sexta-feira, outubro 06, 2006



pra ti,
antes que a vida
nos interrompa...


(porque eu te odeio, mesmo não te amar sendo-me impossível;
porque a certeza tua de que a mim sobreviverás mastiga meus ossos
e cospe a fragilidade de estar vivo direto no meu rosto;
porque continuarás sorrindo quando eu não mais estiver aqui;
porque até o último instante que me restar eu serei teu,
mesmo que você já nem mais saiba da cor dos meus olhos
ou da fúria de deus, que um dia eu roubei pra que nós pudéssemos sonhar
)





nesta insônia que não termina, fujo do amor que fizera amputado
(estou num quarto vazio, debruçado sobre as lembranças que pude alcançar)

a ausência tua cutuca a insegurança de mim faminta
(você disse que jamais seria mulher de um homem só – lasciva)

sóbrio e incansável, examino-me nos traços teus que nos meus olhos ficaram
(encontro um esboço de gente ridiculamente medroso, a choramingar – lasso)

ecoa pelas entranhas a tua voz sussurrando que seríamos intensos e breves
(soca-me o rosto o que é derradeiro: você nunca mentiu; eu é que não quis acreditar)

sexta-feira, setembro 29, 2006


anjos possessos
consagraram o amém
sob um horizonte feito de cinzas
aos meus olhos desabando

– respirei da primavera
a primeira fagulha
recortando meu destino
diante da relva –


(sonho parido na raiz da aurora)

sábado, setembro 23, 2006


alcanço mais um ano
esfarelo a esperança
impedindo-me de alcançar
o rastro do poente
as sobras de rio
[hoje, sou um rabisco no caderno de desenhos
que nas mãos de menino
outrora fiz nanquim]

sepultadas as cores
poesia transparece medo
diante da morte fielmente postada ao nosso lado
sabedora de que deus nem sempre está
disposto a ocupar-se de nós
[hoje, inicio um ciclo há muito planejado
pra nos escombros do homem
imperar a indiferença]

sexta-feira, setembro 22, 2006

escutas sussurrarem teu nome
mas não há ninguém por perto



louco

quinta-feira, setembro 14, 2006


[Você é capaz de contar as horas que faltam para o próximo amanhecer sem que o peso do olhar divino não assole as tuas certezas de giz? Você consegue dormir em paz sabendo que existem anjos vigiando teus sonhos, prontos a te abraçar quando você menos espera? Quando o escárnio retornar à tua boca e você já não tiver mais forças para vomitar, quem saberá do seu destino? Ajoelha-te em sinal de respeito e silencia o que te traz alegria. Este é o preço reservado àquele que se aventurou a sonhar.]



branco
é dor gotejada
ruído estrangulado
aproximando medo e solidão
do que preservas da esperança
deixando teu corpo mais sensível
às ilusões de preces adoecidas

branco
é pesar anunciado
deus esquelético
escolhendo formas e datas
pra levar antes de ti aqueles que amas
deixando teus olhos marejados
às sobras duma fé carcomida

quarta-feira, setembro 06, 2006



Tinha setenta e nove anos e já não suportava a dor que lhe acompanhava nos últimos trinta e seis meses. No início, deram-lhe algumas semanas de vida – antes fosse, muitas vezes pensou. Não se imaginara terminando desta forma, debilitado e dependente – remédios, parentes, enfermeiras, leitos e, agora, essas agulhas, soros,tubos e o azul...o azul do céu que tanto lhe faz companhia quando a noite chega e as estrelas cadentes não passam, não mais.Da última vez que pôde correr, guarda poucas lembranças(a idade o trai; já não sabe se foi na meninice ou num sonho sob efeito das medicações. De fato, podia ter sido ontem, mas ele não estará lá para saber.) Não rezava mais e mesmo assim esperava por deus ou ao menos anjos quando a hora chegasse. Haveria de ser em plena madrugada, sem ninguém perceber. E só uma, só uma pessoa haveria de fechar-lhe os olhos. Para sempre. Às duas e quarenta e sete fez-se a sua vontade.




já nas entranhas da morte
o que respirava possuía
mais cores sombreadas do que
a tranqüilidade do sofrimento
INTERROMPIDO

seus últimos instantes não trouxeram
sua vida contada velozmente
apenas imagens desaceleradas
agrupadas em blocos rígidos de cores
INEXISTENTES

