quinta-feira, janeiro 22, 2009

o sono não é capaz de me vencer
......................................repito

fixando os olhos ao que há lá fora
pra que sejam os teus passos
.............................................

........................e não os ruídos
..............................................

doutro amanhecer empalidecido
>>>>>>>>>>>>>>>>>
..................................a chegar

terça-feira, janeiro 13, 2009

à ana/marie/carole

acreditava que era possível
preencher o tempo
de uma pausa

[por isso os olhos gritavam]

desenhava ruídos
por dentro dos ossos
esqueleto feito de dor

[porque assim não sangrava]

repartia o medo
entre os mortos
encarnados em de si

[uma só vida não lhe bastava]

depurava virtudes
manipulando a razão
ao buscar o que nem sabia

[emprenhava-se enquanto vagava]

ontem pude vê-la pela última vez
tinham-lhe os olhos calado
a louca dos pés descalços


terça-feira, janeiro 06, 2009


in memoriam

celebro-te
não nestas noites povoadas por medos
que me impedem o sono
e só abandonam-me ao amanhecer
porque assim o querem
porque assim voltarão

celebro-te
não com estes olhos cansados
que me turvam os horizontes
e devoram-me naquilo que falta
porque assim os fiz
porque assim cri

celebro-te
na criança que sobreviveu ao homem
nos sonhos que brincam de chuva
nas aquarelas que cirandam memórias
nos girassóis que alvorecem poesia
no teu amor que eu sei logo mais virá

mãe.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

meus demônios
soube enterrá-los
ao cair da última noite
desse ano acinzentado
que hoje chega ao fim

meus demônios
rodearam-me os caminhos
com passos roubados da terra
e promessas sussurradas
ao nascer do sol

livre deles
desabriguei-me de medos
azulei as noites sem pálpebras
cindi as amarguras silentes
expurgando virtudes e crenças

meus demônios
já não os tenho comigo
e se hoje desconheço o destino
que aos meus destinos sobreviverá
amanhã serei eu o selo a me bastar

domingo, dezembro 28, 2008


a partir de agora, as postagens do "pelúdio ao homem de palha" ficarão restritas ao blog com o mesmo nome(tem um link ali ao lado). acho que assim o vomitando fica menos chato, ou coisa que o valha.
.
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são cadáveres
a sala está cheia deles
posso contá-los noite afora
até cansar

e assim o faço

chamando-os pelo nome
acarinhando-os feito crias
porque míseros
iguais a mim

(é patético vê-los sorrir
é patético sabê-los aqui)
>

>
trazem nos olhos a cor do esquecimento
pois não sabem mais viver
sem que o medo os consuma
impunemente

e assim o fazem

celebrando a mediocridade
resguardando as aparências
porque bastam-se
agarrados a si

( é mordaça vê-los destino
é assombroso sabê-los meu fim)



quarta-feira, dezembro 17, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


finitimus


fresta onde ninguém
se move
és presságio que descobre
vozes
amontoadas ao acaso
qual
aurora de anjos caídos

(
musgo

relva


)

terça-feira, dezembro 09, 2008

"prelúdio ao homem de palha" tomo I

mendacium
.
.
.
do que chamam vida
a inervação
onde toda claridade recua
sei
haverá homens
soterrados porque loucos
e em seus músculos e ossos
páginas em branco
.
.

do que dizem morte
o desassossego
onde toda fé desmorona
sei
haverá anjos
esquecidos porque lúcidos
e em suas asas e pálpebras
nuvens de chuva

quinta-feira, novembro 27, 2008

"prelúdio ao homem de palha" tomo I



sanctus

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multidão, multidão
vozes que te perturbam
mas estás só

o que escutas
quando vence o silêncio
são memórias baldias

que não partem
que não ficam
em paz



segunda-feira, novembro 17, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


fremitus


escutei vozes
vindas do lado de fora
chamarem meu nome
sem que houvesse resposta

tinham olhos rasos
desertos em forma de mãos
e o peso das auroras
esquecidas sob os escombros do amanhã

(onde estavam
quando me amortalharam os sonhos
a esperança e as preces
aqueles nascidos de mim?)

