 02, 2009

um deserto
pouco a pouco
devorando tua ausência
.
onde
nada mais parece existir
.
só o silêncio
.
[o silêncio]

sexta-feira, maio 08, 2009

fragmentos de um livro por vir

antes do mar, a chuva
e de cada gota que caía
crianças vestidas de sol

sexta-feira, maio 01, 2009

fragmentos de um livro por vir



TOMO I

(AURORA)


a carne
fez o verbo
– signo tempestuoso –
saliva e carvão


.

.

e vieram sombras
[e por dentro das sombras]
restos de luz
tecidos aos pares
impossíveis de sustentar


.

.

dobradura, o tempo
rabiscou eternidade
donde fugiram pirilampos


assim fez-se a primeira aurora
prenhe de céu
tecelã distraída do mar

quinta-feira, abril 23, 2009


perfuro a realidade
[busco sonhos]
onde sonhos não há

terça-feira, abril 14, 2009

[travessa do chaco número cento e setenta e dois
– ali moravam
a avó: conhecera vargas pessoalmente e disso orgulhava-se; mais tarde seria vitimada por um acidente vascular cerebral
o menino loiro: sonhava ser lennon ou barrett; adulto, mero advogado beberrão e insone
a criada: gorda, negra, sorridente e servil; terminará seus dias sozinha
o tio: ridiculamente histérico, afeminado e flácido
ali, as portas rangiam, o teto tinha goteiras, as paredes dos quartos e da sala há muito não eram pintadas
imune a todos, ana preta
a gata que escolhera aquela família como destino –
belém, 6 de janeiro de um ano qualquer.]


ana preta morreu
a gata angorá
que andava pelos corredores
daquele casebre e de todos sabia
trevas e demônios
agora
não os pode calar

sexta-feira, abril 10, 2009

era feita de carne e osso não era esse arremedo de mulher escondido sob tanta amargura desconfiança melancolia e desamor que pune a si ao enumerar forçosamente cada detalhe da madrugada onde tudo começou [aje desta maneira todos os dias exceto aos domingos quando finge estar em paz] porque não pode esquecer primeiro ter escutado o barulho de passos encurtando a distância entre os quartos seguido pelo ranger da porta que espantou pra sempre o seu anjo da guarda [por isso mais ninguém ouviu aquele sussurro ordenando que ficasse bem quietinha] e assim ficou a madrugada inteira sem saber que outras madrugadas ainda viriam deixando pra trás um silêncio sem nome [de lá pra cá perdeu a conta de quantos consigo deitaram fantasmas que foram] sabe apenas que nenhum será tão sujo mentiroso e assustador porque aquelas mãos a conheciam desde criancinha [e se antes aqueles abraços traziam proteção e segurança hoje são abismos de onde não saberia mais voltar]

terça-feira, abril 07, 2009



tu me sufocas tua presença é sombra quarto vazio que não consigo desocupar por isso de uma vez por todas é hora de dar um basta preciso de distância de um lugar livre da tua superfície você dizia com uma convicção aterradora enquanto eu continuava o processo de transfigurar qualquer sinal de emoções em paisagens habituais momentos já vividos perguntas já respondidas reações já sabidas nada de riscos então porque só assim saberia digerir a culpa que repetias ser apenas minha esquecendo que houve um instante um gesto um ponto onde a verticalidade enganosa da felicidade nos fez tropeçar naquilo que críamos ser amor e que agora adoece diante de nós ar rarefeito que é.