(não pôde ver sua infância brincada de novo
não sentiu a chuva por entre seus dedos
não reviveu as manhãs de girassóis
nem as noites silentes de espantalho
e não houve deus ou anjos ao seu lado
só as mãos da mulher amada
a fechar-lhe pela última vez
os olhos que soubera castanhos)

sexta-feira, setembro 01, 2006


[Suas mãos sabiam o arrastar do tempo. Reconhecia o desespero, a melancolia e a desesperança pela cor inominada escavada nos ossos dos agonizantes. Não lembra quando tudo começou, mas aceitava como seu destino. Quando criança, chamaram-lhe estranho. Adulto, inventaram-lhe louco. Nas ruas, encontrou o abrigo da indiferença. E moedas, para cumprir a sua sina.]
acolhedor de almas
o velho mendigo
no seu ritual silencioso
repetido dia após dia
sem que ninguém
saiba o porquê
lança a moeda
e espera a resposta



que desta vez não veio



deus


não estava ali


deus


não paga promessas


deus


é o pequeno instante


entre o chão


e a moeda

domingo, agosto 27, 2006


deus
eu sou o silêncio
que lhe falta
as mãos serenas
que lhe acolhem
a margem do rio
que lhe revela

o amor
a ternura
a felicidade
a fé

que lhe derrota
quando a morte
vem nos assombrar

segunda-feira, agosto 21, 2006


você olha por dentro dos meus ouvidos
dos meus olhos e da minha boca
pressiona a minha cabeça
com dedos frios e meticulosos
procurando por culpa e pecado
querendo espremer a minha alma
dissecar-me os sonhos
punir-me os sorrisos
como se eu fosse igual a ti
como se em algum momento
eu tivesse sido algo além
desse espantalho isento de dor
mísero fazedor de palavras
compreendidas em lugar nenhum

não!
basta!
silencie!
desapareça!

tire seus dedos de dentro da minha cabeça
os meus olhos,
deixe-os verdejarem no jardim
junto aos sonhos e sorrisos
livrai enfim
a minha alma
das suas sentenças mentirosas

(o seu julgamento hipócrita e covarde
escarra-os diante do espelho)

porque eu não sou feito de medo e desamor
porque eu não sou feito dessa verdade nojenta
a entupir suas artérias e empanturrar seu estômago
fazendo de você um pedaço de vida ensinado
para esquecer por todo o sempre
debaixo do céu existirem girassóis
e que as cirandas e as cantigas de ninar
sobreviveram sim aos agouros
desse deus por você um dia manchado
ao acreditares que isso era ter fé

terça-feira, agosto 15, 2006


qual sorriso vestirás
quando o palhaço de domingo
trouxer teus amanhãs
estrangulado em luzes
que de sombras, nada mais
pois estivemos aqui
antes ?

quinta-feira, agosto 10, 2006


para mari


havia minhocas germinado vida no coração do menino
,todos diziam que era doença
então trouxeram médicos com olhos de vidro
que diagnosticaram algo com nome esquisito
– médicos dão nomes esquisitos ao que não entendem –
& vieram os remédios com gosto de céu sem nuvens
(doses exatas, a cada hora exata;
todo dia, até quando?)


havia minhocas germinando vida no coração do menino
noite após noite, por meses que nem lembro quantos
mais e mais minhocas no coração do menino
trazendo sonhos carinhados por anjos
– sorrisos precisam de carinho, seja no frio ou no calor –
& vieram as noites vividas entre estrelas cadentes
(cores largas, a cada mínimo instante;
toda noite, pra sempre?)


eram minhocas germinando vida no coração do menino
era amor que crescia esparramado pelo corpo inteiro
nos ossos e na alma, o menino amava
só precisava da menina dos girassóis ao seu lado
– mas isso não podia no mundo onde os adultos viviam –
& vieram paredes pintadas de branco e sem cheiro de chuva
(sorrisos costurados, solidão;
por toda a vida, aonde você está?)

segunda-feira, agosto 07, 2006

palavras
(sentenças desconexas - cores pintadas num quadro sem alma)

emoções
(trilhos exatos - gotas de chuva presas no caderno que joguei no quintal)

sonhos
(risíveis - não há mais brinquedos espalhados no quarto do meio)
amor
(temores - a solidez lentamente ocupando meus ossos )
- eu, silenciado -

segunda-feira, julho 31, 2006

eu
mudo



– escute –
ainda estou
aqui

& meu sangue
,pouco
há de ser
frágil
instante
quando souber
-es)
de mim
essa dor
esse amor
essa perda
(-en
fim