sábado, novembro 01, 2008

"prelúdio ao homem de palha".(não-livro) tomo I


ao carlos sousa de almeida


praestantia


há um nada
a corroer-me a vigília

espaço turvo
entre os mortos
os que ficam
os que vagam
dentro de mim

eu gestei o sonho
do qual são vocês
apenas a pálpebra


há rezas caducas
só ouvidas quando noite

ponte atada
ao desassossego
dos que imolam
dos que arrefecem
alheios a mim

eu pari a sentença
da qual são vocês
apenas o verbo

segunda-feira, outubro 20, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


mutus

sei do abandono a quietude. meus sonhos vêm de lá. a demência que me anima é atroz. despedaça a esperança. emaranha o horizonte. e escapa. escorraçado fui dessa cidade de mil nomes ao cair da oitava noite, enquanto o outono lentamente jazia trancado em sombras. reunidos, aqueles homens eram coisa, amontoado de corpos volumosos e sujos a voltarem ódio contra mim. abjetos, por que esconderam o rosto quando passei? por que sussurraram às minhas costas? por que oraram em desespero àquele deus benevolente, risível farsa por eles inventada? por que roubaram meu excesso, ataram meu grito, serviram-se do meu saber, reviraram minhas memórias? achavam que assim mudariam o que lhes escrevi como destino? digo-vos então, homens acobertados pela fé, existirem verdades que chegam pouco antes de o arrebol, trazendo em si as vicissitudes da noite. espirais, alimentam a penúria dos injustos, esvaziando de estrelas o céu. opacas, desconhecem o orvalho e daninham o vindouro. quando mortas, descerram temores. pertencem a lugar nenhum. vide, a solidão peregrina alcançou o luar. eis que se completa a noite. sob o canto da rasga-mortalha, violado pelo jugo ferrenho do olhar de cada um de vós, em desatino sentencio: aqueles que hoje me tripudiaram, amanhã decerto temerão.

segunda-feira, outubro 06, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


amentia

sou meu próprio sumo. nasci de minhas entranhas, antes da luz e do verbo. na palma das mãos cicatrizei o fim de cada estação, ritual amortalhado ao qual chamei destino. desnudo o tempo, apenas a solidão do meu grito me habitava. nem sonhos ou preces, estrelas cadentes ou cantigas, nada, nada havia ao meu redor. por isso fui sementeira e da terra úmida fiz brotar os filhos que hoje renegam minha imagem. por eles criei-me enfermo de toda verdade. por eles aglutinei-me ao silêncio, larva que me infesta a razão. e quis meus olhos avessos à luz. e quis-me refúgio de loucos e pedintes. mas essa multidão nascida de mim, essa horda de homens cambaleantes e vis, zombou, descreu, enlameou o meu nome. porque fracos, porque vãos, porque erros, um após o outro, ruirão. e ao caírem de joelhos, terá chegado a minha hora. sou a única morada, o verdadeiro caminho. a redenção.

segunda-feira, setembro 22, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I

ao rubens da cunha
agminis

há muito caminho por essas paragens. tateei o abandono. fiz da ventura sopro e desatino. nomeei os filhos que não tive. ensinei-os a sonhar os sonhos que não soube. mas apunhalaram-me as costas, meus filhos. desejaram-me morto, ossos e pó. auscultaram-me o coração, buscando dos meus sentires o controle. quanta blasfêmia! como ousaram? ao entardecer chamei-os à morada dos justos, onde a loucura entrecruza as mãos e o céu parece oco, resignado pela imensidão azul. sê prudente, disse ao primeiro. ao segundo murmurei cirandas, restos de uma infância envelhecida que lhe carcome as pálpebras. fiz-me labirinto com as virtudes que vocês não conseguiram suportar, escutaram os demais. sou quem sonambula misérias alheias ao tempo. de migalhas faço meu pão. de assombros, a saliva e o verbo. tolos! pensaram vocês que eu ruiria porque atraiçoado? caída a noite o medo se alarga, infestando de leitos o despertar da felicidade. como sairão daqui? amedrontados feito cães, fugiram aos bandos. sei que acenderão velas ao que desconhecem. as súplicas que deixaram para trás, carregarei comigo até livrar-me do outono. há noite sobrevinda em mim. anjos guardarão meu nome.

segunda-feira, setembro 15, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


obscurum est



- há traidores entre os que ficam.

