domingo, fevereiro 04, 2007


sob a mudez do amanhecer
adormecem anjos caídos:
em suas pequeninas mãos
sombras empoeiradas
vagam destinos
descrentes em nós

sábado, janeiro 27, 2007


desperta teus mortos
devolve-lhes ao medo
trazido pelo revoar
desses pássaros cegos
que te bicam o coração
blog novo
outras imagens
que precisam respirar

domingo, janeiro 21, 2007



à noite
espessas recordações
alcançam
anjos deserdados
acobertando a boca seca
da poesia:
ORVALHO

segunda-feira, janeiro 15, 2007

nessa noite despovoada
que estacionou diante de mim
observo as mãos hábeis da solidão

apertarem e afrouxarem
apertarem e afrouxarem
apertarem e afrouxarem

meu pescoço
na medida exata
para que alguns anjos e

um terno de demônios
sobrevivam lúcidos
ao amanhecer

terça-feira, janeiro 09, 2007


fecho os olhos
à dor
tenho pálpebras
que ensoalham
mínimas paisagens
roubadas do bolso
daquela velha camisa
do meu avô
morto

segunda-feira, janeiro 01, 2007


meus demônios
os que estão aqui
fragmentam a noite
correndo em círculos
ou simplesmente
parando diante de mim

meus demônios
os que estão aqui
ruminam a felicidade
brincando de nada
ou mansamente
apostando em quem viverá


DEUS
há portas que eu não deveria ter atravessado
o caminho de fé que segui deveria ter sido murado
palavras que cometi, cores que respinguei, sonhos que acreditei
as tuas mãos suportando meus medos, eu não deveria tê-las permitido


meus demônios
os que estão aqui
dissecam a esperança
apostando nos homens
ou cinicamente
sorrindo pelas minhas costas

meus demônios
os que estão aqui
abortam a alvorada
cultivando-nos as virtudes
ou sabiamente
protegendo em si os pecados


DEUS
há certezas que eu não deveria ter provado
a retidão que no corpo atestei deveria ter sido cuspida
parcimônias que assegurei, caridades que semeei, sorrisos que ilustrei
os teus anjos protegendo o meu destino, eu não deveria tê-los admitido





(Que venha dois mil e sete.
Aos seus doze meses
sobreviveremos
como quem salta
outro abismo, sem pedir perdão.)

quinta-feira, dezembro 21, 2006




enquanto esperas
pelas tonalidades do entardecer
é deveras confuso perceber
o silêncio absterso do sol
mergulhando aos poucos no rio
(teu derradeiro fio de esperança)
a marianna, do blog
fez a foto.

sexta-feira, dezembro 15, 2006


recusei a fé dos homens
descobri a insensatez dos anjos
vivi meu inferno e não preciso do teu

escarro felicidade em nome da indiferença
permaneço quieto quando nada mais faz sentido
escaparei inteiro aos presságios da razão

minhas memórias têm olhos vazados
minh’alma é morada do corpo
sede de rio desaguando nascedouro do sol

quinta-feira, dezembro 07, 2006


quando dezembro chegar
com as vestes amarrotadas
tendo às mãos um amontoado
de esperanças desfeitas
para anunciar o novo ano
tão decadente e mentiroso
como todos os anos-novos
que por aqui antes nos habitaram
o que direi de mim?
o que direi de ti?

quinta-feira, novembro 30, 2006


exposto,
o ventre da poesia
agonizava luzes.

sábado, novembro 25, 2006

qual prece que deus algum escuta,
minha lucidez preserva
o desespero
dos entardeceres de outono

domingo, novembro 19, 2006


se escrevo
é pelo silêncio
que me devora
amanhãs

domingo, novembro 12, 2006

no céu deserto
pela fé mesquinha dos homens
andorinhas escapam
INCANDESCENTES
mergulhando na dormência do sol

domingo, novembro 05, 2006


pra vássia
rezo
que é pra espantar
o medo
a morte
que na gente foi inventada:
insone,
vejo anjos onde não existe
futuro.

domingo, outubro 29, 2006


bendito seja
pelas tuas mãos caridosas
pelos teus filhos abençoados
pela fé que de ti emana
pelas promessas que alimentas
pela benevolência daqueles que te cercam


benedictus qui venit
sanctus, sanctus, sanctus
dominus deus



tua luz esteve a guiar-me?
teu perdão me quis ajoelhado?
era a tua voz martelando meus pesadelos?
quando adoeci você esteve ao meu lado?


gloria in excelsis deo
gloria in excelsis deo
gloria in excelsis deo




a casa está vazia
as roupas foram deixadas para trás
carcomidas as verdades restou o tempo
passageiro febril coberto de vermes
o frio a esperar o teu nome


pleni sunt coeli et terra
gloria tua


pai,
antes que amanheça
tropeço no meu acaso
desajunto meus acertos
confesso meus demônios
e cuspo no teu rosto
selando meu fim




credo in unun deum
patrem omnipotentem

sexta-feira, outubro 27, 2006


a cada dia passado
adiantávamos o fim
ou não éramos
jovens demais
às marcas do tempo
em nossa pele
buscando refúgio e ilusão?

segunda-feira, outubro 23, 2006


deus
suas entranhas escondem
um louco enfezado
arrastando pesados grilhões
trancafiando anjos insones
costurando em nossas bocas
preces encardidas
para todo o sempre
maldito seja
amém

sexta-feira, outubro 20, 2006


* DOR ESQUADRINHADA
(EM TRÊS LÂMINAS)

LÂMINA UM

viver
sem trazer chuva
arco-íris
abelhas
sol e
árvores
tocando o entardecer
a mim parecia impossível
- seria como sonhar em voz alta
não voar com os passarinhos do quintal
acordar sem espreguiçar
ou calar na garganta as cores
ilustradoras do eu-menino -

LÂMINA DOIS

assim era a infância
no meu mundo secreto
riscado em giz de cera
que me era infinito
feito de cirandas
de magias e de mistérios
como estrelas engolindo o mar
e parindo um céu novo a cada dia
(BRETON)

LÂMINA TRÊS
mas chegou o amanhã
e tinha gosto de nada
deixando em nossas mãos
um destino rabugento
vigilante de memórias
empoeiradas e distantes
caladas e baldias
para que a vida seguisse seu rumo
(eles disseram)
para que o homem seguisse sem vida
(eles sabiam)
feito bicho acuado
num canto de quarto
fingindo poesia


*do livro artesanal "infância(rabiscos em tons de silêncio)",
com 22 poesias
escritas pra menina que eu amo, numa única madrugada.

terça-feira, outubro 17, 2006


ausente
neste outubro de mim mesmo
finjo o cinza-eclipse
visto pela última vez
trancafiado numa estrela
daquele céu acolá

quinta-feira, outubro 12, 2006


chega o poeta, de pé
já não se nutre das memórias
e percorre com lucidez
os vestígios de si mesmo
milimetricamente sufocados
(a dor ficou enterrada no tempo)

entregue ao fingir, árido
dispersou sem dó as cantigas
que um dia sua mãe lhe ensinara
trancando-se nas cores vazias
daquela envelhecida caixa de lápis
(a vida ficou de todo alijada)

refeito em disfarces, são
regressou à primavera
alimentado apenas pelos restos
dum hoje que sobrevive em seus ossos
covarde, frio e limpo demais
(o amor soube-se exemplarmente amputado)