sábado, julho 15, 2006


o sol nascente trazia cores dentro de caixas de papelão
e ninguém te escutava;
sobre as páginas em branco eram sonhados lugares que as mãos
esqueceram antes de ti;
foi preciso destrancar a porta e trazer todos de volta às paredes deste
quarto limpo demais;
TODOS
(os teus bichos feitos de sombras
as tuas brincadeiras de menino
a chuva
& os girassóis
tudo esmiuçado
estudado
analisado
explicado
rotulado
olhado por dentro
– mas eles não saberão
que o lado mais esquisito
é o lado de lá
onde a dor
não te alcança
e as madrugadas são
pirilampos
com asas relampejadas)

quarta-feira, julho 12, 2006


Morte. Estava mesmo debruçado sobre as marcas que dela ficam em nós(a imagem que aqui postei domingo passado trazia tais marcas na pele). Morte. Por mais que eu escreva todos os meus fantasmas, eles permanecem. Morte. confesso ter medo[seria um silêncio ininterrupto que não permitiria espaço para mais nada?] Hoje soube da morte do Syd Barrett – um cara que marca a minha vida. Louco é perceber que um dos meus primeiros blogs destripava sons, e que a única postagem dele foi justo sobre o Syd. Vomitei algumas imagens agora e postarei-as aqui. Outras, têm mais a cara dos outros blogs – deverão por lá aparecer. No eu, espantalho, certamente – o espantalho em mim traz coisas do scarecrow do Syd, lá do primeiro disco do Floyd. Há pouco, conversei ao telefone com um amigo meu, o Marco. Na verdade, ele mais berrava insanidades que conversava. E foi assim, insanos, que um dia, bem moleques ainda, descobrimos os mundos trazidos pelas gargalhadas do Madcap. O silêncio chegou. Saibamos escutar.
pro syd



espere mais um pouco
eu ainda tenho pedaços de
sonhos
para te entregar
e o sol parece
gostar de nós
não peço que fiques
pois sei que tens outros
mundos
para pintar de azul
e as tuas mãos já não
escondem
o peso de estar vivo
quando o que mais desejas
é sair de ti e acordar
fora de tudo
com os olhos longe do chão
livre daqui
livre daqui
livre daqui
Isn't it good to be lost in the wood
isn't it bad so quiet there, in the wood

domingo, julho 09, 2006


dezenove de abril
nossa casa ficou vazia
as paredes calaram nossas vozes
o jambeiro perdeu todas as cores
os brinquedos espalhados
pelo quarto do meio
não mais foram brincados
envelheceram por dentro
como se fossem ossos nus
& as joaninhas
& os percevejos
& os calangos do jardim
entristeceram ao pôr do sol
levando a primavera embora
porque a morte lá esteve
para roubar a nossa mãe
acabo de avivar mais um blog. porque há imagens que me invadem sob a forma de rascunhos. e como rascunhos, serão expostas. é só passar por aqui http://rascunhosesilencio.blogspot.com/

segunda-feira, julho 03, 2006


pro celso, do cárcere - tuas palavras despertaram essas imagens
pra menina que amanhece meus girassóis - teu amor me faz feliz
antes
havia o medo de amar
menina dos olhos descalços-de-vento
& tudo era desmedido
como quem não sabe esperar
PELO INSTANTE
[mas há pressa demais no futuro
e aquilo que ficou para trás não sabe caminhar]

antes
eu não sabia teu cheiro
menina da pele branca-de-nuvem
& tudo decrescia
como quem recorta a felicidade
TODOS OS DIAS
[mas já há dor demais nessa vida
e o que escapa ao poente a noite devora]

hoje
fere-me o sol pálido
menina dos pés rabisco-de-aurora-andaluz
& tudo respira arremedos
alimentados pelo mar cansado de fúria
PORQUE NÃO ESTÁS AQUI
[mas sempre foi amor o que me assustava
e solidão aquilo que eu tão bem conhecia]

terça-feira, junho 27, 2006



PRELÚDIO
I
o inverno que nos afasta
devorado será
por todas as primaveras
que virão
nos olhos da dor
gotejar girassóis

II

a menina que eu amo
guarda andorinhas
caracóis
& ventania
O SEGREDO DAS AURORAS

III

ciclo: pés descalços
teus cabelos gosto de pássaro voando

▒▌

meus dedos são cores cantando cigarras
.
.
.

IV

credo: chuva miúda
teus olhos de jabuticaba


dá-me teus medos
dar-te-ei meu sonhar

terça-feira, junho 20, 2006


o chão de tacos corridos
era memória inventada
como era faz-de-conta
a joaninha germinando primavera
à sombra da acácia
que trouxe a minha mãe de volta
para embalar-me canções de ninar
porque deus às minhas preces
finalmente ouvira
e carregara a morte pro lado de lá