domingo, julho 08, 2007



rastreio para dentro do silêncio
eis as sobras prescritas do que julguei felicidade
frágil amor a morrer minusculamente
vazio
ocupando ossos
peles músculos entranhas
perturbando a ordem medíocre
deste mundo por mim erguido
cercado da tua ausência
por todos os lados



“amo somente um vazio e me acalmo danando”

angela ro ro

sábado, junho 30, 2007


nas noites de lua-cheia
nos mistérios d’esse teu voar
tem pena d’eu, rasga-mortalha
livra-me do teu agouro
tranca-me na minha sorte
deixa-me sozinho
na quietude do meu penar.

sábado, junho 23, 2007


os corvos
são companhia
aos teus ombros de palha

da madrugada,
os sonhos
que não vê(e)m.

segunda-feira, junho 04, 2007


a morte
arrasta nosso peso

com parcimônia
vasculha nossas certezas
com arrogância
proclama seu não-fim

cuidadosa

não esquece
de nós

segunda-feira, maio 28, 2007


chuva e sede

CHUVA E SEDE

homens incrédulos, aproximai-vos
eis a sagração do rio

é dia de nascer
e morrer

segunda-feira, maio 21, 2007


o céu
já não alcança a encosta do mar,
murmurou o ancião dos ombros caídos,
ao afastar-se da multidão assombrada
daquela cidade cravada no meio do nada.

(veio tempestade,
prenúncio de centenas de línguas partidas pelo ódio
e inundadas pela fome das palavras-ruídos
que aos homens desfeitos sob a imagem de anjos,
imprimiu a marca irrevogável do medo)


o céu
já não comporta tanta miséria,
gritou o menino rabiscador de auroras,
ao correr entre a multidão desatenta
daquela cidade sepultada no meio do nada.

(veio pôr-do-sol,
epitáfio da felicidade encarcerada pelo rancor
e paralisada pela carência das cores-paisagens
que aos homens forjados sob a imagem de deus,
transfigurou os menores sinais de esperança)

segunda-feira, maio 14, 2007


acolhendo-se,
espera outro instante
sobre o qual debruçar
desta vez, sem falhas
e no acumular de gestos,
a vida em soluços
irromperá lucidez

silenciar seria recomeço

ei-lo,
vide suas mãos
escassas paragens ao léu
como dantes, inventadas
e no perfilar de sonhos
a melancolia em profusão
sagrará insensatez

escapar seria destino

terça-feira, maio 08, 2007


a paisagem
equaciona
mínimas andanças

e pássaros
tristemente
emudecidos

esperançamos
(todos)
o nascer do sol

terça-feira, maio 01, 2007

da série silêncios


SILÊNCIO DOIS

Algumas vezes, antes de beijar a mim e ao meu irmão na testa e dizer “boa-noite, durmam com Deus”, mamãe era visitada por outros silêncios. Silêncios que não lhe pertenciam, mas que chegavam mesmo assim. Curtos, como se indevidos. Vorazes, como se malvados. Tinham o rosto pálido e olhos isentos de cor, dedos magros e alongados.ao aproximarem-se de nós, abriam a própria boca para mostrar que por dentro de si não havia nada – fugia-lhes até mesmo o vazio. Eu podia sentir uma agonia desesperadora a invadir a alma da nossa mãe, que lutava querendo a todo custo levá-los embora dali e desta maneira, nos proteger. Mas eles ficavam, sabiam-na doente e que em breve não mais resistiria. Assim, munidos pela coragem perversa dos que espalham sofreguidão aos quatro ventos, percorriam lentamente os cômodos da casa, passando-nos os sonhos em revista, sorrindo seus dentes estragados a anteverem o sabor da tristeza. Outros eram aqueles silêncios, a nos roubarem a mamãe, dia após dia, por dois longos anos, comprimindo a esperança e trancando as sobras da vida em gavetas despovoadas de sol, de felicidade e de amanhãs.

domingo, abril 22, 2007


ao carlos besen.

quando descobri sementeira ao lado do peito,
eram mãos o arado do medo
brotando chuva miúda
no ceifar da ausência.

enluarado porque em silêncio,
donde solidão crescia
fui um vulto no palhegal
enraizei-me erva-daninha.

terça-feira, abril 17, 2007


passou
você pode descansar
já não há mais dor alguma
o sofrimento procura outros cantos
inexiste lugar para ele em ti...

passou
era só um medo tolo
não havia nada no lado de lá
apenas um chão feito de nuvens
para flutuares feito criança...

dorme agora, amigo
a vida escapuliu das tuas mãos
e deixou um vazio abarrotado de saudade
que memória alguma acalentará

(porque o teu sorriso
as estórias que gostavas de ouvir
e os teus abraços de cantiga-menino
a nós não aquecem mais...)

ao amigo Constantino. sonhe em paz.

quinta-feira, abril 12, 2007

recortei
do céu que você mandou
um pedaço de sol
lancei-o aos pássaros
– aturdidos
voaram,

tempestade.

segunda-feira, abril 02, 2007

da série retraço


por causa dos homens protejo o chão desse plantio onde a fé descobre carcomida estar. colho os sonhos que brotaram do esquecimento, alimentando-os como se meus fossem – tenho nas entranhas matéria desconhecida pelo sol. ó deus! escapo às noites, mas não aos seus pirilampos de sombras. povoa-me o temor. guardo vigília, vossa fé deixou-me só.