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- estendo-lhes a mão, num gesto apiedado?

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- têm medo, escuta-os.

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- caída a noite, definham agarrados aos sonhos que não possuem. trazem na boca o sopro da desventura e em seus ossos crescem larvas pegajosas, arrodeadas pelo desamparo.

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- dissésseis seus nomes e já teriam partido?

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- anciãos, aqui chegaram e aqui ficarão até a morte. pios, sussurram antigas preces.

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- arranco-lhes os olhos?

.
- deixa-os, a fé lhes rapinará o arrependimento.

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- sê clemente.

.
- erguerei pontes entre falsos céus. penetrarei-me do verbo. selarei-lhes o próximo alvorecer.

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- anjos anunciarão teu nome.

segunda-feira, setembro 08, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


hymn


girassóis adoecem em minhas entranhas, eu disse, enquanto dava-lhes as costas como se fosse possível esquecer quem são. míseros, como ousam julgar meus atos? sabem vocês a crueza das palavras a roer meu crânio? restos de esperança espumaram em minha boca, mas vocês aqui não estavam quando os chamei pelo nome. condeno-lhes a rastejar, então. porque há cores que escapam ao envelhecer e disso vocês não sabem. porque há desertos invioláveis sob meus pés e isso vocês não suportam. porque na terceira manhã pari-me imune à paz interior e por isso vocês padecem. devolvo aos que ficam as memórias. roubo-lhes a vigília. esmorece o céu. anjos venerarão meu nome.

domingo, agosto 31, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


agnus dei


- cheguei até aqui à revelia de deus. não pretendo voltar.

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- cobra um preço, a felicidade?

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- carrego em meu bolso hóstias que não aceitei. era tarde, minha mãe havia morrido e do meu pai sobraram arremedos. cresci só. cedo perdi meu único irmão.

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- cobre-nos de silêncio, a esperança?

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- contemplam-me os homens. buscam em mim respostas que aliviem a insignificância da vida quando trilhada ao avesso. demência. demência é o que revela a alma de cada um.

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- abençoa-os então.

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- escuta: devolvo aos que ficam o trigo. roubo-lhes a fome. aurora por chegar.

domingo, agosto 24, 2008

"prelúdio ao homem de palha". (não-livro) tomo I


angelus

é preciso inventar um dia de sol e de paz. rirão de mim, dizendo a lucidez escorrer pelos cantos da minha boca e que a aflição dos meus órgãos, desastre, desagrego, rumará comigo até o fim. à porta, são vozes confusas e apressadas a paisagem que me esmiúça o desespero. ergo os fantasmas e sigo. sombras, destino. afã, amargura. há tormentos lacrados em meus olhos, horizonte a me espreitar. há um aporte ao que resta da minha dignidade. anjos ecoarão meu nome.

quarta-feira, agosto 13, 2008

I
tão distantes de ti, meu deus
os caminhos que me trouxeram aqui
e só agora eu sei-los,
regresso

II
tão incerta de mim, meus deus
a fé que me alimenta de esperança
e só agora eu sei-la,
anomia

III
pois se a ti coube, meu deus
escrever o que será meu destino
sou em quem traz nas mãos as linhas
tortas

terça-feira, agosto 05, 2008

ruptura – sombras invertidas remetendo
ao interior dos ossos
cárcere de palavras enervadas – MÚSCULOS
em hipertrofia anabólica
<<<<<<<<<<<<<<
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< há um padrão nisso tudo
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
um ciclo
(tiquetaquear)
amorfo
que
sobre-
>>>>>>>><<<<<< >vive>>>>>>>>>>>>>>>>>distante
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
[o limite é impreciso quando o corpo
<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<sonha]
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
sabemos agora
ele veio com a primeira aurora
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e no hálito trazia saudade –

um eco sujo de mar

terça-feira, julho 29, 2008


carrega a ti enquanto filho

o ressoar da infância

umbilicada ao tempo que te vê passar

(tem sede tem fome tem medo )


e transmuta o silêncio
dos teus pés molhados de rio
nascente da chuva
que não vem



por acaso sabes quem és

ou somente centelhas

sonhares?