por causa dos homens curvados sobre ninguém, estórias de visagem já não se escutam mais. outrora, suas crianças sombreavam-se dos meus ombros brincando de inventar cores – ainda as guardo na memória, estranhas cores sem nome. ó deus! nem assim acolheu-me a felicidade, somente corvos a bicarem meus olhos. tenho medo, vosso desdém conhece-me os fantasmas

a eles, homens, eu devo escárnio e culpa. devolvi-lhes a ilusão da bem-aventurança. assim pude fazer-me eterno – minhas raízes sobrevivem ao cio da terra e à sede que arranca do céu tempestades. escondo dos infestos o destino. são minhas as almas trazidas pelo orvalho. aos meus pés repousam anciões desmemoriados. quando partirem, aqui estarei. eu, espantalho.

domingo, março 25, 2007

da série silêncios


SILÊNCIO UM
não entendia muito bem os silêncios da minha mãe. nos fins de tarde, havia sempre um momento de solidão, um olhar que saltava ao horizonte, um movimento contido das suas mãos a escovar-lhe os cabelos enquanto, sentada, parecia mergulhar mais e mais em si mesma a cada fio roubado pela escova. imaginava o que diziam os silêncios da minha mãe. não havia lamentos, mesmo com toda a dor trazida pela sua doença – as doenças são nossas, são pertences desde sempre habituados conosco; nós as possuímos em suas quietudes e a elas sobrevivemos, até chegar o dia em que, fartas de tanto comodismo, resolvem nos expulsar, como quem enxota ruidosamente um agora inútil hospedeiro, satisfeitas por alcançarem o sentido da existência. perto da morte, não havia tristeza nem esperança nos silêncios da minha mãe.

domingo, março 18, 2007


algumas tardes
apagam todas as cores
pertencentes às minhas lembranças
e ficam estranguladas
naquilo que chamo
saudade

(pesando sobre o meu peito
sem declinarem ao tempo
indiferentes ao anoitecer
maldizem a eternidade)

domingo, março 11, 2007


aqui
eu gosto de ficar

perdoe-me

é minha a solidão

segunda-feira, março 05, 2007

quando o povoado se recolhia às suas casas e se punha a dormir vencido pela quietude do céu estrelado, o velho pescador acocorava-se à beira do rio e escutava as vozes dos espíritos vindas daquelas águas escuras. ninguém mais era capaz de ouvi-las já que a fé tinham perdido e nas antigas preces ribeirinhas só ele cria, a elas agarrando-se com fervor – homem das mãos alumiadas. pelos amigos era chamado de louco; diziam que a mãe-d’água havia lhe roubado a lucidez. dos seis filhos e onze netos restou-lhe passar despercebido, numa invisibilidade só rompida por um ou outro caçoar. dois meses em vigília e o cansaço não lhe abatia, enluarado que estava. madrugada após madrugada, atarefava-se em contar quantos espíritos aquela fundura habitavam. não conseguia, inúmeros que eram. mas deles conhecia os nomes, porque era como se anunciavam, todos ao mesmo tempo, num ressoar de sussurros, ora feito por vozes velhas e cansadas, ora por vozes ainda crianças, de ciranda a brincar. eram vozes perdidas, em desespero. vozes esquecidas, em lamúrias. para cada voz, uma cor – que à beira do rio, qual olhos noturnos brilhavam. para cada voz, um nome. eram nomes comuns, de gente comum. joão. raimundo. pedro. maria. luiza. antonia. nomes de pessoas encantadas murmurando coisas das margens de lá (como ele desejava livrar-se deste corpo pesado e saber as coisas que flutuam nas margens de lá) neste amontoado de cores e vozes e preces e nomes, esquecia de si mesmo e confuso ficava. qual a sua idade, velho homem? onde adormecem as tuas cicatrizes? quantas amarguras selam o teu destino? e o teu nome, por deus, qual o teu nome? como esquecer do próprio nome? ah, quando enluarado ele esquecia! e espírito algum, por mais que a cada um deles implorasse, podia dizer como ele se chamava. lucas. porque sabiam. da fundura do rio os espíritos sabiam que a sua hora ainda estava por chegar.

terça-feira, fevereiro 27, 2007


sorrateiras luzes
pelos cantos da casa
pelas frestas dos cochichos
pelos olhares fugidios
a saber-nos as juras
os segredos de irmãos
trancados na carne

terça-feira, fevereiro 20, 2007


pro arthur bispo do rosário


passarei meus homens em revista
lado a lado
incansavelmente
até libertar esta horda
daqui de dentro de mim

sábado, fevereiro 10, 2007


pra marianna,
que me apresentou
amaranta
do garcia márquez



a velha mulher
farta da eternidade que não passava
decidiu morrer envolta em fagulhas
outrora esquecidas numa primavera distante
calmamente
acordou os vivos do seu vilarejo
dizendo que levaria encantadas na alma
as estrelas daquele céu que sempre os guiou
dali em diante não mais visto por ninguém
– estranha cantiga pra alimentar visagens –